Eleições polarizadas geram 'ressaca social' e brigas políticas

Esta eleição foi tempo de "faxina" nas redes sociais da paulistana Cintia Miglory. Discreta em seu posicionamento político, a estudante de veterinária, de 22 anos, viu as brigas políticas de seus amigos esquentarem à medida que a campanha de 2022 ganhava corpo. Quando ela entrava no meio, era chamada de "isentona" e estava, sem querer, no meio das discussões. Cansou-se e deletou meio mundo.

Esta estafa, a vontade de deixar o celular de lado e a preguiça de responder um comentário sobre política são alguns dos sinais da chamada "ressaca social", algo que muita gente tem sentido às vésperas do segundo turno da eleição mais polarizada da história da redemocratização.

— Não tenho ativistas radicais e deixo de seguir amigos que ficam excessivamente alterados nessa época — afirma a paulista Cintia Miglory, que, apesar de nunca ter tomado partido nas brigas, diz se identificar com candidatos que defendem minorias.

Ressaca social, no entanto, não tem a ver só com o ambiente digital. Discussões em casa, no trabalho e na roda de amigos, normalizadas por conta de posicionamentos políticos contrários e agravadas após o isolamento social da pandemia, também fazem parte desse conceito.

— No início, a definição era mais utilizada para falar de comportamentos sociais de pessoas introspectivas — afirma Daniela Arrais, especialista sem bem-estar. — Já nas redes sociais, o termo ficou comum e ganhou mais notoriedade depois das principais ebulições políticas recentes: crise da Covid-19 e segundo turno das eleições.

Arrais defende ainda que, assim como uma ressaca casual, geralmente causada pelo consumo excessivo de álcool, a social apresenta sintomas parecidos.

No entanto, a diferença é que no segundo caso eles estão mais ligados às emoções, sentimentos e fatores psicológicos como cansaço mental, exaustão e desinteresse em interações mais intensas, reclusão voluntária, picos de ansiedade e apatia. Nas vésperas do segundo turno, a preocupação com o resultado das urnas tem levado os brasileiros ao extremo estresse.

— Se as interações sociais, na vida online e offline, estão sendo catalisadoras de stress e ansiedade, talvez seja um sinal de que a ressaca social está batendo por aí — especialista em bem-estar Luiza Voll. — Se essa característica tem ficado cada vez mais constante e atrapalhado o seu dia a dia, é hora de observar os próprios hábitos, de consumo de informação, interações nas telas e na vida real, de para onde tem ido a sua atenção e procurar ajuda especializada de um profissional de saúde mental.

A violência iminente, tanto no ambiente digital quanto na vida real, faz com que as pessoas que queiram dialogar sobre projetos políticos se sintam acuadas, ameaçadas e não-confortáveis em “sair da bolha”. Com crises de ansiedade, medo de se prejudicar profissionalmente e para evitar discussões com a família e amigos, Carolina Loureiro, de 35 anos, evita manifestar seu posicionamento nas redes sociais e nos aplicativos de mensagem.

— Minha família fica o tempo todo brigando. Isso me encheu de um jeito que eu realmente não falo e nem compartilho mais nada nas redes sociais, até porque isso interfere no dia a dia e nas amizades. Já fui ameaçada, tipo "vou deixar de falar com você". Não estou nem com Lula nem com Bolsonaro porque isso me fecha portas profissionais, além de só trazer confusão. Para ser franca, também acho que nenhum dos dois são tão bons como todo mundo está defendendo, então fico neutra — diz a carioca, bacharel em Direito.

Loureiro conta que o excesso de brigas tem atingido seu filho de 8 anos também. Ela relata que a criança se envolveu em uma discussão com dois amigos da escola que se afastaram por pensarem que ele era a favor de Bolsonaro.

— Outro dia, um amiguinho estava falando a favor do Lula, dizendo que ele não é ladrão e que ele foi absolvido. Meu filho já tem noção de alguns assuntos e ficou explicando para ele que, na verdade, o Lula não foi absolvido, aí ele veio me contar que as duas crianças pararam de falar porque achavam que ele era a favor do Bolsonaro — relata.

O médico José Fernandes Villa, de 36 anos, não escapou dos ataques. Ele conta que saiu do grupo de WhatsApp com os colegas de profissão pois não desejava se posicionar politicamente. Morador de Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro, Fernandes relata que comunicou à diretora da universidade onde leciona sobre a sua decisão para não se prejudicar.

— Você é pressionado a se posicionar, só que, quando faz isso começa, a ser julgado como se fosse de esquerda ou de direita e até como se fosse responsável pelos crimes que acontecem nesses lados de partido político.

Casado há 15 anos com um empresário, o médico chegou a ser demitido no começo do ano do posto de saúde onde atendia como psicólogo. A decisão de ser mandado embora veio após ele se recusar a participar de um manifesto para pedir votos. Além disso, por ser homossexual, ele é pressionado a se posicionar à esquerda.

— Sempre nas eleições, sou procurado por políticos, vereadores e prefeitos para participar das campanhas. Isso acontece porque nós, médicos, temos uma voz ativa com o povo. A minha família também está polarizada. A casa do meu avô era um lugar onde íamos todo final de semana, virou um ringue eleitoral. Agora não fazemos mais isso porque minha família está envenenada.

Assim como Carolina, José teve a saúde afetada devido às discussões políticas. Com isso, foi necessário que ele adotasse uma nova rotina para afastar a mente do cenário eleitoral. O contato com a natureza foi uma das alternativas encontradas por ele, dica defendida pelo psicólogo Roberto Debski.

— Nós já sabíamos que ser desse jeito, foram dois anos de problemas profissionais, financeiros e familiares. Mesmo quando a eleição passar, isso não vai acabar porque a polaridade vai continuar. Isso é um fenômeno de cada um, pois somos socialmente expostos. Mas vejo pessoas falando falam que não vão discutir e nem se incomodar com esse assunto — explica o psicólogo.