Se presidente e general desobedecem a lei, quem vai respeitá-la?

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - MAY 23: President of Brazil Jair Bolsonaro and former Health Minister Eduardo Pazuello meets supporters at the Monument to the Dead of the Second World War during a motorcycle rally on May 23, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Wagner Meier/Getty Images)
O general Eduardo Pazuello em ato de campanha antecipada ao lado de Bolsonaro no Rio. Foto: Wagner Meier/Getty Images

Jair Bolsonaro feriu as regras de trânsito, dias atrás, ao circular de moto sem capacete com o fiel escudeiro Luciano Hang por uma rodovia de Rondônia.

No Maranhão, desafiou decretos sanitários locais ao figurar sem máscaras num ato de campanha.

Sim, ato de campanha.

Em tese, falta pouco mais de um ano para as eleições, mas o presidente está em campo pela reeleição desde que tomou posse para o primeiro mandato.

Cada aparição pública é um palanque, pago com dinheiro público, com direito a discursos de campanha, promessas, ataques a adversários e símbolos políticos que fatalmente aparecerão em sua propaganda eleitoral.

O palanque só não tem o número de legenda porque o presidente não decidiu ainda qual partido lhe abrirá as portas para ser fagocitado em 2022. Como fez com o PSL em 2018.

Bolsonaro, que vendeu na campanha uma promessa de ordem e patriotismo, acelerou a falência da coletividade ao colocar em primeiro plano uma ideia torta de liberdade. A dele. Tirada a primeira camada de poeira, essa liberdade evocada se revela apenas como egoísmo e desobediência.

Visto de cima, Bolsonaro autoriza uma multidão a fazer das regras de convívio o que bem entender.

Máscaras? Uso se quiser.

Distanciamento? Boicoto quando posso.

Regras de trânsito? Meu carrão, minhas regras.

Normas ambientais? Desprezo.

Lei eleitoral? RISOS.

Em sua “motociada” pelas ruas do Rio de Janeiro no fim de semana, Bolsonaro fez tudo o que as autoridades sanitárias pedem para ser evitado em tempos de pandemia. Ele respondeu com sua banana de praxe.

Nada de novo.

Se havia alguma promessa que não durou uma semana de mandato foi a de que o menino desobediente, que cavou sua expulsão do Exército e passou 30 anos na Câmara fazendo malcriação, seria logo domesticado pelas instituições e os ritos da faixa presidencial.

Ele não faz outra coisa desde então se não desmoralizá-los.

Acontece que, nesse mesmo ato, ele arrastou para o palanque um general da ativa, seu ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Isso em um país onde militares da ativa não podem se manifestar politicamente —afinal, se a ideia da instituição é proteger os cidadãos, fica difícil esperar qualquer presteza quando seus integrantes aderem a um projeto que transformou boa parte do país em inimigo.

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O passeio do general instalou uma bomba entre os superiores das Forças Armadas.

Se ele faz o que quer, aos olhos de todo mundo, e nada acontece, como cobrar dos soldados alguma observância ao que determinam as normas e estruturas hierárquicas?

Entre desagradar o presidente em campanha e a desmoralização, a escolha não deveria ser tão difícil, mas os precedentes dizem o contrário.

Não foi Pazuello, e sim um ex-comandante do Exército quem abriu a porteira para a boiada ao manifestar, no Twitter, seu posicionamento político em relação a uma decisão do Supremo Tribunal Federal —que seria determinante para o futuro das eleições de 2018.

Pazuello é só a versão mais grosseira daquele tuíte.

A forma como transita seguro e orgulhoso da própria insolência é um retrato do estado avançado de deterioração institucional do país.

Na garupa dos motoqueiros rebeldes, o Brasil que mirou a ordem e a disciplina virou uma grande balbúrdia em que todos, a começar pelo presidente, fazem das regras o que bem quiser. Inclusive atropelar.