Eleições municipais devem consolidar guinada à direita no Brasil, afirmam analistas

Paula RAMON
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O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em 10 de novembro de 2020
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em 10 de novembro de 2020

As eleições municipais do próximo domingo (11) devem favorecer uma agenda conservadora e consolidar a guinada à direita no Brasil, dada em 2018, quando o presidente Jair Bolsonaro foi eleito - avaliam analistas ouvidos pela AFP.

A eleição de prefeitos e vereadores nos 5.570 municípios brasileiros será marcada, ainda, pela pandemia do novo coronavírus, que matou mais de 162.000 pessoas no país, e por uma profunda crise econômica, algo que poderá afetar o comparecimento às urnas.

Candidatos com apelo religioso e ênfase no discurso da segurança pública (muitos deles ex-policiais, ou militares) devem se impor nestas eleições, que vão "aprofundar um pouco o que a gente viu em 2018: o avanço dos partidos de direita e centro-direita. A gente já viu isso no lançamento das candidaturas", disse à AFP o cientista político Oswaldo Amaral, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A consolidação de um mapa político mais à direita não pode ser lida, no entanto, nem como uma antecipação das eleições presidenciais de 2022, nem como uma vitória de Bolsonaro, afirmam os entrevistados.

Os candidatos apoiados por Bolsonaro nos grandes colégios eleitorais de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente Celso Russomanno e Marcelo Crivella (ambos do Republicanos, direita), por exemplo, aparecem em segundo lugar nas pesquisas, em empate técnico com os terceiros colocados e muito atrás dos líderes: o prefeito paulista Bruno Covas (PSDB, centro) e o ex-prefeito carioca Eduardo Paes (DEM, centro-direita).

"O Bolsonaro é o primeiro presidente da história pós-democratização que vai para a eleição municipal sem partido. Portanto, vai ser mais difícil contabilizar vitória, ou derrota, para ele", explica Felipe Nunes, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O presidente de ultradireita venceu o esquerdista Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), em 2018, e foi empossado filiado ao Partido Social Liberal (PSL), sua nona sigla em 30 anos de carreira política, a qual abandonou em seu primeiro ano de governo. Ele anunciou, em seguida, a criação do Aliança pelo Brasil, que ainda não foi oficializado.

O Movimento Democrático Brasileiro (MDB, centro-direita), tradicionalmente forte em redutos regionais, é o partido com mais candidatos inscritos.

Mas os que mais cresceram em candidaturas em comparação com 2016 são o Partido Social Democrático (PSD), o Partido Progressista (PP) e o Democratas, todos entre a centro-direita e a direita.

- Baixa participação -

Com 211,8 milhões de habitantes, o Brasil tem 147,9 milhões de eleitores.

Com uma campanha mais fria do que a dos anos anteriores, devido à pandemia, e com a crise econômica como pano de fundo, os analistas preveem uma participação baixa. Embora o voto seja obrigatório, este ano os eleitores brasileiros poderão justificar sua ausência pela Internet e a multa pelo não comparecimento sem justificativa é inferior ao preço da passagem de ônibus.

Uma pesquisa recente do Instituto da Democracia revelou que 53% dos brasileiros estavam "pouco interessados" nas eleições, enquanto 27% disseram sentir medo de ir às urnas pela propagação da covid-19, explicou Oswaldo Amaral, um dos coordenadores da consulta.

"Isso não é reflexo de uma perda de apoio ao regime democrático, tem muito a ver com as circunstâncias", acrescentou.

A cientista política Déborah Thomé, da Universidade Federal Fluminense (UFF), pondera que o Brasil viveu em 2018 uma eleição marcada pelo sentimento antipolítica, o que poderia mudar com a pandemia.

"Há um entendimento muito relacionado com a pandemia da volta do papel do Estado. Com a pandemia, a gente precisa de dirigentes que possam conduzir as políticas. O que a gente tem escutado é que está tendo mais procura pelos políticos tradicionais", afirmou.

- Esquerda em declínio -

Partidos com os maiores índices de financiamento público de campanha - pelo tamanho de sua bancada na Câmara dos Deputados - como o PSL, que era de Bolsonaro, e o Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Lula, não despontam nas pesquisas, aponta Thomé, que avalia que o primeiro não parece ter-se consolidado como força política, e o segundo continua gerando altos índices de rejeição.

Salpicado pelos escândalos de corrupção e pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o PT viveu nas municipais de 2016 a pior derrota eleitoral de sua história, ao perder 60,2% das prefeituras conquistadas quatro anos antes.

"As esquerdas foram muito mal em 2016 e 2018 e devem continuar mal. Não espero uma mudança significativa nessa correlação de forças. Por outro lado, as forças ao redor de Bolsonaro também estão enfraquecidas. Ele não criou um partido porque não quis, porque é confortável (não ter partido) para não se expor", avaliou George Avelino, professor da Fundação Getúlio Vargas.

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