Ele é dono de um site de tecnologia e descreve todas as imagens para pessoas cegas

·3 min de leitura
Rodrigo, um um homem branco, de cabelo curto cacheado escuro, barba e bigode. Usa oculos e camiseta rosa.
Rodrigo Ghedin é SEO do site "Manual do Usuário", que adota a prática de descrever imagens (Foto: Arquivo Pessoal)

Acompanho o Manual do Usuário, um site independente de tecnologia, desde meados de 2017. Sempre me chamou a atenção a qualidade do conteúdo. Mas o golaço, para mim, é a acessibilidade. Todas as imagens dos artigos, das notícias e das newsletters enviadas por e-mail são descritas para pessoas cegas.

Tudo começou com uma preocupação com SEO, uma técnica para aparecer bem posicionado nos buscadores, como Google e Bing. Mais tarde, se tornou realmente uma questão de acessibilidade.

Leia também

Normalmente, produzo artigos que mesclam informação e opinião aqui para a coluna. Hoje, trago uma entrevista ping-pong (em formato de perguntas e respostas).

Conversei com o fundador do site, Rodrigo Ghedin. É ele quem faz a edição e publicação de todos os textos. Rodrigo explica que descrever essas imagens - que normalmente são ilustrativas - leva pouco tempo e que não existe desculpa para não adotar a prática.

“Imagino que acessibilidade não seja algo prioritário na maioria das empresas de mídia, e não me surpreenderia se soubesse que algumas nem sabem que isso é uma questão”, diz. 

Confira a entrevista abaixo:

Gustavo Torniero: Rodrigo, desde quando eu acompanho o Manual você inclui descrições de imagem em textos publicados pelo site. Por que você começou a ter essa preocupação com a acessibilidade do seu conteúdo para pessoas com deficiência visual?

Rodrigo Ghedin: A princípio, preenchia as descrições motivado por SEO, ou otimização para buscadores. Só em 2016, 2017, que o foco deste trabalho mudou e passei a desempenhá-lo com foco em acessibilidade, dando mais atenção ao detalhamento das descrições e expandindo esse trabalho a outras plataformas, como redes sociais (Twitter e Mastodon) e à newsletter. Meu maior incentivo é proporcionar a melhor experiência possível a todos os leitores. E, sinceramente, as descrições de imagens não tomam muito tempo, então não tem desculpa para não adotá-las.

GT: Mesmo sendo uma tarefa relativamente simples, por que você acha que o jornalismo e os portais de conteúdo não incorporam a descrição das imagens no seu dia a dia? Você teve dificuldade para começar a implementar a prática?

RG: Só posso fazer suposições, visto que não conheço as rotinas das redações, mas imagino que possam existir entraves de ordem técnica, como CMSs [sistemas que permitem a publicação de conteúdos e sites] que dificultam ou mesmo impedem o preenchimento desse atributo, e de falta de diretrizes. Tecnicamente é algo muito simples e, como disse, que não toma tempo, só que é um trabalho extra e, como ocorre com qualquer mudança em fluxos de trabalho, demanda tempo e orientação para ser efetivamente incorporado à rotina.

Não tive muita dificuldade porque, antes da acessibilidade, havia um incentivo mais imediato/explícito, que era o SEO. Essa mentalidade ajudou a forjar o hábito em mim, aí quando a descrição das imagens passou a ser uma questão de acessibilidade, e não mais de SEO, tive que adequar apenas o cuidado com as descrições, porque o hábito eu já tinha.

GT: Me parece que é uma mescla de falta de treinamento e de falta de prioridade para a acessibilidade, seja em projetos pequenos ou até mesmo em grandes empresas, não?

RG: Difícil cravar o motivo. Se tivesse que fazer uma aposta, diria que sim, esses dois fatores pesam muito. Imagino que acessibilidade não seja algo prioritário na maioria das empresas de mídia, e não me surpreenderia se soubesse que algumas nem sabem que isso é uma questão.

GT: Rodrigo, para terminar, o que você diria para as pessoas ou até mesmo empresas que queiram começar a descrever suas imagens e a tornar o conteúdo mais acessível? São diferentes perspectivas, desde um projeto com uma estrutura pequena, como o seu, até uma grande empresa de mídia ou de comunicação…

RG: Vai fundo! É um acréscimo ínfimo de trabalho com efeitos positivos enormes. E embora não deva ser a principal motivação, mas sim consequência, a descrição de imagens ganha pontos nos mecanismos de busca. Não importa o tamanho da organização, não há desculpa para não descrever as imagens.

Descrição da imagem: Rodrigo é um homem branco, de cabelo curto cacheado escuro, barba e bigode. Usa óculos e camiseta rosa. Esboça um sorriso discreto. Ao fundo, parede de tijolinhos claros e, à esquerda, folhas de um pé de figo.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos