Eleição rima com religião: vem aí a Guerra Santa dos votos

Eleição no Brasil sempre é pautada com religião envolvida (SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Eleição no Brasil sempre é pautada com religião envolvida (SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

“Vou arrebentar você”. Essa frase já foi dita por um líder evangélico nas eleição municipal de São Paulo em 2012. Quando se aproxima o período eleitoral, não tem jeito, a religião vem com tudo. E, nessa semana temos visto de um lado o pastor Silas Malafaia querendo fazer roda de debates para orientar os votos dos jovens evangélicos e do outro, o empresário Luciano Hang atacando o padre Julio Lancelloti.

Mas a Igreja não deveria ficar separada da política? Não. Num país enorme e pobre como o nosso, o Estado não chega em todos os lugares que deveria chegar. E a Igreja, aquela pequena, do meu bairro, do teu bairro, que oferece conforto quando o Estado está alienado, chega.

E é aí que começa nossa história. Não vou me desviar para o mérito de como surgiu a Bancada Evangélica no Congresso, mas vou me ater ao por quê da briga entre uma boa parcela dos católicos e evangélicos quando o assunto é política, e como o pe. Júlio Lancelloti se enfiou no meio disso tudo.

O primeiro governo Lula (2003) teve seus ministérios marcados pela presença de católicos. Uma das maiores plataformas desse governo, vocês devem lembrar, foi o Fome Zero, capitaneado pelo Frei Betto. Outros ministros católicos ocuparam cadeiras nos ministérios.

O governo Bolsonaro (2018) foi marcado por “ministros terrivelmente evangélicos”. Bom, a partir daí se você não é meu amigo você é meu inimigo.

Bolsonaro se elegeu com 67% dos votos dos evangélicos. Um terreno para chamar de seu. Só que as últimas pesquisas demonstram que seu principal concorrente, Lula, tem crescido entre mulheres, de baixa renda, que recebem o Auxílio Brasil e evangélicas. O que isso quer dizer? Que Bolsonaro segue falando para a bolha que o elegeu e não consegue agregar votos fora desse número de 30%.

Enquanto Lula vai mudando seu discurso com pitadas mais religiosas e falando para aqueles que estão e continuam desamparados pelo governo: mulheres, pobres, que recebem Auxílio e veem nas pequenas igrejas dos seus bairros a solução para um mal que o Estado não enxerga. Ah, mas Bolsonaro tem o apoio de Silas Malafaia. Sim, mas nem mesmo ele consegue atingir esse pequeno eleitor. As igrejas dele são as maiores, de grandes centros.

No ano passado Lula se encontrou com o pe. Julio Lancelloti e disse que seria seu soldado. Bolsonaro, dois dias depois, atacou os dois. Manter conflito é a razão da existência de Bolsonaro. E, nessa semana, os seus soldados atacam o Pe Julio Lancellotii, da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo, que, pasmem, ajuda pessoas em situação de rua (contém ironia).

O empresário Luciano Hang o chamou de “cúmplice das mazelas do PT” e disse que quem “defende bandido, bandido é”. Como se morador de rua, que foi completamente esquecido pela sociedade, fosse obrigatoriamente bandido. É essa mesma falta de empatia que vemos a todo momento na nossa sociedade quando um presidente institucionaliza como normal não derramar uma lágrima por 660 mil mortes por covid ou quando um negro morre por asfixia num carro da PRF. Levar isso como algo cotidiano e que faz parte da vida é o faz com que o mais pobre veja em pessoas como o padre Julio Lancelloti a única salvação para uma vida em que o Estado, todo dia, lhe vira as costas. “É normal você morrer por isso. Você é vagabundo”, lhe diz a autoridade máxima.

Na outra ponta o pastor Silas Malafaia, apoiador de qualquer governo vigente que lhe ofereça trânsito, diz que vai instalar debates nas igrejas para orientar os votos dos jovens. Ninguém reaje passivamente ao mundo e obviamente isso terá (e é objetivo) reflexo nas eleições. Mas não seria mais fácil orientar esse jovens de que existe um Brasil abandonado à margem dos grandes centros que não tem a quem recorrer? Não é “você é um vagabundo”. É: “como podemos ajudar quando todos os outros olhos se negam a enxergá-lo?”.

Não vou entrar nos méritos nem deméritos, por exemplo, do próprio Fome Zero que não foi adiante por inoperância e incompetência do próprio governo de esquerda que com mais burocracia impossibilitou o avanço do programa. Aqui não trata-se de política, trata-se de cidadania. Mas como disse no início do texto, num país como o nosso não há possibilidade da Igreja não entrar no debate político. Ela faz, muitas vezes, o papel do governo.

O Brasil tem 92% das pessoas se declarando religiosas. O Brasil hoje tem uma das eleições mais polarizadas de sua história. O que veremos nesse ano é a Guerra Santa nas eleições presidenciais. Mas que nessa guerra, pessoas como Lancelloti sejam poupadas. Pelo bem de todos nós.

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