Eleições nos EUA: se Biden vencer, relação com Brasil será mais 'normalizada' e menos de 'compadres', diz ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca

Marcia Carmo - De Buenos Aires para a BBC News Brasil
·6 minuto de leitura
Joe Biden, um homem branco de cabelos brancos, em frente a um cartaz de sua campanha eleitoral
Biden deve ter uma política externa bem diferente da de Trump

Se o democrata Joe Biden for eleito como novo presidente americano, haverá uma guinada na relação do Brasil e de outros países com os Estados Unidos.

E as vias diplomáticas e institucionais voltarão a ter prioridade sobre as relações pessoais entre os presidentes — como, por exemplo, a relação de Jair Bolsonaro com Donald Trump.

Estas são avaliações do professor Arturo Valenzuela, da universidade de Georgetown, nos EUA. Valenzuela colaborou com a campanha de Joe Biden e foi subsecretário responsável pelas relações com a América Latina no primeiro governo de Barack Obama. Também foi chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca no segundo mandato de Bill Clinton.

"Não pode ser uma relação de amigos, de compadres, que têm certas tendências parecidas. A relação terá que ser mais normalizada, no âmbito diplomático", disse.

"Acho que Biden e sua equipe vão buscar fortalecer as relações com todos os países e, especialmente, com o Brasil, pela importância que o Brasil tem na América Latina e no mundo."

Em entrevista à BBC News Brasil, falando de Washington, Valenzuela disse que Biden retomará a linha de política externa do governo Obama.

A ideia é privilegiar o multilateralismo, o diálogo entre os países, e valorizar as instituições internacionais, como as Nações Unidas, a comissão de direitos humanos da própria ONU, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Comércio (OMC), entre outras.

Valenzuela diz que a postura de Bolsonaro — que chegou a dizer que torcia pela vitória de Trump —pode ser um problema na relação com Biden, mas que a tendência é o democrata normalizar as relações para que aconteçam no plano diplomático, e não pessoal.

"Ao contrário de Trump, que, por exemplo, se retirou de instituições internacionais, da cooperação com os países, Biden voltará a outra lógica. E não pode ser uma relação de amigos, de compadres, que têm certas tendências parecidas. A relação terá que ser mais normalizada, no âmbito diplomático", afirmou.

Amazônia

Para Valenzuela, se o democrata for o próximo a assumir a Casa Branca, caberá ao Brasil e, especialmente ao governo Bolsonaro, "ver como manter uma relação importante" com os Estados Unidos.

Na sua visão, porém, alguns atritos são esperados em pelo menos duas frentes: a proteção da Amazônia e a recente eleição do presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Mauricio Claver-Carone, que é o primeiro americano a ocupar o posto que historicamente era de um latino-americano.

Em um dos debates com Trump, no dia 29 de setembro, Biden falou claramente sobre sua preocupação com o desmatamento na Amazônia brasileira.

"Começaria imediatamente a organizar o hemisfério e o mundo para prover US$ 20 bilhões para a Amazônia, para o Brasil não queimar mais a Amazônia. (A comunidade internacional diria ao Brasil) aqui estão US$ 20 bilhões, pare de destruir a floresta. E se não parar, vai enfrentar consequências econômicas significativas", disse Biden no debate.

O presidente Bolsonaro reagiu às declarações do democrata com uma série de postagens críticas a Biden no Twitter. "Lamentável", "desastroso e gratuito", disse Bolsonaro.

Valenzuela disse que a Amazônia e todas as questões ligadas ao meio ambiente e às mudanças climáticas passaram a estar entre as prioridades de Biden, algo que "talvez não o motivassem tanto no passado".

Segundo o professor e ex-assessor de Clinton, de Obama e do próprio Biden, o Brasil tem um papel muito importante nesta agenda, para o planeta, devido à sua "importância no mundo ecológico".

