Eleição no México diminui poder de Obrador e deve barrar reformas na Constituição

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os resultados parciais das eleições no México neste domingo (6) indicam que o presidente Andrés Manuel López Obrador, apesar de conseguir manter a maior bancada no Congresso, sofreu derrotas importantes para uma oposição que busca capitalizar o descontentamento sobre seu histórico de políticas econômicas e de combate ao crime.

De acordo com as preliminares divulgadas pelo Instituto Nacional Eleitoral (INE), a coalizão governista de AMLO, como é o conhecido o presidente, deve conquistar entre 265 e 292 das 500 cadeiras da Câmara --aquém da maioria de dois terços, exigida para mudanças constitucionais, que o esquerdista conseguiu reunir na primeira metade de seu mandato.

Antes da eleição, o Morena (Movimento de Regeneração Nacional), partido de AMLO, tinha, sozinho, 253 cadeiras na Casa --portanto, maioria absoluta. Agora, de acordo com as projeções do INE, deve ficar com um total entre 190 e 203.

Para defender sua maioria, a legenda de esquerda conta com os votos do Partido Trabalhista (de 35 a 41) e do Partido Verde (de 40 a 48). Na prática, isso significa que Obrador precisará renovar sua capacidade de articulação com parlamentares de outros partidos para tentar fazer avançar seu projeto político.

O PAN (Partido da Ação Nacional), de centro-direita, principal legenda da oposição a López Obrador, deve conseguir entre 106 e 117 assentos, segundo o levantamento. A terceira sigla mais votada foi o PRI (Partido Revolucionário Institucional), com total de vagas entre 63 e 75. O Partido da Revolução Democrática deve eleger entre 12 e 21 deputados. Juntos, os três partidos, que formaram uma aliança contra a coalizão governista, somam entre 181 e 213 assentos na Câmara.

Para analistas políticos, a oposição conseguiu um triunfo importante ao capitalizar politicamente o descontentamento contra o atual governo. A ressalva, no entanto, é que o abalo na maioria pró-AMLO representa um movimento de votos contra o presidente, e não necessariamente a favor dos partidos opositores.

As perdas na Casa devem reduzir a margem de manobra de AMLO para buscar mudanças na Constituição que reforcem sua iniciativa de aumentar o controle do Estado sobre o setor de energia, em sentido contrário às leis que abriram a porta para as empresas privadas em 2014.

Ainda assim, em nível regional, as contagens preliminares sugerem que o Morena teve uma eleição bem-sucedida, conquistando a maior parte dos 15 governos estaduais em disputa e aumentando a presença do partido em todo o país.

Uma exceção foi a capital mexicana. A Cidade do México tem sido um bastião importante para AMLO desde que ele alcançou visibilidade nacional como prefeito de 2000 a 2005. Mas os primeiros resultados indicam que o Morena pode perder o controle de vários dos 16 distritos da capital, que antes dominava.

O presidente saudou o resultado, nesta segunda-feira (7), como mais um passo à frente no caminho da democracia. Agradeceu ao público por garantir que seu projeto político ainda tivesse maioria na Câmara e, com ela, controle do orçamento federal. Em entrevistas coletivas, disse ainda que as eleições foram "livres e limpas" e que não estavam sujeitas à intervenção do Estado.

A nova Câmara dos Deputados, eleita a cada três anos, iniciará o mandato em 1º de setembro. O Senado, também dominado pelo Morena, é renovado a cada seis anos.

No domingo também foram eleitos 15 de 32 governadores, além de mais de 20 mil cargos locais. O partido do presidente teria conquistado ao menos oito governos, segundo os resultados preliminares, o que representa um avanço em relação aos atuais seis governos.

As eleições aconteceram após uma escalada de violência que registrou o assassinato de 91 políticos, incluindo 36 candidatos ou pré-candidatos, segundo a consultoria Etellekt. O cenário de medo pode ter interferido nos índices de comparecimento às urnas, que, segundo o INE, ficou entre 51,7% e 52,5%.

No domingo, duas cabeças e pedaços de corpos foram colocados em locais de votação de Tijuana, cidade na fronteira com os Estados Unidos.

No sábado (5), cinco indígenas que transportavam material eleitoral morreram em uma emboscada no estado de Chiapas. Na quarta-feira (2), Marilú Martínez, candidata à prefeitura de Cutzamala de Pinzón, no estado de Guerrero, no sul do país, foi sequestrada, mas posteriormente encontrada viva.

No dia 28 de maio, Cipriano Villanueva, candidato a vereador do município de Acapetahua pelo partido Chiapas Unido, foi morto a tiros. Três dias antes, Alma Barragán, que se candidatou à prefeitura de Moroleón pelo Movimento Cidadão, no estado central de Guanjuato, foi assassinada a tiros durante um ato com moradores.