Elas sustentam um hábito nacional, mas raramente são valorizadas por isso: as mulheres que ganham a vida fazendo unhas

Bonytha lembra de situações de racismo, como quando escutou de uma cliente “não, com a negra eu não vou fazer”. Parece não se abalar: “Eu não achei o fim do mundo porque isso é rotineiro, infelizmente. O preconceito nesse país é institucional”, diz. Foto: Tuane Fernandes

Texto por Rosana Pinheiro/Agência PLANO
Colaboraram Mel Coelho e Tuane Fernandes

A Jane faz minhas unhas há dois anos. No começo, nosso relacionamento se resumia a oi e tchau. “Você era uma das clientes mais quietas, ficava na sua, lembra disso?”, ela diz e cai na gargalhada. Eu lembro. Lembro que logo identifiquei o serviço dela como ótimo e ela – mesmo sendo muito simpática – acompanhou o meu ritmo silencioso. Em poucos minutos as minhas unhas estavam perfeitamente polidas, pintadas e no tamanho ideal. Eu saia feliz do salão e a cada 15 dias voltávamos a nos encontrar.

Me chamava a atenção o seu afinco na escolha da cor. Com mais de 200 tons disponíveis no carrinho, nem sempre ela se contentava com os vidrinhos prontos. “Vamos fazer uma misturinha? Que cor é o seu vestido? Eu acho que essas cores não vão bater, mas se a gente colocar um cintilante por baixo vai dar no tom”. A cada encontro, ela se especializava mais na minha unha. A ponto de ficar revoltada quando viu um tom amarelado do esmalte no meu pé. “Misericórdia, esse esmalte envelhece feio demais, não vou mais passar, tá? Vamos puxar mais para o nude a partir de agora”.

Marina Rocha de Assis, 19 anos, não quer seguir os passos das veteranas. Manicura desde os 14, quando ainda achava “estranho ficar pegando no pé dos outros”, sonha em ser fisioterapeuta. Foto: Tuane Fernandes

Um dia perguntei como ela iniciou na carreira. “Eu comecei para benefício próprio, eu fazia a unha das minhas amigas e elas faziam a minha, e todas saiam lindas, arrasando”. A lógica do resultado parece ser a mesma até hoje. Assim que ela termina de limpar o esmalte, passa o spray secante, dá uma última conferida na palma da minha mão e nos cantinhos e exclama um “arrasou amiga”, olhando com orgulho para a sua obra de arte. “Não tem coisa melhor do que a cliente sair do salão se achando, sabe? Se sentindo bem”.

Manicure é o nome dado ao trabalho de fazer as unhas – tanto como autocuidado, como em troca de pagamento. Aqui no Brasil, o mesmo nome é usado para designar a profissional, quando o termo correto é manicura, para quem faz a unha, e pedicura, para quem faz os pés. Juliana Oliveira, socióloga da Fundacentro e autora da tese de doutorado “Fazendo a Vida Fazendo Unhas: uma Análise Sociológica do Trabalho de Manicure”, disponível também em e-book, chama a atenção para o fato de, apesar dos vocábulos “manicura” e “manicuro” constarem na lista de vocábulos da Academia Brasileira de Letras, nenhum dos dois ser usado ou conhecido do público. “Este pode ser um indicativo da pouca atenção dada ao trabalho de manicure no Brasil e da falta de reconhecimento da atividade como uma profissão”.

