Eleição na Argentina deve confirmar vitória da oposição e jogar Fernández em mares turbulentos

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Nos últimos dois meses, o presidente Alberto Fernández fez mais eventos de campanha do que muitos dos candidatos que disputam as eleições deste domingo (14). No período, reuniões com ministros ou despachos de seu gabinete na Casa Rosada foram substituídos por visitas a bairros pobres, comícios em diferentes províncias e entrevistas a veículos alinhados ao governo, como é típico no peronismo.

O esforço tem justificativa. Se os peronistas repetirem os maus resultados das primárias em setembro, os dois anos restantes da gestão de Fernández vão ocorrer em mares ainda mais turbulentos.

Ainda que o pleito legislativo seja dividido por distritos, é simbólico que o governo tenha perdido nas primárias por dez pontos percentuais no cenário geral, num resultado acachapante: derrota em 18 dos 24 distritos do país, incluindo a província de Buenos Aires, que concentra 38% do eleitorado nacional.

Neste domingo, 34 milhões de eleitores vão às urnas para eleger 127 deputados --de um total de 257-- e 24 senadores --de 72. Enquanto todas as províncias do país vão escolher deputados, apenas oito votarão para senadores: Córdoba, Corrientes, Tucumán, Chubut, Santa Fé, Catamarca, Mendoza e La Pampa.

As principais pesquisas apontam que as cifras do pleito serão as mesmas das primárias, ou seja, avanço da principal aliança opositora, a Juntos por el Cambio (JpC), de centro-direita, capitaneada pelo Proposta Republicana, partido do ex-presidente Mauricio Macri. Alguns institutos, porém, apontam leve recuperação da coalizão governista, a Frente de Todos (FdT), de diferentes grupos peronistas, mas sem ameaçar um triunfo da oposição. Há, ainda, sondagens que preveem derrota ainda mais expressiva para o governo.

Uma das regiões em que a disputa é mais acirrada é a província de Buenos Aires, onde os peronistas dedicaram especial atenção após perderem por quatro pontos percentuais. Segundo a consultoria Raúl Aragón & Asociados, o representante do Juntos por el Cambio, Diego Santilli, lidera com 39% das intenções de voto, mas a peronista Victoria Tolosa Paz diminuiu a diferença e agora tem 37%.

Na capital do país, a cidade de Buenos Aires --que tem status de província--, a distância é maior para a oposição. Segundo a Consultora de Imagem e Gestão Política, a ex-governadora María Eugenia Vidal (JpC) lidera com 46% das intenções de voto, contra 25% do peronista Leandro Santoro (FdT).

É em Buenos Aires, também, que a ultradireita tem mais apoio. A aliança Avanza Libertad, com o economista Javier Milei à frente, conquistará, segundo as sondagens, 15% dos votos, o que a colocaria como a terceira força política na capital argentina. Em nível nacional, porém, reúne só 5% da preferência.

Há ainda entre 15% e 19% de indecisos, e 74% afirmam que votarão no mesmo candidato das primárias.

Do ponto de vista político, a derrota do peronismo será mais do que simbólica do enfraquecimento do presidente Fernández, hoje com 33% de aprovação, de acordo com a consultora Isonomía.

A queda de sua popularidade começou após escândalos durante a pandemia, como a festa de aniversário de sua mulher, realizada na residência oficial de Olivos, num momento em que havia duras medidas de quarentena na região metropolitana de Buenos Aires. Outro episódio foi o da "vacinação vip", em que uma série de pessoas bem relacionadas furaram a fila para receber as doses de vacinas contra o coronavírus.

"Esta eleição pode ser um divisor de águas na política argentina, porque o que está sendo medido, mais do que a popularidade de Fernández ou quem vai ocupar que posto no Congresso, é a resposta às perguntas 'Cristina, sim' ou 'Cristina, não'", afirma o analista político Jorge Giacobbe. "Ou seja, se a preponderância dela na política argentina continua. Se o peronismo obtiver menos de 30%, é porque o próprio eleitorado peronista não quer mais Cristina e sua imagem pode estar começando a se dissolver."

