Eleições nos EUA: 3 mitos sobre o impacto do 'voto latino'

Patricia Sulbarán Lovera - Da BBC News Mundo em Los Angeles
·9 minuto de leitura
Eleitor de origem latina nos Estados Unidos
No total, 32 milhões de latinos podem ir às urnas nas eleições de 3 de novembro nos EUA

São 32 milhões de pessoas de origem latina com direito a voto nas próximas eleições nos Estados Unidos, o que equivale a toda população do Peru.

É um número recorde e, pela primeira vez na história, é esperado que os latinos constituam a minoria racial ou étnica mais numerosa do eleitorado do país, com 13,3% de participação (ultrapassando os afro-americanos).

E, a cada quatro anos, as expectativas se voltam para o quão crucial será o voto latino na escolha do próximo presidente.

Os especialistas concordam que é preciso ficar atentos ao que acontece em Estados com população hispânica numerosa, como Texas, Arizona e Flórida, considerados locais-chave que podem fazer pender a balança para qualquer um dos dois candidatos, Donald Trump (republicano) ou Joe Biden (democrata).

No entanto, depois de cada eleição, a análise dos resultados tende a ser a mesma: que os latinos "não compareceram" às urnas como esperado, reforçando o apelido que ganharam involuntariamente: sleeping giant ("gigante adormecido").

Também a cada quatro anos, os candidatos traçam estratégias para atrair o chamado "voto latino" usando, por exemplo, a língua espanhola em suas propagandas.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, conversou com especialistas sobre os mitos ou ideias pré-concebidas que rondam esse eleitorado e que fatores realmente devem ser levados em consideração na eleição.

1) Que é uniforme e monolítico

Os americanos não apenas usam a expressão "voto latino" para se referir aos eleitores de origem latino-americana ou hispânica, como também usam "voto negro" para falar de eleitores afro-americanos e "voto branco" para mencionar aqueles que se identificam como tal.

No caso dos latinos, os especialistas alertam que, por trás do termo genérico "voto latino", há uma grande diversidade de pessoas de diferentes origens distribuídas na vasta geografia do país.

"Falar sobre o 'voto latino' como um só implica que é um grupo de pessoas que compartilham dos mesmos pontos de vista (mas), embora haja coincidências, nem todos pensam da mesma forma", explica Mark López, diretor de Migração Global e Pesquisa Demográfica do Pew Research Center, com sede em Washington.

Do total de latinos com direito a voto no país, 59% são mexicanos ou mexicano-americanos, 14% são porto-riquenhos, 5% de origem cubana e 22% de outras origens hispânicas, segundo dados de 2016 do instituto Pew.

Além disso, nos últimos 20 anos, o tamanho do eleitorado mais do que dobrou - e há cada vez mais pessoas de diferentes países de origem que se tornaram elegíveis para votar, acrescenta López.

Embora os especialistas peçam para não associar o adjetivo "monolítico" à forma como os latinos votam nos Estados Unidos, eles explicam que há um motivo histórico que levou ao uso do termo "voto latino".

"Acho que é um conceito a se aspirar, porque foi o mecanismo que atraiu pessoas de diferentes origens para a arena política na década de 1960, para construir esse movimento político latino a partir de um esforço coletivo", diz Benjamin Francis-Fallon, autor do livro The Rise of the Latino Vote ("A ascensão do voto latino", em tradução livre) e professor de história na Western Carolina University, nos EUA.

O poder político dos latinos, explica a cientista política Melissa Michelson, foi estabelecido a partir de alianças entre, por exemplo, mexicanos e porto-riquenhos.

"Os latinos reconheceram que era uma estratégia de organização. Se cada pequena comunidade latina fosse entendida separadamente, teria muito pouco poder", diz ela.

Mas a abordagem unitária muitas vezes fracassou em ajudar os políticos na tentativa de atrair esse eleitorado.

Comunidade cubana
A comunidade cubana apoia tradicionalmente de forma esmagadora o Partido Republicano

"Vemos que não há aproximação suficiente, tampouco significativa. O candidato precisa se fazer conhecido pela comunidade", diz Clarissa Martínez de Castro, vice-presidente adjunta da organização apartidária Unidos US.

Mas, ao analisar a atual campanha presidencial, a avaliação de Michelson é de que "há um reconhecimento por parte de ambos os partidos em relação à diversidade do eleitorado latino" - ela cita a estratégia de Trump para atrair o voto dos venezuelanos na Flórida como exemplo.

2) Que é veementemente democrata

Embora seja verdade que o Partido Democrata tradicionalmente conquistou mais apoio dos hispânicos em comparação com os republicanos, ele não conseguiu atrair todo esse eleitorado.

Cerca de 62% dos eleitores latinos se identificam ou pendem para os democratas, enquanto 34% são mais alinhados com os republicanos, de acordo com estimativas feitas pelo instituto Pew neste ano.

No entanto, mesmo com a promessa de construir um muro entre o México e os Estados Unidos e após chamar imigrantes mexicanos de "estupradores e assassinos", Trump chegou à Casa Branca em 2016 com o apoio de 28% do eleitorado hispânico.

Em eleições anteriores, o republicano George W. Bush, por exemplo, obteve apoio recorde dos latinos, contabilizando 40% desses votos em 2004.

Mulher levanta uma placa a favor de Trump
Trump chegou à Casa Branca em 2016 com o apoio de 28% do eleitorado hispânico

"Alguns políticos presumem que os latinos são democratas, como se o eleitor nascesse com um DNA fixo", alerta Clarissa Martínez de Castro.

"A realidade é que durante muito tempo os latinos apresentaram uma mudança no padrão de votação. Não necessariamente votaram no mesmo partido. Por exemplo, podiam votar em um democrata para governador e em um republicano para senador", explica.

