A educação para transformar masculinidades: como formar homens não agressores

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Pai da pequena Laura, de 1 ano e 9 meses, o historiador Luciano Ramos faz parte de uma geração de homens que consideram a responsabilidade participativa que integra a sua paternidade. Em casa, Ramos dá os primeiros passos na educação de uma futura mulher, consciente e empoderada da importância da equidade de gêneros e mais preparada para enfrentar o problema recorrente do assédio sexual. Em outra frente, é com meninos - adolescentes e jovens adultos - que Ramos trabalha o conceito da "masculinidade positiva": ele é consultor de projetos e programas do Instituto ProMundo, ong que nasceu em 1997 e atua no Brasil e em outros países com a missão de promover a igualdade de gênero e a prevenção da violência a partir do envolvimento de homens e mulheres na transformação de masculinidades.

- Antes dos anos 1990, a discussão de gênero era mais voltada a discutir a feminilidade, as desigualdades. Somente a partir desta década, as assembleias gerais da ONU passaram a debater, também, como o homem podia ser inserido na formação de uma sociedade de não perpetração da violência de gênero. O homem passou a não ser olhado apenas como o agressor, estático. Existem masculinidades distintas, possíveis, e é nesse lugar de discussão que surge o ProMundo - explica Ramos.

Além de pesquisas sobre o tema, a ong vem promovendo programas e oficinas, em diferentes contextos, para discutir e refletir sobre como é possível transformar normas sociais que perpetuam práticas violentas. O Programa H, por exemplo, propõe junto a um público masculino a questão: "Por que meninos adolescentes e homens jovens agem com violência?". Ramos explica a eficiência de trabalhar com este homem "ainda em formação", no sentido preventivo, para "romper o pacto que o machismo implementou" e evitar futuras agressões, sexuais ou de outra natureza, contra mulheres. Mas também diz que é possível fazer processos de mudança em diferentes faixas etárias, mas sempre deverão ser processos educativos, "não é apenas apontar o dedo".

- À primeira vista, a violência é inexplicável, abominável. E de fato é. Olha-se sempre para quem sofreu a violência. E é importante, é preciso acolher as vítimas. Mas não se olhava para a origem, que está em uma sociedade formada para entender a feminilidade como um lugar de subserviência e submissão, Quando as mulheres não correspondem a estes lugares do machismo, os homens agem com violência, que pode estar no assédio e no abuso sexual ou em agressões de outra natureza - diz.

Ramos explica que, em todas as oficinas do ProMundo, os tipos de violência são tipificadas. Homens e mulheres "saem sabendo" o que é violência física, sexual, estupro. Em muitas situações, o historiador conta que homens cometem a violência sem nem entender que aquilo é violento.

- Muitos homens adultos dizem não saber, por exemplo, que forçar a esposa a ter relação sexual é estupro - exemplifica.

E a importunação sexual? Aquelas incômodas aproximações como cantadas e contatos físicos não apropriados que, infelizmente, boa parte das mulheres sofrem desde bem jovens? Em uma oficina feita com motoristas de um aplicativo de corridas, no Brasil e na América Latina, quase todos os participantes não tinham a consciência do problema envolvido em se elogiar uma mulher ao entrar no carro dele, por exemplo.

- Eles não entendiam que a mulher poderia se sentir insegura, exposta, fragilizada. Ali, escutando uns aos outros e praticando o que chamamos de educação entre pares, era mais fácil entender suas próprias ações e "virar a chave" para não fazer mais - conta.

E a reflexão em grupo traz resultados? Os números colhidos após trabalhos da ong mostram que sim. Em questionários aplicados após uma prática educativa sobre paternidade, por exemplo, 78% mulheres relataram processos de mudança na equidade de gênero junto a seus maridos, no dia a dia em casa. No início de uma ação realizada com famílias do Morro dos Prazeres e Guararapes, oito homens que ainda não eram pais se diziam plenamente preparados para a paternidade. Ao final, sete deles afirmavam que não sabiam que ainda não estavam "prontos".

Em frente a Laurinha, Luciano não tem dúvidas ao afirmar que é da geração de pais que estava.

- Ela veio no momento mais certo e necessário da minha vida - conclui.

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