Tiana Rodrigues, 57, trabalha fazendo unhas há mais de 40. “Eu gosto de receber as minhas clientes bem arrumada”. Vestida toda de preto, com uma maquiagem sóbria, brinco e colar dourado, resume o seu estilo em uma palavra: “elegância”. Foto: Tuane Fernandes

Diferente de outros países, onde o trabalho da manicura é lixar, empurrar a cutícula e pintar as unhas – com muito cuidado para que o esmalte não saia tanto para fora dos limites; no Brasil, o ritual é um pouco mais minucioso. É hábito fazer a cuticulagem completa, pintar quase que toda a área em volta dos dedos, para depois limpar cuidadosamente, deixando a unha perfeita, como se tivesse nascido esmaltada. E o serviço vai muito além da técnica. “A cliente vem em primeiro lugar. O que se espera é que a manicura esteja a serviço, não importa a extensão desse serviço”, diz Juliana. “Por exemplo, você vai no McDonald’s e espera que o atendente entregue no balcão o lanche que você comprou, fim. No caso da manicura, o serviço não é delimitado. Existe um conjunto de expectativas: carregar a bolsa da cliente, calçar o sapato, oferecer café. Uma mãe que vai ao salão com o filho, espera que a manicura não se incomode”.

O Brasil é o segundo maior consumidor de esmaltes do mundo, atrás dos EUA. Representa 11,7% do consumo mundial deste produto, que movimentou, em 2016, 522 milhões de dólares em território nacional, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosmético (ABIHPEC). O setor de beleza – apesar da crise econômica – teve um crescimento composto de 10,5% nos últimos 10 anos e 4,8% em 2016, sendo o setor industrial que mais investiu em publicidade no último ano. O último relatório feito pela ABIHPEC mostra que o número de empresas que prestam serviços de cabeleireiro, manicure e pedicure cresceu expressivamente: de 27.434, em 2009, para 698.239, em 2016. Esse levantamento considera apenas a abertura de CNPJs enquadrados nos regimes de MEI (microempreendedor individual), ME (microempresa) e EPP (empresa de pequeno porte).

Marina Rocha de Assis, 19 anos, não quer seguir os passos das veteranas. Manicura desde os 14, quando ainda achava “estranho ficar pegando no pé dos outros”, sonha em ser fisioterapeuta. Foto: Tuane Fernandes

No caso dos salões de beleza, as manicuras são fundamentais para a fidelização do público. “A manicure dá um giro no salão. Normalmente o primeiro serviço é a unha, e aí elas já começam a perguntar pra gente ‘esse cabeleireiro é bom?’ ‘tem esteticista?’. Então a gente acaba fazendo essa frente”, diz Elaine Martins, 39, mais conhecida como Bonytha. No ramo desde os 20 anos, já trabalhou em diversos salões e hoje atende também na própria casa. “Mas por que vocês tão querendo fazer reportagem de manicure, ein?”

A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD), de 2015, estima que mais de 1,8 milhões de pessoas trabalham em cargos no setor de beleza. Deste total, 86% são mulheres. Não existe um número específico das manicuras, mas é evidente a hegemonia feminina na profissão. Elas ganham menos do que cabeleireiros e esteticistas, lidam diariamente com objetos cortantes e estão expostas – assim como as clientes – a diversas doenças. “É uma categoria de mulheres com baixo grau de instrução, baixa autoestima, que muitas vezes depende economicamente do marido. Aprendem a profissão em casa, com uma tia ou alguém. Fortalecer essa profissão é também dar autonomia a esse grupo de mulheres. Foi justamente isso que me fez lutar pela causa”, diz Fernanda Oliveira Franco, 43, fundadora do extinto SindMani, o Sindicato Nacional de Manicures.

Fernanda começou a fazer unhas aos 12 anos de idade. “Meus pais eram contra, falavam que é profissão de gente que não tem estudo, mas sempre foi a minha paixão”. Em 2003 foi a vencedora do campeonato de unhas decoradas no Rio de Janeiro, prêmio que ganhou três vezes seguidas, e, alguns anos depois, patenteou uma canetinha que inventou para facilitar o trabalho das manicuras que, assim como ela, usavam técnicas de decoração. “Eu rodei o Brasil, dei cursos, conheci as profissionais, fui me apaixonando cada vez mais pelo trabalho que essas mulheres fazem, pela competência delas”, diz. “Ao mesmo tempo, fui vendo as incoerências: elas não almoçam, trabalham horas a fio, não são registradas, desenvolvem alergias, problemas de coluna e, além de tudo, muitas desconhecem seus direitos. E, claro, para o sistema é muito conveniente que permaneça assim”. Em 2012, Fernanda resolveu fundar o SindMani.

