Eleições regionais na Catalunha marcadas pela pandemia

Daniel BOSQUE y Anahí ARADAS
·3 minuto de leitura
A preocupação com a pandemia pode provocar uma elevada taxa de abstenção na Catalunha

Cenário de uma tentativa de secessão em 2017, a Catalunha celebra no domingo eleições regionais marcadas pelas incertezas provocadas pela pandemia, nas quais o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez pode ser derrotado em sua tentativa de desbancar o independentismo.

As autoridades regionais tentaram adiar a votação para maio, mas a justiça impediu a mudança de data, apesar da alta incidência de covid-19 nas últimas semanas e do risco de abstenção elevada.

Em uma decisão polêmica, as pessoas infectadas ou em quarentena poderão inclusive votar presencialmente das 19H00 às 20H00. Os locais de votação abrirão as portas às 9H00.

"Todos devem poder votar, ninguém fica fora da votação", afirmou Ismael Peña López, diretor de processos eleitorais do governo regional catalão.

Os mesários estarão protegidos com trajes completos, luvas e protetores faciais, mas entre as pessoas designadas por sorteio para trabalhar nos locais de votação o medo é grande: quase 31.000 de um total de 82.000 pediram para não comparecer.

Entre eles está Rodrigo Sánchez, funcionário de um banco de 53 anos e com a esposa em tratamento de câncer - incluindo uma sessão de quimioterapia três dias antes da votação.

"Os médicos nos alertaram que não era uma boa ideia uma pessoa que convive com uma pessoa doente ficar exposta por tantas horas", disse à AFP.

O seu pedido de dispensa foi rejeitado, mas ele cogita desobedecer a ordem, apesar do risco de sanções: "A vida da minha mulher está acima".

O número de pedidos aceitos não foi divulgado, mas as autoridades insistem que a eleição não representa perigo.

O governo regional afirma que adotou todas as medidas de saúde, como testes de antígenos e máscaras FFP2 para os funcionários, locais espaçosos e ventilados ou a céu aberto.

O local de votação "é realmente mais seguro que pegar o metrô ou seguir para o trabalho", disse Peña López.

Mais de 5,5 milhões de eleitores da região, de 7,8 milhões de habitantes, estão habilitados para votar no domingo.

- A aposta de Sánchez -

Além da situação de saúde, a incerteza também envolve a política nesta região rica do nordeste da Espanha, marcada há 10 anos pelo avanço do independentismo, que governa a Catalunha desde 2015.

A eleição, a quinta desde 2010, foi convocada após a inabilitação judicial em setembro do ex-presidente regional Quim Torra, condenado por desobedecer a Junta Eleitoral.

No poder desde 2018, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez tentou apaziguar a tensão provocada pela tentativa de secessão de outubro de 2017 liderada pelo ex-presidente regional Carles Puigdemont, que fugiu para a Bélgica.

Com o objetivo de afastar os separatistas do governo regional, Sánchez apostou na candidatura de seu ex-ministro da Saúde Salvador Illa, a face da luta contra a pandemia no país.

As pesquisas apontam que ele disputa a vitória com os grandes partidos separatistas, mas muito longe da maioria necessária para governar a região que tem um idioma próprio e ampla autonomia.

Apesar de suas divisões, os independentistas podem conservar ou aumentar a maioria absoluta que atualmente ostentam no Parlamento regional, com 70 deputados de 135.

A dúvida é qual partido separatista ficará na frente: Juntos por Catalunha (JxC), de Puigdemont, que defende a continuidade do confronto com Madri, ou seus aliados de governo do Esquerda Republicana (ERC), que moderou o discurso e apoia Sánchez no Congresso nacional.

Nas eleições de 2017, o ERC era favorito, mas terminou atrás do JxC, algo que pode voltar a acontecer agora.

"Uma derrota do ERC reforçaria aqueles que são contra a cooperação com o governo central", destaca Antonio Barroso, da consultoria Teneo.

Em um cenário muito fragmentado, o próximo governo dependerá das negociações pós-eleitorais, nas quais os independentistas se comprometeram a não fechar acordos com Salvador Illa.

"A formação do governo será complicada e não é possível descartar outra eleição. Mas os separatistas partem com melhores perspectivas porque os não separatistas dificilmente formarão uma frente unida", resume Barroso.

dbh/mg/mis/fp