Eleições e covid-19: Jovens e idosos divididos sobre sair de casa para votar beste domingo

Marlen Couto e Rayanderson Guerra
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Leo Martins / Agência O Globo

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Leo Martins / Agência O Globo

RIO — Aos 69 anos, Maria Isaura Lima está convicta de que não vai votar neste domingo. Misturado a uma certa desilusão com a política, o medo do coronavírus é o que motiva a decisão da moradora do Rio. Já a também carioca Tania Pardal, de 61, está imbuída do contrário: de máscara no rosto, ela pretende ir à urna logo cedo, no horário preferencial para idosos, entre 7h e 10h. Suas escolhas opostas evidenciam que, para muitos eleitores, além de definir em que candidatos depositar sua confiança, as eleições em meio à pandemia impõem a dúvida sobre sair ou não de casa. O que, para cientistas políticos, pode ampliar a abstenção neste primeiro turno do pleito municipal.

Essa foi a tendência verificada na França e em outros 21 países que tiveram votações nos últimos meses, de acordo com dados do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea). Dona Isaura, por exemplo, tem e que se formem filas nas seções eleitorais.

— É risco muito grande. A população também não ajuda, porque grande parte não usa máscara — diz a moradora do Méier, bairro da Zona Norte da cidade.

Em 2016, a abstenção já tinha sido alta. No primeiro turno, 17,58% dos eleitores aptos não compareceram às urnas, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Coordenadora do Bacharelado em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio), Marcia Ribeiro Dias afirma que os mais jovens e quem tem acima dos 70 anos são os mais propensos a não participar, uma vez que eles não são obrigados. No entanto, embora a expectativa seja que a pandemia afete a votação, a pesquisadora acredita que a grau de competitividade da disputa será o fator crucial na decisão de ir ou não votar:

— O eleitor tem maior probabilidade de se movimentar e assumir o risco de votar em cidades onde a competição for mais acirrada, com candidaturas claramente divergentes. É o caso, por exemplo, de Porto Alegre. Em Belo Horizonte, onde o atual prefeito pode se reeleger neste domingo, o cenário é outro, e o eleitor pode se sentir liberado para não participar.

Pesquisadora do Centro de Estudos do Comportamento Político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carla Beatriz Marques defende que, embora a redução do comparecimento no Brasil seja uma tendência, ela deve ter efeito menos acentuado que o de outros países, especialmente entre os mais idosos, que compõe um dos principais grupos de risco para o novo coronavírus.

— A Covid pode impulsionar a abstenção, mas há um fator que pode contribuir para o comparecimento de idosos nas urnas, que é o fato de serem eleições municipais. Elas costumam mobilizar mais esse eleitorado, principalmente nas pequenas cidades, onde há maior proximidade com os candidatos. Além disso, há uma parcela de idosos com mais de 70 anos que enxerga o voto como dever cívico, há um desejo de contribuir para as novas gerações. Ao mesmo tempo que são invisíveis para os candidatos, que são excluídos das políticas públicas, é um eleitorado que está crescendo e que cada vez mais será decisivo — avalia Marques.

No Rio, assim como Tania, a estudante Luisa Pimentel, de 16 anos, moradora da Tijuca, nem cogita a possibilidade de não votar. Ela conta que a insatisfação com a gestão do município acabou a motivando para enfrentar os riscos.

— A primeira coisa que posso fazer para mudar a cidade é votar — diz ela, sem esconder o receio com aglomerações nos local de votação. — Eu tenho um pouco de medo, mas acredito que se eu seguir as orientações e os cuidados necessários que já tomo desde março não será um problema — completa ela.

Atenção redobrada

Nesse sentido, o médico infectologista Max Igor Banks Ferreira Lopes, coordenador da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas, ressalta que as orientações do TSE para evitar a disseminação do coronavírus hoje são importantes. No entanto, ele alerta para que os eleitores fiquem atentos à situação de cada seção eleitoral.

— A dinâmica proposta pelo TSE, de levar a própria caneta, aumentar a distância entre os eleitores, máscara e álcool em gel são razoáveis. Ao mesmo tempo, há seções em locais fechados e que podem ter aglomerações — diz ele.

Uma dica extra, lembra o médico, é para que as pessoas evitem ficar conversando nas filas ou perto das áreas de votação. É uma atitude, afirma ele, para reduzir as partículas jogadas no ambiente, mesmo com a máscara.

— Além disso, idosos devem ir à seção nos horários de grupos de risco e lembrar de higienizar as mãos antes e depois de digitar seu voto na urna — acrescenta.