“A minha luta era que as manicuras tivessem uma formação parecida com a da podóloga”, conta. “Mas aí, eu bati de frente com o sistema quando eu quis saber porque o maior fabricante de alicates no Brasil não se preocupa em capacitar as profissionais que utilizam a ferramenta”. Em 2015, o Sindimani não tinha mais forças para continuar e Fernanda resolveu sair do Brasil. “Eu não fiz o jogo do sistema, foi isso”. Mesmo afastada da profissão a paixão pelo ofício é exaltada em várias falas como: “Se você me perguntar hoje qual é a minha paixão, eu vou te falar que é fazer unha”.

Bonytha lembra de situações de racismo, como quando escutou de uma cliente “não, com a negra eu não vou fazer”. Parece não se abalar: “Eu não achei o fim do mundo porque isso é rotineiro, infelizmente. O preconceito nesse país é institucional”, diz. Foto: Tuane Fernandes

Desde 2012, a Lei no 12.592, assinada pela presidente Dilma Rousseff, regulamenta o setor. Pela legislação, não é obrigatório ter curso específico para exercer a profissão. “Depois, em 2016, enquanto se discutia a reforma trabalhista, uma minirreforma aconteceu no setor de beleza”, explica a pesquisadora Juliana Oliveira. Ela se refere a Lei nº 13.352, de 27 de outubro de 2016, que permite aos salões de beleza firmarem contratos sem vínculo empregatício com esteticistas, manicuras e cabeleireiros. “A gente tem que entender se isso é bom ou ruim de qual ponto de vista”, alerta. “No começo da carreira, uma manicura jovem chega a tirar 3 mil como autônoma só em comissão, quando o piso salarial é pouco mais que 1 mil. Mas quando estão mais velhas e já não aguentam trabalhar 10 horas por dia, fica difícil – a conta não fecha. ”

A falta de obrigatoriedade para qualificação não mudou em nada a vontade de Elaine Martins, a Bonytha, em se aprimorar. “Uma cliente me presenteou com um curso de podologia que me abriu muitas portas. Depois eu fui me especializando, fiz curso de alongamento de unhas”, conta. “Ganhei muito dinheiro investindo na profissão, me deu retorno, sabe? Quando eu trabalhava como doméstica, eu não sabia o que era ir no cinema, comer fora. E como manicure eu consigo ter as minhas coisas”. O segredo da profissão não está só nos cursos. “Tem que treinar muito, sempre. Treinar, treinar, treinar. Depois é você, além de um serviço muito bem feito, ser simpática e muito discreta, isso é fundamental”. Bonytha é especialista em unhas de porcelana, acrigel, gel e fibra de vidro, esta última, segundo ela “é a sensação do momento, dá até pra usar sem pintar porque fica bem natural.”

Tiana Rodrigues, 57, trabalha fazendo unhas há mais de 40. “Eu gosto de receber as minhas clientes bem arrumada”. Vestida toda de preto, com uma maquiagem sóbria, brinco e colar prateados, resume o seu estilo em uma palavra: “elegância”. Começou no ramo com incentivo da mãe e, apesar de já ter sido cabeleireira, nunca deixou de fazer unhas. “Eu fazia os dois e valorizava os dois igual”. Ela lembra da reação das pessoas às duas profissões. “É bem diferente quando você fala ‘eu sou cabeleireira’ e quando você fala ‘eu sou manicure’”, diz, “a pessoa te olha como quem diz assim ‘podia ser mais, né’”. O preconceito não afetou em nada a carreira e Tiana pretende fazer unhas por mais alguns anos. “Eu tenho orgulho de ser manicure, de trabalhar com o público e dar o meu melhor, sempre”.

