Educadora indígena é aplaudida de pé na Flip: 'Nossos filhos estão aprendendo a acessar o bem-viver?'

Na manhã deste sábado (26), a 20ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) promoveu a tradicional mesa Zé Kleber, que homenageia o poeta, advogado e líder comunitário paratiense assassinado em 1989. Medida pela jornalista Iara Biderman, a mesa “Cidades e florestas” recebeu dois líderes indígenas: o cineasta Carlos Papá e a educadora Cristine Takuá, que já haviam participado, nesta sexta (25), de um encontro realizado pelo GLOBO na Casa de Cultura de Paraty.

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O músico Luís Perequê também havia sido confirmado na mesa, mas está com Covid-19. Antes das falas de Papá e Takuá foi exibido um curto vídeo de Pequerê, no qual ele afirmou que a Flip é não é um evento do consumo, mas da cultura e do aprendizado, e que “botou Paraty na esquina do mundo”.

Papá defendeu o diálogo entre diferentes seres, pensamentos e culturas para integrar as cidades e os saberes tradicionais dos povos originários. Ele também entoou um canto a Nhe’éry, que é como os indígenas da região chamam a Mata Atlântica. O público ficou em pé, em reverência, para ouvir o canto. “Nhe’éry” foi o tema da Flip on-line do ano passado. Também foi exibido um curta de Papá sobre os conceitos de natureza e bem-viver dos povos originários, que consiste na harmonia entre os seres animais, vegetais e minerais.

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O público aplaudiu de pé a fala de Takuá, que defendeu a superação da “monocultura” e a criação de “um vasto território agroflorestal do pensamento”. Ela lembrou que, em seus tempos de professora, incomodava-se com os livros didáticos que propunham aos alunos uma reflexão sobre a oposição entre natureza e cultura.

— Sempre achei curiosa essa distinção, porque todos somos natureza e todos produzimos cultura: as abelhas, as formigas, as samambaias, os quilombolas, os caiçaras. Não dá para distinguir o que está interligado. Aqui é território de Nhe’éry. É só fechar os olhos e prestar a atenção para sentir que os espíritos das árvores derrubadas ainda estão aqui. Nossos mais velhos ensinam que os espíritos dos rios nunca morrem, mesmo com a contaminação. Eles ainda pulsam, apesar da de toda a bagunça que fizemos em nossa morada — disse.

Takuá também defendeu que as escolas ensinem o “bem-viver”. Ela fez críticas ao sistema educacional e o comparou a outra “ferramenta política de dominação”: a indústria farmacêutica.

—Quando a gente entende essa jogada política, começamos a olhar para o nosso terreiro. No nosso terreiro, tem um monte de plantinhas: para baixar a febre, matar verme, curar dor de cabeça. Mas a gente prefere comprar uma pílula colorida na farmácia — afirmou. — Será que nossos filhos estão aprendendo a acessar o bem-viver nas escolas? Temos que ter coragem para reivindicar mudanças.