Educação consciente: qual é o papel dos pais no educar?

Redação Notícias
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Por Milena Buarque (@mibuarque)

Qual é o papel dos pais na educação dos filhos? A responsabilidade de educar é da escola ou da família? Com a pandemia de covid-19, e a consequente alteração no calendário escolar, pais e mães tiveram de lidar com uma nova realidade na rotina: a presença dos filhos, de maneira integral, em casa.

“Os pais estavam sendo cobrados pelas escolas de que os filhos participassem das aulas. As crianças, por outro lado, não queriam participar. Ao mesmo tempo, era difícil para o pai cobrar o filho quando ele não estava acreditando muito no que via. Esses pais foram chegando para nós e indagando: e agora, o que eu faço com essa situação dentro de casa?”, conta a pedagoga Camilla Yamin, fundadora da Casa de Yiayiá, primeiro espaço em São Paulo dedicado à filosofia da Educação Viva e Consciente.

Procurando apoiar a livre expressão das crianças, fomentar o encontro humano, com a criação de vínculos afetivos reais que possibilitem o desenvolvimento e a confiança de que as crianças necessitam para a sua evolução, a Educação Viva e Consciente, formulada pela educadora uruguaia Ivana Jauregui, tem como um de seus pilares o trabalho em equipe com os adultos. “Não existe educação na escola se a família não está junto. Essa é a filosofia da Educação Viva e Consciente”, conta Yamin.

Com a Casa de Yiayiá em funcionamento, a pedagoga passou a organizar uma série de palestras que teriam como foco a metodologia educativa de Jauregui, referência no tema na América Latina. Segundo Yamin, contar com as famílias na educação dos filhos implicaria justamente em uma formação voltada aos pais e às mães. “Compartilhei com Ivana o meu desejo de criar uma escola para pais e mães dentro da metodologia da Educação Viva e Consciente.” No entanto, logo veio a pandemia.

Escola para Pais e Mães: o papel no educar

Como dar limites sem criar limitações, abordar temas como guiança e liberdade ou mesmo falar de pequenos tabus, que atravessam questões sexuais, medos e morte? Todas essas dúvidas cotidianas e comuns aos adultos passaram a compor o quadro de assuntos da Escola para Pais e Mães, uma formação 100% on-line, que visa, nas palavras da pedagoga, acordar o educador dentro de cada um.

Desenhado inicialmente como um curso em parte presencial, a Escola teve de se adaptar à realidade do isolamento e do distanciamento sociais. A nova e até então desconhecida rotina, contudo, parece ter colaborado para o interesse na iniciativa: de março a outubro, quatro turmas de formação foram concluídas. Neste momento, um quinto grupo de pais e mães se prepara para 36 aulas que vão de temas complexos, como resolução de conflitos, a etapas naturais ao desenvolvimento da criança, como a fase da alfabetização.

“A formação não traz fórmulas prontas. Ela não vai trazer uma forma cristalizada de como atuar com a criança, como falar com ela. Ela vai trazer uma consciência para os pais de como é o processo de desenvolvimento da criança, vai trazer para os pais uma possibilidade de perceber coisas sobre sua própria criança interna. E é ela que muitas vezes se relaciona com os filhos”, explica Yamin. De acordo com a pedagoga, é muito comum que adultos, em situações de estresse, cansaço e insegurança, tendam a agir de forma reativa.

“Eles entram na mesma altura da criança, como se fosse uma criança falando com a outra. Os adultos também fazem birra, dão chilique, fazem chantagem emocional. Muitas vezes sem perceber, porque não sabem como agir. Ou tentam manipular a criança e passam para os filhos uma ilusão de que eles têm poder de escolha.”

Como quando o pai, no momento de ir embora de um parquinho, por exemplo, pergunta: “filho, vamos embora?”. E a criança, sem titubear, responde um simples e rápiso “não!”. “A criança vive no presente. Ela não tem ideia de consequência. E ela realmente quer ficar no parquinho. Aquela é a verdade para ela e foi perguntado para ela, não? E aí começa a manipulação do adulto com frases como 'mas em casa tem o seu urso que você gosta'”, complementa Yamin.

Na tentativa de educar com amor e com respeito à criança, dilemas como autoridade, limite e autonomia são postos à mesa. “Quando a gente traz essa noção de que aquela criança de 3 ou 4 anos não tem percepções e autonomia para esse tipo de escolha, o pai pode mudar a forma como ele fala com ela. Ao invés de trazer para a criança uma pergunta, ele tem de afirmar: 'filho, agora está na hora de ir para casa. Sim, você quer ficar no parque, mas está na hora de ir para casa'.”

São essas as “tomadas de consciência” fomentadas pela Escola para Pais e Mães, projeto idealizado por Jauregui e Yamin. “Existe uma ilusão de que a educação acontece dentro do ambiente escolar. Mas ela não acontece dentro desse espaço. O que acontece, principalmente nesse modelo que a gente vive hoje, é a transmissão de conteúdo. O nosso papel é trazer de volta essa consciência. E, quando a gente traz isso para os pais, é sempre muito leve, pois é como se eles já soubessem disso e tivessem apenas esquecido”, explica a pedagoga.

Com a experiência voltada à família em diferentes turmas, a dupla iniciou também o projeto Formação para Educadores, um convite para que esses profissionais se abram “para uma prática mais leve, verdadeira e prazerosa”. O próximo passo, segundo Yamin, é adaptar tanto a Escola quanto a Formação para o espanhol, aproveitando a atuação de Jauregui em países como a Argentina e o Uruguai.

“A partir desse fortalecimento, o adulto vai crescendo como educador. Educador no sentido de ser pai, mãe e guia dessa criança. E aí há uma transformação na relação com os filhos. Não tem a ver com regra ou com a forma de educar em si. Mas tem a ver com atuar a partir do que é verdade para aquele pai e aquela mãe. Mas não de uma forma superficial. É mais profunda essa verdade. Quando você consegue passar isso para o ambiente de casa, você começa a educar da forma como você acredita. A criança sente essa verdade. E um equilíbrio dentro do espaço começa a acontecer.”