"Ele morreu no meu ombro", diz sogro de Evaldo

“O exército começou a metralhar a gente e ele foi o primeiro que morreu no meu ombro”, conta o sogro (Betinho Casas Novas/Futura Press)

Em depoimento ao Fantástico no último domingo, 14, Sérgio Gonçalves, sogro de Evaldo dos Santos Rosa explicou como o carro onde ele, sua filha, seu genro, neto e uma amiga da família foi fuzilado por mais de 80 tiros. “O exército começou a metralhar a gente e ele foi o primeiro que morreu no meu ombro”, conta. “A gente não teve muita reação, só tentar reanimar porque ele tava no volante… Tentando reanimar ele, batendo na cara dele, mais preocupado eu fiquei” Mas ele já tava caído, morto”, detalha.

“A gente nunca pensa que isso vai acontecer primeiro com a gente. E, segundo, jamais vindo das Forças Armadas.Principalmente do Exército Brasileiro que é pra proteger a gente".

Sérgio conta que pegou uma carona com a família, depois de realizar um trabalho na região. Ele explica também que o caminho escolhido era conhecido de Evaldo. “Toda vez que meu genro tinha que ir pro lado de São João de Meriti ou pro lado de onde a gente mora sempre passava por ali, que é o caminho mais curto que tem”, indica.

Relembre

Na tarde do domingo, 7, o carro que levava a família para um chá de bebê levou 83 tiros ao passar pela região da Vila Militar. O músico Evaldo Rosa dos Santos morreu na hora. Sérgio foi ferido e Luciano, que passava no local na hora e tentou ajudar, também foi baleado.

“Destruiu minha família, destruiu meu sorriso, destruiu a minha força de viver, destruiu minha autoestima, estou sem chão”, confessa Luciana dos Santos Nogueira, esposa de Evaldo.

Assalto

Em depoimentos, os militares afirmaram que foram alertados de que um assalto teria ocorrido perto da área militar de Deodoro, e que logo depois criminosos armados passaram atirando contra eles. Os criminosos estavam em um carro branco e conseguiram fugir. Os militares teriam perdido o carro de vista e atiraram quando voltaram a ver um veículo branco.

Doze militares foram indiciados e nove tiveram a prisão preventiva decretada. Em nota, o Ministério da Defesa informa que “os militares investigados se encontram à disposição da Justiça Militar da União, pertencente ao Poder Judiciário, a quem cabe manifestar-se obre a sequência do processo penal em andamento”.

‘Mexeram muito no corpo’

Joao Tancredo, advogado da família de Evaldo, afirma que houve o descumprimento de etapas necessárias para a investigação. “A primeira foi a da perícia, foi imediata. Os próprios militares mexeram muito no corpo, então você altera a cena do crime. Isso foi informado para a polícia civil que fez imediatamente um laudo. A polícia militar não fez nada, não teve um laudo, não teve perícia, não teve nada. Quem isolou o local foi um cunhado do Evaldo que é militar, para garantir uma investigação adequada", acusa.

'Exército não matou ninguém', disse Bolsonaro

Quase uma semana depois da morte do músico, o presidente Jair Bolsonaro se manifestou sobre o caso. O presidente afirmou que “o Exército não matou ninguém”. “O Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de assassino. Houve um incidente. Houve uma morte. Lamentamos ser um cidadão trabalhador, honesto”, declarou.

Delegado: ação desproporcional

O delegado Leonardo Salgado, da Delegacia de Homicídios da Capital,, classificou a ação como “desproporcional e sem justificativa”.

“Tudo indica que houve o fuzilamento do veículo de uma família de bem indo para um chá de bebê. Uma ação totalmente desproporcional e sem justificativa", destaca.

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