Quais os efeitos da antecipação da corrida eleitoral até 2022?

Matheus Pichonelli
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Brazilian President Jair Bolsonaro (L), the new president of the Chamber of Deputies, Arthur Lira (R), and the new president of the Federal Senate, Rodrigo Pacheco (C), attend a session of the National Congress, in Brasilia, on February 3, 2021. - The Brazilian Congress on Monday elected two allies of President Jair Bolsonaro to head the Senate and the lower house, an important victory for the far-right leader in his quest to reinvigorate his reelection efforts for 2022. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Jair Bolsonaro com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), durante sessão que abriu os trabalhos legislativos em 3 de fevereiro. Foto: Sergio Lima/AFP (via Getty Images)

“Nos encontramos em 22”. A resposta de Jair Bolsonaro ao ser chamado de “fascista” e “genocida” pelos opositores, durante a cerimônia que inaugurou os trabalhos legislativos na Câmara, em 3 de fevereiro deste ano, deu início também à corrida eleitoral de 2022.

Embora fossem favas contadas, mesmo se tratando de alguém que sempre se colocou contra a reeleição, o posicionamento oficial como o candidato a ser desafiado dali a um ano e dez meses forçou os prováveis adversários a anteciparem as linhas da largada em alguns passos.

Enquanto aguarda o julgamento da suspeição de Sérgio Moro no caso do triplex, o ex-presidente Lula correu para lançar à disputa o nome de Fernando Haddad. No mesmo campo, Ciro Gomes (PDT) já havia afirmado o desejo de concorrer novamente à Presidência.

E João Doria (PSDB), que acabava de embutir um ativo eleitoral na vacina desenvolvida com apoio do governo paulista, acelerou e antecipou em alguns meses um encontro marcado com um velho cacique e antípoda em seu partido, o ex-governador de Minas Aécio Neves.

As feridas abertas pelo comando da Câmara ajudam a explicar a movimentação.

Diferentemente de 2018, Bolsonaro chegará à disputa sem sua grande carta na manga até então: o selo de “novidade” da disputa, o outsider capaz de implodir de vez as estruturas apodrecidas da política tradicional.

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A conversa daquele primo revoltado de que era preciso ter um “maluco” para mudar tudo isso que estava ali já não faz sentido como fazia quando ele se enamorou das promessas de disrupção. O morticínio na pandemia é até aqui o resultado mais infeliz dessa difícil escolha. Bolsonaro não só não fez nada para conter a fome do centrão como se uniu a ele. O sonho de uma equipe técnica e sem os vícios do jogo ideológico era uma miragem. E a promessa de transformar o Planalto num anexo da República de Curitiba se desintegrou no divórcio com Sergio Moro.

Em outras palavras, o candidato à reeleição será só uma sombra daquele que se apresentava em 2018.

Não é por outra razão que Bolsonaro hoje abraça o que desprezava, ou dizia desprezar. A eleição de Arthur Lira (PP-AL) para o comando da Câmara foi uma demonstração de força, mas também uma jogada de risco ao fraturar e tentar capturar resquícios dos partidos que podem dar a ele a capilaridade do qual abriu mão ao ser eleito numa onda de desejo por mudanças tão potente quanto efêmera. Essa onda não está mais em perspectiva.

Daqui em diante, decisões impopulares e/ou medidas populistas/eleitoreiras evitadas ou vitaminadas em anos de votação podem entrar ou sair de cena antecipadamente de acordo com os riscos para os projetos sucessórios. Como se não tivesse uma pandemia para administrar, Bolsonaro inverteu a ordem das prioridades e já se discute, a céu aberto, quem será seu vice na disputa.

Até aqui, parece se confirmar o diagnóstico do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) em entrevista ao Yahoo Notícias: de que a disputa de 2022 ecoaria a música “Dois pra lá, dois pra cá”, de Aldir Blanc e João Bosto. Ele queria dizer que haveria dois candidatos para cada ponta do espectro buscando ao menos um lugar no segundo turno. Só então as perspectivas de uma certa frente ampla se aglutinariam por rejeição.

Há espaço para outsiders? A resposta está em aberto, e dependem da disposição de nomes como Luciano Huck e Sergio Moro para entrarem no páreo. Hoje, com os cronômetros da disputa adiantados, eles já chegariam com atraso à corrida que se converteu, um ano e dez meses antes, em maratona.

Mais do que o posicionamento dos jogadores, é preciso agora observar as consequências da antecipação do jogo sucessório. Pelas condições sanitárias, 2020 se tornou um ano perdido economicamente e também da vida social e promete engolir um espaço precioso também de 2021. Na história, a não ser pela contagem dos mortos e seus sobreviventes, serão anos que não terão existido. Como se num lapso temporal alguém tivesse dormido em março de 2020 e acordado às pressas para eleger quem comandará o país até 2026.

Entre os efeitos mais notáveis da antecipação dos nomes em disputa está o desgaste inevitável de quem já colocou a cabeça pra fora da trincheira. João Doria, vítima do fogo amigo no PSDB, seguirá entre os holofotes e a água fervente. Pode chegar desfigurado até 2022.

A antecipação da disputa altera ainda a relação entre oponentes declarados e o trabalho a ser feito no presente que se configura como desafio histórico.

Nesta segunda-feira 15, por exemplo, a Folha de S.Paulo levantou uma série de obras em São Paulo em parceria com o governo federal que estão atualmente travadas. Isso significa que a rixa pode não ficar só na retórica.

Quem perde é justamente aquele que será chamado a referendar ou demonstrar sua rejeição a quem trocou o cargo eletivo pela tensão da pretensão eleitoral.