'Ela era uma criança muito doce, coisa pequena fazia minha filha feliz', diz mãe da menina Ana Clara, morta por bala perdida

Pâmela Dias
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RIO — Uma criança sorridente, educada e que amava brincar e proteger o irmão mais novo. É assim que Cristiane Gomes, mãe de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta por bala perdida na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, descreve a filha. Ao relembrar o dia do assassinato, ocorrido na última terça-feira, Cristiane conta que iria levar os dois filhos para aproveitar a piscina na casa de uma conhecida da família, pois era a principal diversão de Ana Clara.

Emocionada, a mãe também relatou o quanto a filha era querida pela família e vizinhos. Na manhã de terça-feira, Ana Clara havia ganhado R$ 2 da vizinha que carinhosamente chamava de avó e estava ansiosa para ir à padaria comprar balas com a mãe. Segundo Cristiane, desde então, a pior sensação é a de voltar para casa e reviver a cena da filha baleada na porta de casa, no momento em que brincava com o irmão de dois anos.

— Chegar em casa e não vê-la é uma dor tremenda. Ontem (quinta-feira) eu fui lá e a cama dela estava do jeito que ela deixou. Minha menina era apaixonada pelo irmão, se ela tivesse uma bala ela repartia com ele. Então, para todos ela era uma criança muito doce, coisa pequena fazia minha filha feliz e a deixava com um sorriso estampado no rosto — afirmou.

Logo neste início de ano, entre os planos de Cristiane, já estava a ideia de realizar a festa de aniversário de seis anos da filha, que seria comemorado em abril e teria a temática inspirada no Luccas Neto, youtuber favorito de Ana Clara. Para tentar amenizar a dor da perda e lutar por justiça, a mãe tem se amparado em familiares e amigos, que juntos planejam manifestações para reivindicar que o policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de ser o responsável pela morte da menina, responda de forma integral pelo crime.

— Tudo isso tem causado muita tristeza, dor e revolta. É complicado demais, porque a gente sabe como é a justiça, eu sei que daqui a pouco ele estará solto. Mas, por mim, o que eu puder fazer para deixar ele na cadeia, eu vou fazer. A prisão dele não vai trazer minha filha de volta, mas ele tem que pagar pelo o que fez — apontou.

O caso

O cabo Bruno Dias Delaroli, do 12º BPM (Niterói) foi preso em flagrante pela Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG), acusado de ser o responsável pelo tiro que matou Ana Clara. A menina foi morta na última terça-feira quando brincava na porta de sua casa, na comunidade Monan Pequeno, em Pendotiba, Niterói.

A equipe do Hospital estadual Azevedo Lima, em Niterói, não encontrou qualquer projétil no corpo da menina.Apesar disso, policiais da DHNSG encontraram estojos de munição próximo ao local da morte da criança. Foram localizados estojos de fuzil calibre 7.62, o mesmo utilizado pelos policiais militares. Os estojos serão submetidos a confronto balísticos com a arma dos PMs envolvidos na ocorrência.

Na decisão do flagrante, determinando a prisão do PM, o delegado Bruno Reis, da DHNSG, ressaltou que no local do crime não foi encontrado qualquer estojo de munição compatível com pistola. Delaroli alegou, em seu depoimento, ter entrado em confronto com criminosos que usavam pistolas.

O exame de necropsia de Ana Clara atesta ainda quatro ferimentos no corpo da menina. De acordo com o laudo, são dois orifícios de entrada - um no braço direito e outro, no peito - , um de saída - também no braço direito, além de um grande ferimento na região do ombro esquerdo da menina.O perito aponta que todos os ferimentos têm ligação entre si.

A causa da morte, segundo o documento, foi "hemorragia interna e lesão polivisceral decorrente de traumatismo de tórax".

Na quarta-feira, a prisão em flagrante de Delaroli foi convertida em preventiva na audiência de custódia. Ele foi preso após contradições entre seu depoimento e o de testemunhas. O PM admitiu ter feito quatro disparos com seu fuzil, mas alegou não acreditar que tenha sido o responsável pelo tiro que matou Ana Clara.

O policial alegou ter atirado contra criminosos armados. No entanto, testemunhas afirmam que não havia bandidos na comunidade e dizem que Delaroli foi o único responsável por fazer disparos na comunidade.

Nesta sexta-feira, em nota, a Polícia Civil afirmou que as investigações da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG) indicam que não houve confronto. Os agentes aguardam os resultados dos laudos periciais para incluir no inquérito e remeter à Justiça.