Educadoras quilombolas levam ensino antirracista a escolas na Grande Porto Alegre

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Educador? Peraí, não encaixa. É uma roupa que não está confortável. Entre os educadores de vários lugares, fomos dialogando e veio 'educar e amor'". Assim surgiu o termo educamores, diz Mako'yilè Gba Oya Nkan, 43.

Formada em pedagogia, ela é uma das professoras que ensinam crianças e jovens na Compaz, sigla para Comunidade Kilombola Morada da Paz, fundada em 2003 em Triunfo, a 77 km de Porto Alegre.

Atualmente com 40 pessoas, incluindo 13 famílias, o local foi certificado pela Fundação Palmares em 2016 como comunidade remanescente de quilombo.

É lá que a educação é feita em conjunto com crianças e adolescentes, que são alfabetizadas a partir de plantas, alimentos, cores, bichos, músicas e histórias transmitidas por gerações. Os elementos se misturam ao ensino de fórmulas matemáticas, história, geografia e idiomas --português, inglês e iorubá.

Mas antes de contar sobre a educação antirracista do Morada da Paz, ela e Omo Ayó Otunjá, 50, pedem licença a seus ancestrais, como a Mãe Preta, que guiou o grupo para o local onde hoje é quilombo, no distrito de Vendinha.

"Todo o quilombo é um espaço educativo. Do momento em que você acorda até o momento em que vai deitar", diz Omo Ayó, licenciada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). E todos participam: educamores e educamados --como são chamados os alunos--, velhos, jovens, mães, pais e amigos.

Até os seis anos de idade, as crianças aprendem e são alfabetizadas pelas professoras na Escola Comkola Kilombola Epê Layiê, cuja sala de aula é o quilombo, com a afroludoteca, oficinas de literatura, telescópio e música. "E música que é feita a partir do chão do terreiro, dos orins, que são os rezos cantados para os nossos orixás", diz Omo Ayó.

De seis anos em diante, precisam estar matriculadas em escolas regulares, e as aulas do quilombo passam a ser feitas no contraturno.

Omo Ayó e Maiko'yilè contam que o ensino causou repercussões diferentes. Um deles foi o impasse com a secretaria de educação do estado.

Se fosse construída uma escola quilombola para tornar a Comkola uma unidade da rede, o corpo docente deveria ser composto por servidores, sem a participação direta delas e da comunidade na rotina de ensino.

"E aí começamos a nos perguntar: queremos isso? Porque aí começa a mudar, é algo que vimos em outras escolas do estado", diz Maiko'yilè. Para elas e a comunidade, a mudança não foi uma opção viável, mesmo reconhecendo que a educação escolar quilombola foi uma importante conquista do movimento negro.

Outro desafio foi enfrentar o racismo ao levar a cultura iorubá para as comunidades no entorno.

"Os professores também não queriam aceitar e vinham com cronogramas, roteiros, havia provas marcadas em dias de visita ao quilombo. Aí foi necessário retomar a conversa da pedagogia do encantamento", afirma.

E como fazer o encanto? Para Maiko'yilè, foi escapar das formações padronizadas e insistir nos encontros entre as escolas da região com o Morada da Paz.

"É o poder da pessoa educadora, que lida com outras pessoas. Eu preciso afetar com afeto quando vou fazer as vivências. Porque quando a gente está do outro lado e vê um professor desmotivado, a gente sente. É a postura, o jeito que a gente movimenta a turma", diz.

Com muita conversa e o reconhecimento dos bons resultados, a educação no Morada da Paz conquistou as escolas Gonçalves Dias, estadual e localizada em Triunfo, e Liberato Salzano, da rede municipal de Porto Alegre.

Os materiais didáticos elaborados e ensinados no quilombo foram depois levados a outros territórios e escolas como referência do ensino de história e cultura afro-brasileira, estabelecido pela Lei 10.639 em 2003.

Projeto de astronomia e prêmios Em 2017, surgiu o Akotirene Kilombo Ciência, a partir do convite ao astrofísico Alan Alves Brito, da UFRGS --a quem Omo Ayó e Mako'yilè fazem questão de agradecer-- para uma aula no Compaz sobre astronomia.

Com o apoio de um edital de educação, o projeto iniciou aulas de física, astronomia e ciências, com visitas ao observatório da UFRGS e a aquisição de um telescópio próprio, que agora fica em um laboratório astrofísico do quilombo aberto à comunidade. Mesmo após o fim do apoio, as aulas continuam.

A escola Comkola Kilombola Epê Layiê foi uma das 16 iniciativas vencedoras da oitava edição do prêmio Educar, promovido pelo Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) junto com a Gonçalves Dias e a Liberato Salzano.

O projeto serve de inspiração para um cenário cada vez mais desafiador.

Localizado a 500 metros da rodovia BR-386, que deve ser duplicada, o quilombo enfrenta, além dos riscos causados pela obra e pelo trânsito, as perspectivas escassas para os jovens.

"Quando chegamos com essa perspectiva quilombola, mostramos vamos para graduação, mestrado, doutorado, somos mestres de cultura popular e fazemos pesquisa", diz Mako'yilè.

Hoje com seis crianças e dez adolescentes na Comkola, as educamores dizem que o objetivo é ver alunos se tornarem zeladores e guardiões do território e do planeta.