'Ele assumiu o risco total do acidente. Nem olhou se vinha o BRT', diz delegada que prendeu motorista que matou e deixou feridos

Rafael Nascimento de Souza
·3 minuto de leitura

Preso nesta sexta-feira, dia 26, Marcelo de França Soares, acusado por ser o responsável pelo acidente com um BRT no último dia 10, que culminou na morte de uma pessoa e feriu outros 30 passageiros, nunca teve habilitação. Em depoimento à Polícia Civil, o acusado disse que, no dia do acidente, ele foi incumbido de levar um carro clonado de Curicica até à comunidade do Cessarão, em Santa Cruz, ambos bairros da Zona Oeste. Ele confessou que sabia que o veículo era roubado.

De acordo com o ajudante de ferro-velho, o veículo seria entregue para um miliciano que atua na Zona Oeste. Naquele dia, ele diz que recebeu R$ 200 pelo transporte. Na manhã desta sexta-feira, no momento em que era transferido para a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, Marcelo afirmou ao EXTRA que não lembrava o que aconteceu.

Os investigadores da 43ª DP (Guaratiba) chegaram ao homem com o auxílio de mais de 20 câmeras de trânsito da CET-Rio. Os agentes traçaram a rota do suspeito e descobriram onde ele estava: na comunidade do Terreirão. Na quinta-feira, os investigadores foram ao local para conduzir o ajudante de ferro-velho à distrital para que ele prestasse depoimento sobre o acidente, já que a Justiça ainda não havia decretado sua prisão. Quando ele estava dentro da viatura, Marcelo tentou fugir e foi contido.

Já na 43ª DP, o acusado confessou que foi o responsável pelo acidente. Uma testemunha que viu a batida também reconheceu Marcelo. O ajudante de ferro-velho disse que, no dia 10, por volta das 13h, foi procurado por um miliciano de nome Kako — que atuaria em Curicica — para que ele levasse o veículo, que era roubado e clonado. O carro seria entregue para outro paramilitar de Santa Cruz.

— No dia do acidente, por volta das 19h30, ele colocou os dois filhos, de 5 e 10 anos, além da esposa, e foram entregar o carro. Quando chegaram em Guaratiba, para fugir do trânsito, ele entrou na calha do BRT. Quando ele viu o articulado, tentou sair, mas já era tarde — afirma a delegada Márcia Julião, titular da 43ªDP.

A delegada ainda afirma que ele nem verificou se algum ônibus do BRT estava chegando no corredor naquele momento.

— Ele assumiu o risco total do acidente. Ele nem olhou se vinha ou não BRT. O dolo eventual é porque ele assumiu o risco de matar. Olha o tamanho dessa irresponsabilidade. Acima de tudo, o poderoso - para ganhar R$ 200 - fez isso tudo daí. Ele não poupou nem os filhos.

Legista periciou morta e preso

Ainda segundo o depoimento de Marcelo, para não ser “linchado”, ele tirou a família e pediu carona para um motorista que passava no local. O ajudante de ferro-velho contou ainda que acredita que o condutor tenha pensado que ele era uma das vítimas do acidente. Marcelo foi deixado junto com a esposa e os dois filhos perto da casa onde moram.

Com cicatrizes nos dois joelhos, o suspeito foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML) para fazer corpo de delito. No local, o exame foi realizado pelo mesmo legista que periciou o corpo de Eliana Almeida de Carvalho, de 57, que morreu no acidente.

— O legista falou para ele que era o mesmo que periciou a Eliana. Ele não teve reação. Só abaixou a cabeça e ficou calado — disse a delegada Márcia Helena Julião.

Após com a confissão do homem, Márcia Julião representou pelo pedido de prisão. Durante a madrugada desta sexta-feira, a juíza Maria Izabel Pena Pieranti, do plantão judiciário, concedeu a sua detenção temporária de 30 dias. Marcelo foi indiciado por homicídio doloso — com intenção de matar —, lesão corporal dolosa trinta vezes e receptação.

Já o carro que ele dirigia era clonado, tinha placa de São Paulo e havia sido roubado dias antes do acidente. A Polícia Civil informou que o acusado possui oito anotações criminais, entre elas roubo, estelionato e receptação de veículos.

— Em nenhum momento ele se arrependeu de nada. A preocupação dele era fugir, porque ele sabia o tamanho do estrago que ele tinha feito — completou Márcia Julião.