Eleições presidenciais da Venezuela serão em 22 de abril

(E-D) O ex-presidente do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, o presidente da República Dominicana, Danilo Medina, e o ministro das Relações Exteriores dominicano, Miguel Vargas Maldonado, durante coletiva de imprensa em Santo Domingo, na República Dominicana, em 7 de fevereiro de 2018

As eleições presidenciais na Venezuela, nas quais o presidente Nicolás Maduro disputará a reeleição, serão celebradas em 22 de abril, de forma antecipada, anunciou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

"Foram convocadas eleições presidenciais para 22 de abril", anunciou a presidente do CNE, Tibisay Lucena, em um pronunciamento transmitido pela televisão oficial.

O esperado anúncio ocorreu depois do fracasso de uma negociação entre o governo e a opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), em Santo Domingo, para assinar um acordo que incluía a data e garantias para as eleições.

"Apesar de que não se assinou o acordo necessário e tão esperado pelo país, podemos afirmar que não há caminhos para a paz, que a paz é o caminho, o único para recuperar a convivência democrática", acrescentou Lucena.

A data não foi uma surpresa. Ao anunciar o fracasso de dois meses de diálogos, o presidente dominicano, Danilo Medina, explicou que as partes haviam acordado na terça-feira que as eleições se realizariam em 22 de abril, após um embate de datas: o governo pedia que fossem em 8 de março e a oposição em 10 de junho.

Mas os delegados da MUD apresentaram nesta quarta-feira observações ao texto. Enquanto isso, Maduro disse "que só assinaria o documento" que estava sobre a mesa na terça, acrescentou o governante dominicano.

A oposição acrescentou, entre suas novas exigências, o retorno dos direitos políticos de seus principais líderes, o duas vezes candidato presidencial Henrique Capriles e Leopoldo López, em prisão domiciliar.

Também exige a "legalização imediata, em menos de 48 horas" da MUD e dos partidos Primeiro Justiça - de Capriles - e Vontade Popular - de López -, que ficaram fora das eleições por decisão dos poderes Judiciário e Eleitoral, que a oposição acusa de servir ao governo.

Em um comício em Caracas, Maduro criticou a MUD por não assinar, segundo ele por ordem dos Estados Unidos, e em frente às câmeras assinou uma cópia do documento: "Que se cumpra o acordo em todas as suas partes, tenho palavra, assinei", disse.

O principal negociador da MUD, Julio Borges, havia dito que esperava "que o governo não cometa o erro absurdo de convocar eleições de forma unilateral".

Borges considerou que as observações da oposição ao documento buscavam garantir "eleições livres", algo que, afirmou, Maduro teme.

O único reitor do CNE próximo à oposição, Luis Emilio Rondón, assegurou que por ser precipitada, a eleição impede que se garanta o "exercício dos direitos políticos".

- Prestes a ser nocauteado -

Com um sólido apoio institucional que inclui os militares e uma forte política de subsídios, Maduro tem possibilidades de se reeleger, segundo analistas.

Isto apesar de arrastar uma impopularidade de 70% diante da grave crise, com uma hiperinflação projetada em 13.000% pelo FMI para 2018 e a aguda escassez de alimentos e remédios.

Além disso, tem à frente um adversário fraco e fissurado. As presidenciais foram adiantadas pela governista Assembleia Constituinte para antes de 30 de abril, dificultando a situação da oposição, que ainda não decidiu se irá para as eleições com um candidato de consenso, ou com vários, e até mesmo se participará.

"No cenário que se apresenta neste momento, com o atual poder eleitoral, está clara a vitória de Maduro, a não ser que a oposição alcance alguma decisão unitária", assegurou à AFP em Caracas a cientista política Francine Jácome.

Jácome sustenta que neste momento a oposição carece de liderança, pois seus principais dirigentes, Leopoldo López e Henrique Capriles, estão inabilitados politicamente.

"Se o inimigo está contra as cordas, termine de dar o nocaute. A oposição deve aceitar que com o fracasso do diálogo se encerra um ciclo", comentou o cientista político Leandro Area.

Para ele, a oposição "deveria se recompor, criar uma nova liderança, mas não deveria ir à eleição: com o diálogo rompido, se não resolverem as condições, não deveria ir", sustentou.

Lucena detalhou que a campanha será realizada de 2 a 19 de abril, embora o governo venha realizando comícios desde que a Constituinte anunciou a antecipação das eleições.

"Em 22 de abril vamos ganhar, e a partir de 22 de abril (...) o que vem é mais revolução", disse o número dois do chavismo, Diosdado Cabello.

- Letras miúdas -

Segundo Medina, a MUD demandou durante o processo a habilitação de partidos políticos que os poderes judicial e eleitoral - acusados de servir ao chavismo - excluíram recentemente das eleições, além da libertação de "pessoas detidas".

O rascunho do acordo, segundo a AFP pôde ler, incluía a observação internacional da ONU, auditorias de todo o processo e a atualização do registro de eleitores para incluir os milhares que emigraram nos últimos meses.

Também quer a reabertura de centros eleitorais em zonas opositoras, suspensos pelo poder eleitoral nas eleições de governadores e prefeitos em 2017, e o acesso equitativo dos partidos dos meios de comunicação.

"Uma coisa é um convite, que era esse documento, e outra é um documento nosso, que é a articulação clara desses direitos", disse Borges em Santo Domingo sobre sua contraproposta.

Para Area e Jácome, o fracasso do diálogo deixaria a oposição mais dividida e Maduro "mais isolado".