Educação empreendedora vai além de ensinar a abrir negócio

*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, 18/10/2021: Alunos na escola EE Cesar Martinez, em Indianopolis. Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress
*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, 18/10/2021: Alunos na escola EE Cesar Martinez, em Indianopolis. Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O novo ensino médio, cuja implementação começa neste ano, tem o empreendedorismo como um de seus "eixos estruturantes", conjunto de orientações que formam os cinco itinerários a serem escolhidos pelos alunos (outros exemplos são ciências da natureza e suas tecnologias e matemática e suas tecnologias.

Uma educação empreendedora, porém, não significa ensinar os alunos a criar empresas e gerenciá-las.

"Muitas vezes se condiciona o termo a abrir um negócio, mas nos esquecemos das competências que esse tipo de educação pode despertar no estudante para lhe ajudar, independentemente do que escolher para o futuro", diz Conceição Moreno, gestora do programa nacional de educação empreendedora do Sebrae do Rio Grande do Norte.

O órgão tem parceria com escolas públicas de todos os municípios do estado para capacitar professores por meio de oficinas e seminários.

As competências às que Moreno se refere são, entre outras, criatividade, comunicação, planejamento, solução de problemas e trabalho em equipe, habilidades valorizadas no mercado de trabalho, as chamadas soft skills.

Idealmente, os alunos precisariam ter contato com práticas que lhes estimulem a pensar, e não a decorar conteúdo, de maneira transversal, não numa aula específica.

"Não adianta ter 30 aulas numa semana, uma em que o professor diz ‘OK, vamos agora fazer algo diferente’, e outras 29 no modelo tradicional", afirma Claudio Sassaki, fundador da Geekie, plataforma de educação que auxilia alunos a estudar de maneira personalizada, fornecendo material às escolas.

Para Thomaz Martins, coordenador do centro de empreendedorismo do Insper, autonomia, experimentação, visão centrada no outro e cocriação de soluções ajudam também no autoconhecimento.

"Num período em que você está tendo muitas descobertas pessoais, tudo isso ajuda. O mundo é cada vez mais inovador, e tomar decisões de risco é parte da vida, mas como tomá-las se você só recebe a resposta pronta na apostila?", questiona ele.

O objetivo de uma educação empreendedora é ensinar como buscar as informações, processo que envolve discussão com colegas, pesquisa e mudança de rumo, caso seja necessário.

"O estudante tem que ter autonomia. Isso é fundamental. Tem que buscar como aprender algo. A gente sai de uma educação transmissiva para uma participativa. O professor atua como mediador para que os alunos consigam buscar respostas", afirma Ana Ligia Scachetti, gerente pedagógica da Associação Nova Escola, organização sem fins lucrativos ligada à Fundação Lemann, que capacita e qualifica educadores.

Para exemplificar, ela projeta uma aula de ciências sobre corpo humano.

Num modelo tradicional, os alunos aprenderiam quais são as partes do corpo e suas funções; numa abordagem empreendedora, seriam instados a aprender sobre o impacto da alimentação e de hábitos saudáveis nos órgãos. Segundo ela, o ideal é que esse tipo de educação, centrada no aluno, esteja presente em várias matérias e se torne algo orgânico.

Tudo isso passa, claro, pela formação do corpo docente das escolas.

"Para fazer essa mudança, o professor precisa não só de formação técnica, mas de muita prática. Precisa planejar as aulas, refletir e replanejar se necessário. Às vezes o professor acha que a aula virou bagunça com todo mundo falando no início, mas depois o resultado acaba sendo superpositivo. É legal que haja um acompanhamento de um coordenador que entende que mudanças acontecem no médio prazo", diz Ana Lígia.

O processo, porém, não deve ficar restrito à sala de aula, mas ser adotado pelas instituições como um todo.

"Pouco adianta o professor tentar ser inovador e o ambiente escolar completo não ser assim. A direção não deve só treinar os docentes, mas garantir que os alunos possam se arriscar", diz Sassaki, da Geekie. A plataforma, que tem quase dez anos, atende cerca de 450 escolas do país, todas particulares, atingindo quase 110 mil alunos.

Mesmo antes de o novo ensino médio entrar em vigor, algumas escolas já trabalhavam com a educação empreendedora. Na Pioneiros, que fica na Vila Mariana (zona sul de São Paulo), alunos são instados a desenvolver projetos nesse sentido desde o nono ano.

A ECOlher, projeto de misturador de café sustentável, retornável e de bambu desenvolvido na escola, está entre os 70 finalistas da Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia).

Para além dos resultados e do produto em si, o processo pelo qual os alunos passaram no desenvolvimento do produto trabalha as competências propostas pela educação empreendedora.

"Houve investigação científica. Eles ficaram observando o comportamento dos clientes de padarias com suas colheres de mexer o café, e proposta inovadora", diz Márcia Sakay, coordenadora de ciências da escola.

O projeto serve a outros objetivos da educação empreendedora: contribuir para a economia circular, já que o produto é feito a partir de resíduos de bambu usados por outras indústrias, e também tem impacto ambiental, porque o produto pode ser usado várias vezes. Além do misturador em si, os alunos desenvolveram um estojo para guardá-lo.

"Eles eram orientados, mas o protagonismo foi todo dos estudantes. Antes de o produto dar certo, eles fizeram outros cinco opções, e viram que não eram boas por algum motivo, então foram consertando", conta Márcia.

Novo ensino médio

A carga horária obrigatória passa de 800 horas anuais para pelo menos 1.000 a partir deste ano. A lei prevê ampliação progressiva para 1.400 horas (7 horas diárias), mas não estabelece prazo para isso.

Parte da carga horária será comum a todos os estudantes, com as matérias tradicionais, e aos menos 40% do tempo será dedicado aos chamados itinerários formativos, escolhidos de acordo com os interesses pessoais.

Itinerários

ciências da natureza e suas tecnologias

linguagens e suas tecnologias

ciências humanas e sociais aplicadas

matemática e suas tecnologias

há também a possibilidade de formação técnica e profissional

Eixos estruturantes

Dentro de cada itinerário há eixos estruturantes, que servem de base para a abordagem das disciplinas e auxiliam os alunos a desenvolver suas habilidades. São eles:

investigação científica

processos criativos

mediação e intervenção cultural

empreendedorismo

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