Eleição de Petro exibe mudança de país que matava líderes de esquerda, diz senador

BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Em agosto de 1994, o pai de Iván Cepeda foi assassinado nas ruas de Bogotá. Manuel Cepeda era comunista e congressista do partido União Patriótica, alvo de paramilitares, que executaram mais de 4.000 integrantes da legenda, incluindo candidatos à Presidência, congressistas, prefeitos e militantes.

Hoje, Cepeda diz que a eleição de Gustavo Petro, neste domingo (19), é um "grande sinal de mudança num país que até ontem matava seus líderes progressistas". Senador pelo Pólo Democrático Alternativo e membro da coligação Pacto Histórico, ele reforça que o novo governo mudará a estrutura econômica, privilegiará a questão ambiental e deve estender o conceito de justiça restaurativa para pacificar o país.

Cepeda recebeu a reportagem em seu apartamento, na capital colombiana.

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Pergunta: A gestão de Petro será o primeiro governo de esquerda da Colômbia. Por que isso nunca ocorreu antes?

Iván Cepeda: A principal razão é que houve um processo de violência política contra a esquerda. A eleição de Petro é um grande sinal de mudança num país que até ontem matava seus líderes progressistas. Tentaram nos apagar do mapa político, com milhares de pessoas assassinadas. Hoje já não se usa o recurso do assassinato como antes, mas quando surge alguém com chances tentam dilapidá-lo moralmente. Quando me perguntam se a mudança é real na Colômbia, digo que apenas o fato de Petro ter chegado vivo ao segundo turno já demonstra isso. Que dirá vencer. Este já é um país em transformação.

P.: À luz do que aconteceu com seu pai, como vê essa mudança de aceitação da esquerda?

IC: Acho que ele estaria feliz e sinto que estou cumprindo meu papel ao participar desse processo. Por fim uma esquerda democrática chegou ao poder sem ser brutalmente reprimida. Queria que ele pudesse ver isso. A eleição de Petro é fruto de lutas enormes que também foram travadas por minorias desprezadas historicamente.

P.: A princípio, Petro não terá maioria no Congresso. Como vê isso?

IC: Com otimismo. Por ora, temos cerca de 30% da Casa, mas não inventamos o nome Pacto Histórico por marketing. A ideia é chegar a um consenso com todas as forças, inclusive com o uribismo. As reformas que queremos são profundas, mudanças que apontam para a transformação da Colômbia em uma democracia liberal com uma mínima base de justiça social. Por isso, não há temas nem alianças que considero impossíveis de debater e formar. Pode haver uma fricção no fato de que vamos ter uma política mais exigente em relação a um setor que historicamente gozou de grandes benefícios, mas acreditamos no consenso.

P.: Como vê a relação da Colômbia com o Brasil? Há propostas de diálogo para tratar da preservação da Amazônia?

IC: A questão ambiental está no coração das nossas propostas, é por isso que propomos a transição de um modelo extrativista para um produtivo. Queremos instalar um modelo de justiça ambiental, para tratar dos delitos cometidos contra a natureza, e vamos integrar as comunidades nos processos decisórios, porque os indígenas são guardiões da natureza. A tragédia que ocorreu no Brasil com o assassinato do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira ocorre aqui o tempo todo.

Estamos entre os países que mais matam defensores do ambiente. Tem a ver com o fato de que os crimes de garimpo, pesca e contrabando ilegais, assim como o narcotráfico, são os mesmos dos dois lados da fronteira. Seria importante que Brasil e Colômbia unissem esforços para salvar a Amazônia.

P.: Há contatos entre Petro e Lula?

IC: Esperamos que Lula ganhe no Brasil. Há diálogo com o PT em diferentes níveis, queremos um plano de integração regional, é estratégico, básico, não só porque temos fronteiras com o Brasil. Há temas sobre os quais queremos aprofundar com países da região, com o México sobre narcotráfico, com a Argentina sobre crimes financeiros e com o Brasil sobre mudança climática e Amazônia. Com a Venezuela, também, para estabelecer relações diplomáticas e fronteiriças.

P.: A Justiça Especial para a Paz (JEP), tribunal no qual estão sendo julgados os crimes cometidos durante a guerra com as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], vai divulgar suas primeiras sentenças em breve. O senhor acredita que essa justiça restaurativa, sem penas de prisão, seja uma saída para pacificar o país de um modo geral?

IC: Esse mecanismo nos permitirá ter justiça e reparação de um modo diferente do que se fazia até aqui. Já são sete décadas de violência e mais de nove milhões de vítimas entre todos os conflitos. É necessário formular um mecanismo alternativo, e isso vem tendo sucesso no que diz respeito às Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]. Pode, sim, ser um modelo a ser aplicado a outros conflitos que vivemos, assim como o enfrentamento ao crime organizado.

O modelo de prender chefões do narcotráfico, utilizado por décadas, não funcionou. Vimos isso desde Pablo Escobar até recentemente com [o líder do Clã do Golfo Dario] Otoniel. No dia seguinte em que saem de cena já há outro líder no lugar, e o fluxo do narcotráfico continua igual. Para pacificar o país, não podemos mais utilizar medidas punitivas ou bélicas, temos de apostar na transformação social e na renovação da economia no campo. Também iniciaremos a discussão da legalização da maconha.

P.: Como vai será a posição do governo Petro em relação aos EUA?

IC: Queremos uma relação construtiva com os EUA. Um dos temas fundamentais é o econômico. No que diz respeito ao investimento estrangeiro, não vamos acabar com a presença do capital estrangeiro, mas queremos, sim, rediscutir a relação e as condições dos tratados de livre-comércio desde o ponto de vista ambiental e das comunidades indígenas.

P.: O sr. foi protagonista no caso em que o ex-presidente Álvaro Uribe responde a um processo. Nesta eleição, Uribe ficou calado. O uribismo acabou?

IC: Provocamos uma dura derrota a Uribe. O projeto dele era uma transformação radical autoritária da Colômbia, algo que não conseguiu alcançar. Tanto que, nessas eleições, sua bancada no Congresso diminuiu muito. Uribe esteve silencioso, mas tratou de atuar nos bastidores pela vitória de Rodolfo Hernández. Creio que ele sente que sua figura começa a se tornar tóxica para o país, daí essa mudança de estratégia. As derrotas que o uribismo sofreu são importantes, mas não significam que o uribismo desapareceu --nem que a extrema direita acabou na Colômbia.

RAIO-X

Iván Cepeda, 59

Senador pelo Pólo Democrático Alternativo, participou das negociações do Estado com as Farc, é porta-voz do Movimento de Vítimas de Crimes de Estado, principal organização de familiares de vítimas do conflito do país, e autor de livros como "Duelo, Memoria, Reparación" e "Por las Sendas del Ubérrimo".

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