A abordagem do Partido Republicano em relação ao protagonismo menor do Estado em assuntos sociais e a crença em valores conservadores e religiosos são alguns dos elementos que atraem os eleitores latinos, sugerem os especialistas.

Em contrapartida, o enfoque do Partido Democrata para que o governo "garanta oportunidades de acesso a emprego e educação" gera mais afinidade entre outros eleitores hispânicos, explica Martínez de Castro.

A especialista lembra que, na última década e por conta da retórica "antilatina" do Partido Republicano, o eleitorado latino vem se distanciando cada vez mais, mas alerta que os democratas "não terminaram de capitalizar esses eleitores como parte da sua base".

Outra ideia pré-concebida, acrescenta o historiador Francis-Fallon, é considerar o eleitorado cubano e cubano-americano como "o único que simpatiza com os republicanos".

No âmbito deste ano eleitoral, a imprensa especializada dos Estados Unidos tem se apoiado em pesquisas para destacar nos últimos meses que Joe Biden, o candidato democrata, não está atraindo o eleitorado latino da mesma forma que Hillary Clinton na campanha anterior.

"O único grupo [demográfico] em que Biden continua tendo um desempenho ligeiramente inferior são os latinos: 59% disseram que votariam em Biden, em vez de Trump, mas Clinton obteve 66% desses votos em 2016", escreveu, no mês de junho, Domenico Montanaro citando uma pesquisa da Rádio Pública Nacional (NPR, na sigla em inglês).

3) Que só se preocupa com as políticas de imigração

No total, 25% dos latinos com direito a voto são imigrantes e, embora não seja um percentual pequeno, isso significa que os outros 75% nasceram nos Estados Unidos.

Os especialistas concordam que uma das ideias pré-concebidas mais comuns em relação a esse eleitorado é que sua única preocupação ou motivação para votar são as políticas migratórias.

"Tradicionalmente, questões como economia, emprego e educação têm sido prioridade para os eleitores hispânicos. Nos últimos anos, começamos a perceber que eles priorizam o acesso à saúde e à imigração", diz Clarissa Martínez de Castro.

"Mais da metade dos eleitores latinos conhece alguém sem documentação (imigrante ilegal), então o tratamento aos imigrantes é uma questão pessoal", acrescenta.

Centro de votação nos Estados Unidos com aviso que diz 'Fala-se espanhol'
Expectativas se voltam sobre o quão crucial será o voto latino na escolha do próximo presidente

Antes da pandemia, a maioria dos eleitores latinos registrados havia manifestado interesse no aumento do salário mínimo, na criação de leis mais rígidas sobre a posse de armas e no envolvimento maior do governo no acesso à saúde, de acordo com uma pesquisa do instituto Pew.

Agora, durante a campanha, a cientista política Melissa Michelson destaca que temas como economia e coronavírus provavelmente são de grande importância para os latinos.

"Nem todos os latinos ou eleitores em potencial têm a mesma relação com as políticas de imigração ou estão preocupados com elas", diz.

"O desafio para os democratas está em não rotular automaticamente os eleitores latinos como mexicanos ou imigrantes."

A que se deve o termo 'gigante adormecido'?

Desde 1980, latinos e hispânicos votam em proporção menor do que outros grupos demográficos.

Por exemplo, na eleição de 2016, 48% dos latinos aptos a votar foram às urnas, em comparação com 60% dos eleitores afro-americanos e 65% dos brancos.

"O número de latinos que se qualificaram para votar e não votaram excedeu o número dos que votaram em todas as eleições presidenciais desde 1996", afirmou o instituto Pew.

Esses resultados levaram os latinos a serem vistos como "um grupo que não vota na proporção de sua importância demográfica e política", diz Mark López.

Mas esse comportamento pode ser analisado muito além de um mero desinteresse, dizem os especialistas.

Alguns elementos que têm afetado a participação são: o eleitorado jovem (quase 1 milhão de americanos de origem latina completa 18 anos a cada ano); a necessidade de mais esforços por parte dos Estados para promover o recenseamento eleitoral; e a abordagem dos candidatos.

Outros fatores são:

- Regras de votação rígidas em alguns Estados, que exigem documento de identificação com foto ou outros requisitos para votar;

- Zonas eleitorais distantes das residências e dificuldade de deslocamento;

- A eleição ser realizada em dia útil (terça-feira), e a impossibilidade de faltar ao trabalho para votar;

- Menos costume ou hábito de votar por parte dos hispânicos nascidos nos Estados Unidos que cresceram em famílias cujos pais são imigrantes e não são aptos a votar.

"Os latinos vivem em partes do país que não foram consideradas campos de batalha pelos partidos na eleição, como a Califórnia, por exemplo, e isso pode ter um impacto no alcance das campanhas", explica López.

No entanto, o país testemunhou nos últimos 20 anos uma presença maior de hispânicos em estados onde não viviam tradicionalmente, alguns deles considerados cruciais para vencer uma eleição presidencial, como é o caso da Pensilvânia.

Jovens latinas
Todos os anos, quase um milhão de pessoas de origem latina completam 18 anos nos EUA - e estão aptas a votar

Na campanha presidencial anterior, indica Martínez de Castro, "60% dos latinos com alta probabilidade de participar do processo eleitoral informaram que não foram contatados pelas campanhas ou pelos candidatos".

A especialista destaca ainda o registro de novos eleitores como um ponto crítico, apontando que 8 em cada 10 latinos registrados votam nas eleições presidenciais.

"Temos um sistema que não investe muito em incentivar que as pessoas se cadastrem para votar", adverte.

Apesar desse histórico, especialistas afirmam que os latinos têm tido influência nas eleições, especialmente nos resultados de Estados chaves como Texas e Flórida.

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