Eleições municipais 2020: segundo turno confirma derrocada do PT em grandes cidades e capitais

André Shalders - @andreshalders - Da BBC News Brasil em Brasília
·5 minuto de leitura

Reuters O partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai comandar nenhuma capital do país nos próximos quatro anos

O segundo turno das eleições 2020 se encerrou com um gosto amargo para o Partido dos Trabalhadores (PT). O partido foi o que mais levou candidatos à segunda rodada da disputa, com nomes em 15 das 57 cidades onde houve segundo turno. Mas terminará as eleições de 2020 sem comandar nenhuma capital de Estado.

Ao fim da apuração, os petistas se saíram vitoriosos em apenas quatro cidades: Contagem (MG), Diadema (SP), Juiz de Fora (MG) e Mauá (SP).

Em 2020, a legenda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) diminuiu em número de cidades governadas pela segunda vez seguida.

De 630 prefeitos eleitos em 2012, a sigla da estrela vermelha passou a 256 em 2016, e 183 este ano.

A legenda também não comandará nenhuma capital de Estado: postulantes petistas chegaram ao segundo turno em Recife (PE) e em Vitória (ES), mas foram derrotados em ambas as disputas.

Na capital pernambucana, o partido foi ao segundo turno com Marília Arraes. Ela disputou com o próprio primo, João Campos (PSB), mas acabou derrotada por 43 a 56% dos votos válidos. O socialista teve 445 mil votos, ante 347 mil de Marília.

Em Vitória (ES), João Coser foi derrotado pelo candidato ligado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O petista teve 72,6 mil votos (41,5% do total), ante 102,4 mil (58,5%) de Delegado Pazolini (Republicanos).

Das 15 cidades em que disputaram neste domingo, petistas chegaram ao segundo turno liderando a corrida em sete locais: Caxias do Sul (RS), Contagem (MG), Diadema (SP), Feira de Santana (BA), Juiz de Fora (MG), São Gonçalo (RJ) e Vitória da Conquista (BA).

Nas outras oito cidades, os candidatos do PT precisavam de uma virada para vencer — inclusive em Recife e Vitória, o que acabou não acontecendo.

O secretário-geral do PT, o deputado federal Paulo Teixeira, avaliou que o partido "melhorou um pouco" o desempenho em relação a 2016. "Agora, gostaríamos de ter ido mais longe", admitiu ele. Na avaliação dele, a mídia contribuiu para o mau desempenho da sigla, ao "esconder" os feitos dos governos petistas.

"E a eleição indica também que a gente precisa de uma política de frente (com partidos aliados). Ganhamos (enquanto esquerda) em qual capital? Em Belém (do Pará, com Edmilson Rodrigues do PSOL), numa política de frente ampla. Participamos de segundos turnos importantes, em Fortaleza (Ceará, onde venceu Sarto, do PDT), em Sergipe (Em Aracaju, venceu Edvaldo do PDT)", disse ele.

"Na minha opinião, esses resultados mostram a necessidade de construir uma frente de esquerda no Brasil", disse Teixeira à BBC News Brasil pouco depois das 19h deste domingo (29).

Cláudio Couto: resultado mostra erro de avaliação de petistas

Para o cientista político Cláudio Couto, o resultado negativo do PT nestas eleições foi fruto de um "erro de avaliação" por parte da legenda.

"Sempre que alguém apontava para o PT a necessidade de uma autocrítica, esse alguém era rechaçado. 'Quem precisa fazer autocrítica são os tucanos, é a imprensa', diziam os petistas. Sem perceber que a autocrítica é justamente sinalizar para a sociedade que você consegue corrigir seus erros e melhorar", diz ele à BBC News Brasil.

"Acho que o PT foi incapaz de dar esse recado, de que conseguiria melhorar. E recebeu a resposta nas urnas. Sofreu um tombo monumental em 2016, e outro agora. Que só foi menor porque o partido tinha menos a perder. Mas, se você considera as duas eleições em sequência, foi grande a derrota", disse Couto, que é coordenador do Mestrado Profissional em Gestão e Políticas Públicas (MPGPP) da EAESP-FGV.

"Esse resultado também dificulta ao partido chegar em 2022 e dizer (às demais legendas de esquerda) que vai ser o capitão do time na próxima eleição", diz Couto.

"Acho que quem sai com mais capacidade de fazer isso, embora também não seja nenhuma Ferrari, é o PDT. Saiu com os melhores resultados de 2020 (dentre os partidos de esquerda). Ganhou em mais cidades, e levou lugares importantes como Fortaleza (CE)", avalia o especialista.

'PT vai precisar se reinventar', diz cientista político

A avaliação de Couto é parecida com a de outros especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

"O PT não conseguiu se recuperar em relação a 2016, não obteve um grande número de cidades, e teve algumas derrotas bastante simbólicas. A derrota do Jilmar Tatto (candidato petista em São Paulo) foi uma derrota extremamente simbólica, que muito prejudica o partido. Marília Arraes deve ser derrotada, e outra derrota importante é a de Vitória (ES). Portanto, o PT tem muito pouco a comemorar, eu diria que quase nada", disse à BBC News Brasil a cientista política Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"O PT vai ter que se reinventar. O antipetismo ainda continua forte, está claro isso. Essas derrotas mostram que a rejeição ao PT ainda é forte. No segundo turno, vence quem tem menos rejeição", avaliou o cientista político Jairo Pimentel, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"Em São Paulo e outras cidades, o PT perdeu espaço para seus concorrentes mais à esquerda como PSOL, (ou de centro-esquerda, como) PDT, PSB", disse ele.

"Vejo que o PT vai ter dificuldade para se recuperar e para se colocar como maior partido do Brasil. O PT ainda tem o maior índice de identificação partidária, mas vai ter muitas dificuldades para poder se reinventar para os próximos anos, sobretudo para a Câmara dos Deputados", disse o analista. Historicamente, a eleição municipal costuma ter reflexos na disputa dos deputados, dois anos depois.

"Agora surgiram outros concorrentes (no campo da esquerda) que podem dificultar ainda mais sua chance de alcançar postos no Executivo. Os novos atores atrapalham e fica uma esquerda mais fragmentada, que também pode atrapalhar o PT para disputa presidencial. Sem o lulismo forte, com o lulismo decadente, é difícil achar uma candidatura para ir para o segundo turno (da eleição presidencial de 2022)", diz Jairo Pimentel.

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