Eleição no Vasco: Judicialização virou regra da política do clube

Bruno Marinho
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Márcio Alves / Agência O Globo
Márcio Alves / Agência O Globo

Nada do que o vascaíno acompanha na eleição para definir o próximo presidente do clube é exatamente novo, mas o que o pleito deste ano tem de diferente em relação aos anteriores é a possibilidade real de que duas eleições ocorram, com resultados distintos, que demandarão da Justiça uma decisão sobre qual delas é a válida. E enquanto isso acontece, o time está na 18ª colocação no Campeonato Brasileiro.

Tradicionalmente, o processo político do Vasco é conturbado. Já entrou para o folclore a icônica fotografia de uma mão a desligar a chave de luz do clube, gesto que teria sido cometido por Eurico Miranda em 1969, para tentar evitar a cassação de Reinaldo Reis. O que é mais atual é a sistemática judicialização das eleições.

O clube, por si só, não é mais capaz de gerir seus rumos políticos. No século XXI, todos os processos de escolha de presidente passaram, em algum momento, por algum motivo, pelas mãos de juízes e desembargadores. Já se decidiu nos tribunais a lista de sócios votantes, a data da realização do pleito, e agora se questiona o formato da eleição, se é on-line ou presencial. Tanto que, para as chapas, quase tão importante quanto ter um forte apelo junto ao quadro social, é contar com bons nomes no departamento jurídico.

Leven Siano, que contabilizou mais votos na eleição de sábado, suspensa pelo Superior Tribunal de Justiça, conta com o apoio do Conselho Deliberativo, do Conselho Fiscal e do Conselho de Beneméritos. Na prática, isso pouco vale, se o resultado não for homologado por Faues Mussa, presidente da Assembleia Geral. E ele quer uma nova eleição sábado, on-line. Até o momento, Leven Siano vem repetindo que se negará a disputar o voto virtual.

Se isso se confirmar, Jorge Salgado e Julio Brant serão os candidatos da nova votação. Paralelamente, Leven Siano promete ir ao STJ para tentar derrubar a liminar que invalidou a de sábado.

É provável que o Vasco seja obrigado a aguardar a Justiça para fazer a transição. Se demorar muito, o presidente Alexandre Campello poderá ser mantido no poder interinamente. Eurico Miranda foi interino por dois anos, entre 2006 e 2008, enquanto a Justiça decidia se a eleição de 2006 havia sido válida ou não, entre recursos e liminares da partes envolvidas.

Ou então uma decisão judicial poderá optar por uma gestão compartilhada entre os dois candidatos — em 2018, o Judiciário decidiu por um triunvirato, formado por Eurico Miranda, Fernando Horta e Julio Brant, para tocar o clube entre o fim do mandato de Eurico e a eleição do sucesssor.

A Justiça do Rio não aguenta mais o Vasco é o que diferentes atores políticos do clube costumam repetir. Mas o cruz-maltino não se cansa de recorrer aos tribunais enquanto, via de regra, o futebol pena. Os períodos de guerra política trazem insegurança para possíveis parceiros, mancham a imagem da instituição e, em períodos sem pandemia, geram conflitos nas arquibancadas, que dependendo da gravidade, podem ocasionar perdas de mando de campo para a equipe.

O prejuízo mais palpável no momento poderá ser na negociação para a compra dos direitos de Martín Benítez. Alexandre Campello avisou que vai esperar o novo presidente ser definido para voltar a tratar do assunto. Quando isso vai acontecer? Ninguém sabe.