Elaine Martins também relata situações de preconceito. E não só em relação à profissão: “A gente sabe que a ideia de beleza hoje não é a minha beleza. Então, geralmente, quando falam na recepção “você vai fazer a unha com a Bonytha”, – o meu apelido -, e a pessoa não me conhece, você vê no olhar que a pessoa faz tipo “ah, você é a bonita? entendi.”. Também lembra de situações de racismo, como quando escutou de uma cliente “não, com a negra eu não vou fazer”. Parece não se abalar: “Eu não achei o fim do mundo porque isso é rotineiro, infelizmente. O preconceito nesse país é institucional”, diz.

Tiana e Elaine fizeram carreira como manicuras. Mas em um setor que não para de crescer e onde há sempre espaço, é comum ver mulheres trabalhando por necessidade ou conveniência. “Existe uma flexibilidade de trabalho quando se ingressa nessa profissão. Por isso tantas mulheres iniciam na hora da necessidade”, explica a pesquisadora Juliana Oliveira, lembrando que a falta de formalidade facilita o ingresso, ao mesmo tempo, favorecendo o setor patronal, que não tem interesse em formalizar a profissão. “A mulher faz um bico como manicura e consegue cuidar da casa, levar o filho na escola, dar conta de uma segunda jornada”.

Marina Rocha de Assis, 19 anos, não quer seguir os passos das veteranas. Manicura desde os 14, quando ainda achava “estranho ficar pegando no pé dos outros”, sonha com outra profissão e divide o tempo das clientes com a sala de aula. “Sinceramente, ainda não sei o que vai acontecer quando eu me formar. Porque as minhas clientes falam ‘por favor, não para”, conta. No segundo ano da faculdade de fisioterapia, quer trabalhar com esporte ou na área de estética. “Eu consegui muita coisa, pago as minhas contas, comprei meu celular. Tudo com o meu dinheiro de manicure. Mas o meu sonho mesmo sempre foi a fisioterapia”.

A proximidade física com as clientes na hora de fazer o serviço facilita a comunicação. “A gente acaba sendo psicóloga, né?”, conta Tiana Rodrigues, que já teve que pedir para não escutar histórias mais comprometedoras. “Eu falei para a cliente: ‘desculpa, mas eu não quero ser cúmplice'”. Acompanhar a cliente pelo salão também faz parte do serviço. “Antigamente, a gente fazia tudo separado. Agora, não. Para ganhar tempo e dinheiro, se a cliente está no lavatório, a gente está lá também, adiantando a unha”, explica Elaine Martins. “O ideal seria a gente trabalhar confortável, mas não dá”. Em geral, as manicures sentam em um banco com rodinhas, que inclui uma gaveta onde guardam seus utensílios de trabalho.

Além do treino e da experiência com as técnicas, as manicuras também precisam conhecer as particularidades de cada cliente. “Tem cliente que gosta de tirar mais a cutícula, aí a gente vai mais fundo”, explica Marina. Não existe um padrão e elas tem que entender, perguntando ou analisando a unha, a melhor maneira de satisfazer cada caso. A socióloga Juliana Oliveira afirma que é este dom que vai definir uma relação duradoura entre a cliente e a profissional. “Claro que tem a questão da química entre seres humanos, aquela coisa do ‘o santo bateu’, a simpatia, a conversa”, diz. “Mas o principal, o que define se esse serviço é bom, é o fato dela entender o formato da unha, fazer a cuticulagem no ponto certo. Ou seja, é o talento da manicura”.

Ironicamente, enquanto escrevia esta reportagem, a minha manicura, a Jane Brito, 26, deixou a profissão. Em comunicado pelo Whatsapp, explicou que conseguiu uma oportunidade como esteticista em outro salão. Sentirei saudade.