"A questão das mudanças climáticas é essencial para toda a humanidade. E a Amazônia é importante não só para o Brasil, mas para o mundo", disse Valenzuela.

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A questão do BID

O professor da Universidade de Georgetown diz que o presidente do BID hoje poderia ser um latino-americano, caso o Brasil não tivesse dado seu apoio decisivo ao candidato de Trump, Claver-Carone.

"Existiram algumas relações muito privilegiadas do presidente Trump e (decisões) muito próximas com o Brasil. Isso aconteceu no caso do BID", diz Valenzuela.

Ele diz que, caso Biden seja eleito, sua intenção é que o banco tenha forte participação na tentativa de recuperação econômica da América Latina — região muito castigada pelos efeitos da pandemia no desemprego e no aumento da desigualdade social.

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'Discurso vergonhoso'

Uma das primeiras guinadas na política externa de Biden em relação à Trump será relativa à situação dos imigrantes, diz Valenzuela.

"Biden não vai repetir, de forma alguma, o discurso contra imigrantes, o discurso vergonhoso contra os latino-americanos. Contra os que estão tentando chegar aos Estados Unidos. Vai proteger os que estão buscando asilo de acordo com a lei", afirma.

No segundo mandato de Obama, quando era vice-presidente, Biden era o responsável pelos temas latino-americanos e visitou os países da região.

Para Valenzuela, pelo conhecimento que tem da América Latina, o provável futuro presidente dos Estados Unidos entende a situação dos venezuelanos e dos cubanos que tentam chegar ao território norte-americano.

"O desprezo pelos imigrantes foi um pilar da política de Trump. Isso vai mudar. Biden vai mudar o tom com todos os países e não somente com os mexicanos que querem chegar aos Estados Unidos. Não são todos estupradores, como Trump disse", afirmou Valenzuela.

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Venezuela e Cuba

Valenzuela afirma que a postura de Trump sobre a Venezuela, governada por Nicolás Maduro, não deu resultados para resolver a "catástrofe humanitária". De acordo com a ACNUR, agência da ONU para os refugiados, existem mais de quatro milhões de imigrantes e refugiados venezuelanos no mundo.

"A política em relação à Venezuela não deveria ser só com alguns aliados da América Latina, deveria ser um esforço multilateral", afirma o professor.

Trump disse em um dos debates com Biden que Obama tinha mandado construir "jaulas" para imigrantes. Valenzuela contesta: "Isso é uma mentira. Não é verdade que Obama fez jaulas para os imigrantes. O que foi feito, e que para muita gente foi controverso, é que tinha gente que tinha cometido crimes nos Estados Unidos e o que se buscava era, em alguns casos, repatriá-los. Mas isso das jaulas e da separação das famílias foi algo que o presidente Trump implementou violando todos os direitos das pessoas."

Valenzuela diz que a relação fluida entre Trump e o presidente do México, Manuel López Obrador, também é um caso de atuação de forma pessoal. "Com Biden, se buscará um tratamento normal e não improvisado", disse.

O professor da Universidade de Georgetown também afirma que estratégia de Obama para Cuba "não era uma política de entendimento com (Raúl) Castro ou de apoio ao governo cubano", mas de "tentar fortalecer a relação da cidadania norte-americana e a cubana, diante de um dos últimos governos autoritários do mundo".

"O governo de Cuba controla tudo, salários e até o que os cubanos podem comer. Essa política de 50 anos atrás não deu resultados. Acho que muita gente no Partido Democrata quer voltar àquela política de Obama, e isso não é fortalecer um governo autoritário, mas dar mais ao povo de Cuba para que possa evoluir para um sistema democrático", diz o ex-assessor de Clinton e de Obama.

China

Valenzuela afirma também que disputa entre os Estados Unidos e a China, na era Trump, não beneficiou os americanos.

Na sua visão, caso eleito, Biden não realizará uma política de confronto com outros países, "mas de diálogo".

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