Depois do EI, coronavírus impede ex-refém yazidi de ver sua família

Por Delil SOULEIMAN
Layla Eido, 17 anos, foi sequestrada aos 11 anos pelo grupo EI no norte do Iraque, e recuperou sua liberdade há pouco mais de um ano

Sequestrada aos 11 anos pelo grupo Estado Islâmico (EI), Layla Eido conseguiu retomar o contato com sua família iraquiana, após uma longa separação. Agora, por causa do coronavírus, a jovem yazidi está bloqueada na Síria desde o fechamento das fronteiras.

"Estou contando os dias que me separam do momento em que voltarei a ver minha família", diz essa adolescente de 17 anos, que vive temporariamente no nordeste da Síria.

Por pouco mais de um ano, ela foi libertada, após ser mantida em cativeiro por jihadistas até os últimos momentos do "califado", em março de 2019, na cidade síria de Baguz.

Quando estava prestes a se juntar à sua família pela primeira vez em sete anos, as autoridades do Iraque e da Síria fecharam sua fronteira comum para combater a propagação da COVID-19.

"Agora é o coronavírus que me impede de vê-los novamente", lamenta Layla.

"Quando começamos a conversar no WhatsApp, eles me disseram para voltar", conta ela.

"Mas havia o coronavírus, eu tinha que ficar aqui. Não tenho sorte", lamentou.

Em 2014, na época da maior expansão do EI, os extremistas sequestraram Layla, no assalto ao feudo nas montanhas de Sinjar, no norte do Iraque. Como ela, milhares de mulheres e meninas dessa minoria de língua curda foram arrancadas de suas famílias para se tornarem escravas sexuais, ou esposas forçadas dos combatentes.

- "Minhas lembranças me acompanham" -

Layla foi forçada a se casar com um combatente iraquiano de 21 anos.

"Nos dois primeiros anos (do meu cativeiro), minhas lembranças me acompanhavam. Depois me acostumei com a situação", admite a adolescente, vestida de jeans e um suéter rosa.

No começo, "eu me perguntava se meus pais ainda estavam vivos, pensei nas amigas que brincavam comigo, no nosso sequestro, e chorava", conta Layla.

Transferida do Iraque para a Síria, ela fugiu com jihadistas de uma vila para outra, pois o EI perdeu terreno. Eventualmente, foi bloqueada em Baguz, na ponta leste da Síria, onde seu marido foi morto em um bombardeio aéreo.

Quando as forças curdas, apoiadas por uma coalizão internacional liderada por Washington, proclamaram sua vitória em Baguz em março de 2019, Layla estava entre as dezenas de milhares de mulheres e crianças evacuadas do último reduto jihadista para o campo de deslocados de Al-Hol.

No início do ano, ela conseguiu entrar em contato com sua família, graças a uma amiga yazidi em Al-Hol, que pôde ir ao Iraque. Essa amiga encontrou os pais de Layla, deslocados na província de Dohuk, no Curdistão iraquiano.

"Chorei na primeira vez que ouvi a voz do meu pai", lembra ele. "Conversamos todos os dias, enviamos fotos um para o outro".

- "Uma vida melhor" -

Enquanto espera retornar ao Iraque, ela mora na casa de um oficial sírio yazidi, encarregado de coordenar o retorno dos ex-reféns de sua comunidade.

Sentada com uma das filhas do proprietário, Layla olha no telefone as fotos de outras Yazidis que sofreram tratamento semelhante e que estiveram nesta casa antes dela.

Quando as fronteiras reabrirem, Layla finalmente poderá se reunir com sua família. Ela se pergunta como será o retorno à comunidade.

Depois de anos falando árabe com os jihadistas, ela teme que eles não a entendam em curdo. Layla também se acostumou a usar o niqab, o véu integral imposto pelo EI, que ela parou de usar apenas há um mês. Convertida ao islã durante seus anos de cativeiro, ela voltou ao yazidismo.

"Tenho medo de que seja difícil me readaptar à minha família. Era pequena quando fui embora. Vivi tradições diferentes", admite.

Ainda assim, ela tem certeza de que quer voltar.

"Quero uma vida melhor, sem aviões, sem bombardeios, sem guerra", desabafa.