Eleição SP: Racha entre interior e capital define disputa entre Tarcísio e Haddad

A corrida ao governo de São Paulo chega a seu dia final com dois sinais claros: uma mudança de humor dentro das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) e o fortalecimento da divisão entre os eleitorados do interior, historicamente voltado à centro-direita, e da Região Metropolitana, mais ligado à esquerda.

Nas pesquisas de intenção de voto divulgadas ontem, o bolsonarista segue à frente do petista, mas com distância apertada. No Ipec, Tarcísio tem 52% dos votos válidos, contra 48% de Haddad, mesmos índices do levantamento anterior, do dia 25. Como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, os dois estão em empate técnico no limite da margem de erro — cenário em que a igualdade é estatisticamente improvável. No Datafolha, o ex-ministro da Infraestrutura tem 53% dos votos válidos, enquanto o ex-prefeito tem 47%. Na pesquisa anterior, no dia 19, a diferença estava em 55% a 45%.

No entanto, quando esse recorte é feito por regiões, a distância entre os dois é maior. Tarcísio lidera no interior com 53% das intenções de voto totais ante 35% do petista, segundo o Datafolha de ontem. Na Região Metropolitana, a tendência é oposta: Haddad tem 49% dos votos totais contra 38% de Tarcísio.

Se na maior parte dos 28 anos de domínio no estado o PSDB costumava obter a vitória nas urnas de todas as regiões paulistas de forma quase homogênea, a diferença de desempenho, novidade de 2018, acentuou-se de forma inédita nesta eleição. No pleito anterior, Márcio França (PSB) perdeu para João Doria (PSDB) mesmo tendo tido melhor desempenho na Região Metropolitana. Desta vez, o cenário ganhou na última semana tons de incerteza com a crise na campanha de Tarcísio, originada do uso político que o candidato tentou fazer de um tiroteio ocorrido em agenda no dia 17 em Paraisópolis.

A isso, se soma o debate ocorrido na noite da quinta-feira na TV Globo. A campanha de Tarcísio admite, nos bastidores, que seu desempenho foi ruim e avalia que Haddad foi mais assertivo nas críticas ao governo Jair Bolsonaro, à gestão do adversário no Ministério da Infraestrutura e ainda soube explorar o episódio ocorrido em Paraisópolis.

Haddad afirmou que a pressão do agente licenciado da Abin Fabrício de Paiva, integrante da campanha do bolsonarista, para que o cinegrafista Marcos Andrade apagasse imagens do tiroteio era “um absurdo” e que colocava suspeição sobre o caso, que ainda está sendo investigado. Tarcísio nega irregularidades e alegou no debate que o agente temeu que as imagens pudessem expor os envolvidos.

O eleitorado do interior, que costuma rejeitar a esquerda, se identificou com as pautas do bolsonarismo — a defesa das armas é uma bandeira nas áreas rurais. Não por acaso, Bolsonaro e Tarcísio intensificaram agendas nessa região, onde fizeram motociatas em cidades grandes e médias como Campinas, Barretos e Sorocaba.

Nesses encontros, o presidente costuma associar a esquerda à invasão de terras e enfatizar a legítima defesa como prerrogativa para a defesa da propriedade privada. Como antídoto para o antipetismo nos redutos conservadores, Haddad viajou acompanhado de Geraldo Alckmin (PSB), que governou o estado por quatro mandatos e sempre teve a simpatia da maior parte dos prefeitos.

Lula, porém, praticamente ignorou a região e só foi uma vez ao interior durante toda a campanha, em um ato em Campinas. O foco dos petistas foi a capital e os municípios da Região Metropolitana.

Lideranças de esquerda reconhecem a dificuldade de voltar a se eleger no interior depois do avanço do antipetismo nos anos 2000. Último prefeito de esquerda em Piracicaba (1999-2003), uma das maiores cidades paulistas, José Machado (PT) diz que vitórias da esquerda na região costumam ser fruto de conjunturas particulares, não naturais, e atribui o bom desempenho de Haddad à sua exposição.

— Haddad é conhecido porque foi candidato a presidente (2018) e prefeito de São Paulo (2013-16). A candidatura de Lula também ajudou a catalisar o ânimo da militância — afirma.

Se a campanha de Tarcísio enfrenta turbulências praticamente na véspera da eleição, Haddad também viveu conflitos com o PT após liderar as pesquisas no primeiro turno e terminar atrás do oponente: ao todo, foram 42,32% dos votos para Tarcísio e 35,7% para o ex-prefeito da capital.

Irritado com o resultado, o candidato chegou a abandonar uma reunião com a direção nacional, onde coleciona inimizades, e cogitou deixar a vida pública, segundo aliados. Em entrevista ao UOL na quarta-feira, Haddad disse que houve uma “plantação de notícias ridícula” sobre o seu desempenho, que foi o melhor do PT desde 2002, quando o ex-deputado José Genoíno foi ao segundo turno e acabou derrotado por Alckmin.

Ainda assim, a campanha de Haddad recuperou fôlego e reduziu a diferença para o adversário com a estratégia de associar Tarcísio a temas que suscitam maior rejeição a Bolsonaro: declarações contra obrigatoriedade de vacinação e críticas relacionadas à economia. Haddad trabalhou para explorar os desgastes recentes de Tarcísio.