Eduardo Jorge, o candidato mais “descolado" das eleições

Sérgio Spagnuolo
Eduardo Jorge, o candidato mais “descolado" das eleições

Por Sérgio Spagnuolo - Quando era bilionário, Eike Batista se gabava de ter um carro esportivo estacionado na sala de estar de sua moderna mansão no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

Já Eduardo Jorge, candidato do Partido Verde à Presidência nas Eleições 2014, prefere admirar a bicicleta de 21 marchas encostada no piano de sua sala de estar em uma casa ampla e arborizada na Vila Mariana, em São Paulo. “O Eike Batista não tinha uma Ferrari na sala da casa dele? Bem, eu tenho isso aqui”, disse sorrindo o ambientalista de 65 anos.

Na verdade, o ex-bilionário não expunha uma Ferrari em sua sala, mas sim uma Mercedes SLR MacLaren avaliada em cerca de R$ 3 milhões. Mas, para Eduardo Jorge, a diferença entre um bólido italiano e um alemão é a mesma de seis para meia dúzia. Ele nem carro tem - os dois veículos listados em sua declaração de bens, um Honda Fit 2003 e um Citroen C3 2010, são de sua esposa e de sua filha.

Leia também:
Eduardo Jorge é questionado sobre campanha com Marina
Nova pesquisa Datafolha aponta empate virtual entre Dilma e Marina Silva

“Acho que o Marcelo Tas vai gostar de ouvir isso, mas não tenho nada contra carro, eu inclusive gosto de viajar de carro, já fui pro Nordeste acho que umas 20 vezes, a BR-101 eu conheço inteira”, disse o ex-deputado constitucionalista. “Mas eu procuro usar o sapato, a bicicleta, ônibus e o metrô sempre que posso, é uma questão de princípio.”









Essa informalidade não é só em tratar o transporte e distingue Eduardo Jorge frente aos outros candidatos.

Ele só usa terno “se for obrigado”, é vegetariano por convicção, usa tiradas irreverentes em suas falas nos debates e parece não ter vergonha nenhuma de ser alvo de piadas na Internet, e sua campanha, inclusive, explorou os memes nas redes sociais no horário eleitoral gratuito da TV.

Enquanto seus adversários tentam passar uma característica mais séria e com respostas controladas, Eduardo Jorge, médico concursado do Estado de São Paulo, se apresenta como uma voz espontânea no meio deles.

Mas sua mais relevante característica é o viés liberal das políticas propostas. Junto a Luciana Genro (PSOL), ele é o candidato mais liberal entre os partidos que possuem representação na Câmara.

Favorável à descriminalização do aborto, à legalização das drogas e de uma economia “verde" com forte redução de gases-estufa e mudança no comportamento do consumidor, entre outras coisas, suas propostas podem atrair muitos eleitores jovens e outros mais liberais, mas certamente afastam a maior parte do eleitorado conservador brasileiro.

E seu jeito mais informal às vezes pode ser encarado como desleixado e pouco sério às vistas do eleitorado acostumado com uma retórica mais tradicional e com toda a formalidade inerente à posição de postulante ao cargo máximo da nação.

Como era de se esperar, ele não não tem nada a ver com isso.

"Tem gente que gosta e gente que não gosta, que questionam ‘por que um sujeito vai falar desse jeito espontâneo em uma disputa para presidente da República’?”, disse ele. "Mas é muito importante que o eleitor conheça os candidatos de verdade, os candidatos sem maquiagem.”

"Muitas vezes os candidatos, com suas candidaturas milionárias, são guiados pelos marketeiros, perdem completamente a espontaneidade e perdem, inclusive, o direito de dizer o que pensam”.

O candidato baiano não esconde a decepção e a incredulidade sobre alguns aspectos de rivais que respeita, mas que, segundo ele, precisam agir de maneira diferente às suas próprias crenças a fim de não afastar parte do eleitorado. A questão do aborto é um exemplo disso, diz ele, principalmente com Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), que já se posicionaram favoráveis à legislação em vigor, que permite o aborto em alguns casos específicos, como o estupro, mas ainda é muito restritiva e antiquada, segundo o ambientalista.

"Na questão de tratar as mulheres como criminosas (pelo aborto), você acha que uma pessoa instruída como nossa presidente ou uma pessoa instruída como o Aécio pode pensar diferente de mim nessa questão?”, disse Jorge, que teve formação católica mas vai contra os dogmas da sua religião nesse assunto. "Mas são obrigados a falar diferente."

Já Marina Silva (PSB), para quem trabalhou na coordenação da campanha à Presidência em 2010, quando a acriana concorreu pelo PV em uma “campanha linda e vitoriosa”, ele diz entender que sua posição contrária ao aborto advém de crenças religiosas, mas alertou elas não podem influenciar o Estado nem a saúde pública.

O candidato também se ressente do fraco debate eleitoral no país neste ano, tomado, principalmente, por questões mais incendiárias como a inclinação pessoal dos candidatos, a troca de acusações entre rivais, escândalos de corrupção, pesquisas de opinião e pela fulminante ascensão de Marina Silva após a morte de Eduardo Campos em um trágico acidente aéreo em 13 de agosto.

Os tabus sociais, como aborto e legalização das drogas, também são temas recorrentes nos debates eleitorais, e muitas vezes se esgotam rápido. Temas como reforma política, economia e relações exteriores têm sido relegados ao segundo plano em meio ao cenário inflamado.

“Eu não fujo desses desses assuntos (tabus)… falo quantas vezes quiser, mas o problema é que às vezes as pessoas não me perguntam sobre os outros pontos, ninguém me pergunta sobre reforma tributária, sobre reforma da previdência, sobre política internacional”, reclamou o candidato.

Em seu plano de governo de 31 páginas ele aborda os mais variados temas, como uma reforma política extrema, que prega a redução de salários e dos gabinetes parlamentares e a “extinção do Senado”, assim como a não remuneração de vereadores, buscando, acima de tudo, levar a democracia mais para o âmbito regional do que federal, em uma abordagem classificada como “mais Brasil e menos Brasília.”

No fim das contas, o candidato do PV reconhece a dificuldade de vencer as eleições neste ano (ele tem ficado abaixo de 1% nas intenções de voto nas pesquisas eleitorais), mas acredita que o voto por convicção no primeiro turno dará chances ao partido para poder influenciar na disputa de um eventual segundo turno - no qual ele não revela quem apoiaria.

Apesar de tudo o que tem a propor para a política nacional, sua defesa para a legalização das drogas talvez seja o que mais o persiga nos últimos dias.





























Após brincadeiras bastante diretas nas redes sociais sobre sua defesa pela liberalização da maconha e sobre seu jeito despojado, ele prefere deixar tudo preto no branco. Antes de a reportagem do Yahoo Brasil deixar sua casa, ele se deparou com uma planta de um formato, digamos, peculiar.

“Está vendo essa planta, pode ficar tranquilo, não é maconha não”, disse ele. Explicação estranha e espontânea, mas compreensível. Afinal, é melhor não arriscar.

Siga o repórter no Twitter (@ProjetoStock)