Eleições regionais na Venezuela têm opositores animados e baixo comparecimento

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo com a participação da oposição e de observadores internacionais pela primeira vez em anos, as eleições deste domingo (21) na Venezuela tiveram baixo comparecimento em algumas das principais zonas eleitorais no país. A população foi às urnas escolher nomes para mais de 3.000 cargos, entre os quais 23 governadores, 335 prefeitos e uma série de vereadores e deputados regionais.

Após boicotar dois pleitos, o presidencial de 2018 e o legislativo de 2020, a oposição voltou a marcar presença neste ano, assim como os observadores internacionais da União Europeia, que fiscalizaram cerca de 1.000 dos 14,4 mil centros de votação. Foi a primeira participação dos monitores desde 2006.

As novidades animaram uma parcela dos eleitores. "Sinto que as pessoas estão decididas a participar", disse José Rafael Hernández, 58, após votar no bairro de Chacao, em Caracas. Para ele, convocar um boicote às últimas eleições, como a oposição fez, argumentando que o pleito era fraudado, "foi o pior".

"Gostaria que todos votássemos, ainda que como uma forma de protesto", afirmou Daniel Rey, médico de 25 anos, em San Cristóbal, capital do estado de Táchira, que faz fronteira com a Colômbia. "É a melhor forma de demonstrar que queremos uma mudança em benefício do país."

Em Maracaibo, capital do estado de Zulia, uma das regiões mais afetadas pela falta de eletricidade, água e combustível, eleitores foram a pé ou de bicicleta até as seções eleitorais por falta de transporte público e gasolina. "Vamos votar, mesmo a pé, porque estamos fartos", disse o aposentado Ernesto Urdaneta, 68.

Apesar da animação de opositores, observadores relataram que zonas eleitorais movimentadas, como a do colégio Andres Bello, em Caracas, registraram alta abstenção --o número oficial, no entanto, não foi divulgado até a publicação deste texto. As urnas foram fechadas às 18h (19h, no horário de Brasília), e os resultados devem começar a ser anunciados durante a madrugada desta segunda-feira (22).

Além da missão europeia, acompanharam o pleito um grupo de especialistas da Organização das Nações Unidas e do Centro Carter, fundado pelo ex-presidente dos EUA Jimmy Carter. "Tudo transcorre tranquilamente", disse a jornalistas a chefe da missão da UE, Isabel Santos, durante visita a um centro eleitoral numa área da capital. O grupo deve publicar um relatório sobre as eleições até terça (23).

O ditador Nicolás Maduro disse neste domingo que os observadores "se portaram à altura, respeitando a Constituição e as leis". "Tomara que seja assim até o fim de sua missão de observação, tomara que seja assim, desejo de verdade, sinceramente", afirmou ele, depois de votar em Caracas.

A fala foi um recuo em relação à declaração do próprio Maduro na véspera, quando disse que a UE não estava habilitada a dar um veredito sobre o processo. "Todos os observadores internacionais devem respeitar as leis da Venezuela e o regulamento do poder eleitoral que os convidou", afirmou.

O retorno do bloco europeu, assim como a garantia de participação da oposição, é, para analistas, concessões feitas pelo ditador na busca por legitimidade ao seu governo e pela suspensão de sanções internacionais, que incluem um embargo dos Estados Unidos ao petróleo venezuelano.

Contudo, a oposição chegou ao pleito fragmentada e sem conseguir apoiar candidaturas únicas em uma série de estados, o que deve ter impactos eleitorais. Juan Guaidó, líder da oposição e reconhecido como presidente interino da Venezuela por dezenas de países, ainda que não tenha qualquer autoridade administrativa no país, não foi votar, segundo sua equipe, ainda que não tenha pedido abstenção desta vez. "Não há condições para uma eleição livre e justa na Venezuela", afirmou.

Maduro suspendeu o diálogo com a oposição desde que o empresário Alex Saab, um de seus maiores aliados, foi preso em Cabo Verde e extraditado aos EUA. Neste domingo, o ditador afirmou que ainda "não há condições para retomar" as negociações enquanto Saab estiver preso.

O empreiteiro é apontado como testa de ferro do líder venezuelano.

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