Eleições devem reforçar aliança de Bolsonaro com centrão, avalia Planalto

JULIA CHAIB E RICARDO DELLA COLETTA
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O resultado da eleição municipal deste domingo (15), que alavancou os principais partidos do chamado centrão, fez integrantes do Palácio do Planalto e aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) avaliarem que o mandatário precisa intensificar a aliança com esse grupo de siglas de olho em 2022. O presidente viu a maioria dos candidatos que apoiou fracassar no pleito. Dos nomes apoiados por ele nas grandes cidades, apenas Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio de Janeiro, e Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza, foram para o segundo turno. Apesar do fraco desempenho dos candidatos apoiados por Bolsonaro, auxiliares do presidente refutam a tese de que ele sofreu uma derrota na eleição. Primeiramente, esses assessores dizem que ele mal se envolveu na campanha. Em segundo lugar, afirmam que alguns poucos nomes que receberam o aval presidencial tiveram melhora de índices na última semana antes da eleição. Auxiliares palacianos citam como exemplo Bruno Engler (PRTB), que, segundo as pesquisas, ficaria em terceiro lugar na corrida pela Prefeitura de Belo Horizonte. Acabou em segundo, com 9,95% dos votos -distante de Alexandre Kalil (PSD), reeleito com 63,36%. A chegada de Crivella ao segundo turno também é atribuída ao respaldo de Bolsonaro. Embora ressaltem que a eleição municipal não é parâmetro para tirar conclusões antecipadas sobre a disputa pela Presidência, aliados de Bolsonaro admitem que será importante lutar para manter as alianças com as siglas de centro e ter o apoio delas para conseguir palanques em municípios importantes em 2022. O presidente foi eleito em 2018 sem o apoio de partidos relevantes no primeiro turno, na esteira da onda antipolítica. Esse movimento, porém, aparenta ter perdido força na eleição municipal, o que reforça a necessidade de Bolsonaro ter apoios estratégicos daqui a dois anos. Nesta segunda-feira (16), dia seguinte à eleição municipal, as alas ideológica e pragmática do governo se dividiram em relação ao resultado das urnas. Mais conservadores, discípulos do escritor Olavo de Carvalho admitiram a derrota do campo na eleição. Assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins escreveu nas redes sociais que a "esquerda ressuscitou" e a "motivação permanente ($$$) dos partidos fisiológicos se impôs mais uma vez e permitiu que eles voltassem a crescer". "Ou enfrentamos isso, ou seguiremos perdendo", afirmou Martins, em relação aos conservadores. O assessor pregou uma autocrítica do campo e recuperar as ideias, propostas e bandeiras para manter "o conservadorismo vivo". "Também diria que temos que entender que nossa vitória em 2018 foi circunstancial, fruto de uma conjunção de fatores ocasionais com o arbítrio de nosso povo. Vencemos porque tínhamos o melhor candidato e também porque tínhamos uma conjuntura favorável, construída desde 2013", afirmou. O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, também se manifestou nas redes sociais. Numa análise divergente da de Martins, ele afirmou que a esquerda perdeu nas eleições municipais. "A esquerda saiu derrotada! Vejam os números: em 2016, o PT elegeu 254 prefeitos. Até o momento, elegeu apenas 178. Esse número mostra que o PT vai governar para 1,86% da população brasileira", escreveu. Em seguida, Ramos admitiu que o grande vencedor da eleição foram as legendas de centro e citou dados que mostram que PP, PSD, DEM e MDB foram os partidos "campeões em prefeitos eleitos". "Conclusão: esses dados mostram que a esquerda perdeu muito espaço no cenário político. Além disso, os partidos aliados às pautas e ideais do governo Bolsonaro saíram vitoriosos!", resumiu o ministro. Integrantes do Planalto e congressistas propagaram a tese de que quem ganhou as eleições foi a base de Bolsonaro no Congresso, que ocupa cargos em estatais e órgãos regionais e também está alinhada à política econômica do presidente. Deputados e líderes do governo também fizeram questão de repisar que a eleição municipal tende a ter pouca influência ou não serve de parâmetro para a nacional porque as pautas são muito divergentes. Contam para a eleição de prefeitos e vereadores temas afeitos à política local e o dia a dia das cidades, como buracos na rua, o que diverge dos assuntos nacionais. "Historicamente, nos últimos 30 anos, os prefeitos das grandes capitais nada têm a ver com a eleição municipal", disse o líder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO). Ele citou como exemplo o apoio dado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição de Marta Suplicy para a Prefeitura de São Paulo. Mesmo assim, a petista perdeu o pleito em 2004. "O efeito dessa conta para análise de eleição presidencial não significa nada. As pautas são diferentes", disse. O próprio Bolsonaro usou argumento semelhante nas redes sociais, ao destacar que o candidato do PSDB em 2018, Geraldo Alckmin, teve fraco desempenho na disputa presidencial. "Há quatro anos Geraldo Alckmin elegeu João Doria prefeito de São Paulo no primeiro turno. Dois anos depois Alckmin obteve apenas 4,7% dos votos na disputa presidencial", escreveu. Apesar dessa análise, aliados do presidente reconhecem que o resultado das urnas de 2020, aliada à derrota de Donald Trump nos Estados Unidos, soa como alerta para Bolsonaro e indica que ele deverá deixar cada vez mais de lado bandeiras consideradas radicais e excessivamente conservadora e enviar cada vez mais sinais ao centro.