Giacobbe se refere, claro, à vice-presidente Cristina Kirchner, líder do peronismo. "Na Argentina, hoje não há sequer uma polarização entre Macri e Cristina, trata-se de votar em Cristina ou contra Cristina", afirma.

De fato, a ex-presidente foi quem liderou as mudanças no gabinete de Fernández após a derrota nas primárias e definiu a estratégia de campanha. "Não a vejo tentando assumir a Presidência, mas ela quer seguir influenciando os rumos do governo. Se nos primeiros dois anos ela deixou a tarefa com Alberto, agora, com ele enfraquecido, seu poder aumenta, e sua agenda deve ficar mais evidente", diz o analista.

Entre as críticas abertas que Cristina faz ao mandatário está a pressa de Fernández para fechar um acordo com o Fundo Monetário Internacional, para o qual a Argentina deve US$ 44 bilhões, além de debates em torno de gastos sociais e da volta de uma política protecionista nas relações comerciais.

Uma derrota mais acentuada do peronismo neste domingo pode fazer com que os governistas fiquem sem a possibilidade de ter quórum para iniciar uma sessão no Senado sem o apoio da oposição.

Se também perder cadeiras de deputados, o peronismo pode ver o comando da Câmara, chefiada hoje por Sergio Massa, mudar de lado, o que colocaria um opositor na linha de sucessão presidencial.

No campo econômico, a tarefa do governo nos últimos dois anos de gestão de Fernández tampouco é simples. Com inflação acumulada de 52,5% no ano, desemprego na casa dos 10,2% e 40% da população na pobreza, o governo vem recorrendo a diferentes estratégias para esticar o cobertor social.

Congelou os preços de mais de 1.400 produtos até janeiro, proibiu demissões e elaborou planos sociais.

"Imprimir dinheiro, como o governo faz agora, significa manter a inflação alta, e os preços não podem ficar congelados para sempre. Será necessária uma política de ajuste", diz o economista Gabriel Rubinstein.

Embora uma hiperinflação seja, a princípio, descartada pelos economistas, um cenário de recessão com inflação é o mais provável para 2022. "Uma das principais questões é como viabilizar a entrada de dinheiro no país. Os investidores não virão se houver um risco mínimo confiscatório, e é por isso que medidas que deem sinal de estabilidade e compromisso são importantes", afirma Rubinstein.

Assim, às vésperas da eleição, o cenário é de polarização na Argentina, com uma agenda marcada pelas preocupações econômicas e pela questão da segurança. O assassinato de um comerciante em La Matanza, o distrito mais populoso da Grande Buenos Aires, por exemplo, tem contaminado os discursos de campanha. Os líderes do Juntos por el Cambio afirmam que o crime, cometido por um ladrão, é o resultado da política ineficaz do governador peronista da província de Buenos Aires, Axel Kicillof.

Desde o último domingo, moradores fazem protestos em frente ao local onde a morte aconteceu.

Para os peronistas, a razão pela qual a região apresenta problemas de segurança é a má gestão dos antecessores Macri e Vidal, ex-presidente e ex-governadora, respectivamente. A tensão na região, porém, está alta, com enfrentamentos com a polícia e uso de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes.

Em uma entrevista a um canal de TV, durante a última semana, Fernández afirmou que hoje entende melhor os problemas dos argentinos e que teve de deixar de assistir ao noticiário exibido pelos veículos de comunicação, em sua maioria críticos ao governo, para conversar com as pessoas.

"Depois do resultado, o que mais me preocupou foi escutar as pessoas. Deixei de ler os jornais, escutar as rádios e me ocupei em escutar as pessoas, porque me custou muito entender o resultado eleitoral."

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