Após eleição dura, palavra 'diálogo' vira o Santo Graal de eleitos e não-eleitos

Matheus Pichonelli
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Eduardo Paes, candidate for mayor of the city of Rio de Janeiro for the Democratic Party (DEM), greets supporters during a campaign rally at Rocinha slum in Rio de Janeiro, Brazil, on November 18, 2020. (Photo by Andre Coelho / AFP) (Photo by ANDRE COELHO/AFP via Getty Images)
O prefeito eleito Eduardo Paes (DEM) durante a campanha. Foto: André Coelho/AFP (via Getty Images)

Depois de uma campanha dura, com fraturas expostas em disputas como Rio e Recife, esta protagonizadas por primos do mesmo campo político (em tese), a palavra “diálogo” virou uma espécie de Santo Graal no discurso dos candidatos, tenham eles vencido ou não.

Como o cálice sagrado, todos querem o diálogo, só não sabem como nem onde ele está.

Exemplo de como ainda faltam linhas aos remendos deste tecido político vieram já no dia seguinte da eleição, quando Ciro Gomes (PDT) escondeu a agulha e mostrou a tesoura para Flávio Dino (PCdoB), justo ele, a figura mais avessa a conflitos da cena contemporânea -- à esquerda e à direita.

Ciro criticou o fato de o governador do Maranhão não ter apoiado ninguém no primeiro turno e ter ido votar com a camiseta “Lula Livre” --o que demonstraria, segundo o cearense, perda de noção da realidade. Para Ciro, “ganhou essa eleição quem soube interpretar a realidade do país com humildade”.

Nas redes, Dino disse que não responderia ao (ainda) aliado porque tem apreço por ele e porque ainda acredita que o “campo nacional-popular” possa caminhar unido. “Não me cabe acirrar conflitos desnecessários”.

A crítica ao uso da camiseta “Lula Livre” é sinal de que ainda há mais arestas a aparar do que arestas aparadas nas relações entre o líder petista e seu ex-ministro --um fosso que pode ser determinante para as pretensões em 2022, seja a disputa pela Presidência, seja pelos governos estaduais.

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O próprio Dino afirmou, em entrevista ao Yahoo Notícias, que a disputa em 2022 será como a música “Dois pra lá, dois pra cá”, de Aldir Blanc e João Bosco, com dois candidatos à esquerda e dois à direita em campo.

Parece prever que a ideia de frente ampla é ainda uma utopia a ser testada, sobretudo por quem saiu da eleição 2020 politicamente fortalecido. Caso de Guilherme Boulos (PSOL), o caçula da turma que já reivindica protagonismo nesta articulação.

Em uma de suas primeiras entrevistas após a disputa, Boulos declarou: “o que essa nossa campanha mostrou é que é possível uma articulação e uma união de figuras de campos de esquerda que estavam afastadas até aqui”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o líder do MTST disse ainda que “as diferenças que existem hoje no campo progressistas estão no varejo perto daquilo que nos separa do projeto bolsonarista, do (João) Doria”.

Na outra ponta é Jair Bolsonaro quem é chamado para o debate. No dia em que realizou o primeiro encontro bilateral com o presidente argentino, Alberto Fernández, ele recebeu inúmeras piscadelas de quem rivalizou com seu candidato no Rio e agora fala em estender pontes, inclusive com a ajuda de seus filhos.

Eduardo Paes (DEM), também em entrevista à Folha, disse que telefonou ao presidente e que ele foi “muito simpático” durante a conversa.

Numa quebra de gelo, disse ter livrado Bolsonaro de Wilson Witzel, governador afastado do Rio, e agora do atual prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos), o favorito do presidente na disputa. Recebeu de volta um convite para tomar um café.

Paes promete fazer mais política do que fez em suas administrações anteriores. Promete também que não vai rivalizar com Bolsonaro. “Sou prefeito da cidade dele. Ele vai querer ajudar.”

Quem lembrou da empolgação de Wilson Witzel, governador do estado “dele”, tem razão em franzir a sobrancelha em desconfiança. Bolsonaro fritou Witzel no momento mais tenso da pandemia como pode.

A esperança de Paes será testada na primeira medida emergencial de combate à pandemia que envolva vacinação e isolamento social. Se quiser ficar em paz com o presidente, é melhor andar com uma cartela de cloroquina no bolso --o medicamento que cientistas agora associam a distúrbios mentais.

Mas voltemos ao exercício do “diálogo”.

Na mesma conversa, o prefeito eleito, que acaba de iniciar a transição, por pouco não criou um novo verbete à palavra ao se referir ao prefeito atual, que na TV jurou que o adversário do DEM seria preso. “A gente não estava na rua. Se fosse na rua, eu e ele, levava um murro na cara.”

Caso queira realmente falar a língua do presidente, que outro dia mostrou o mesmo desejo em relação a um jornalista que lhe fez uma pergunta incômoda, o novo-velho prefeito do Rio começou bem. De diplomacia o presidente entende. A diplomacia do porrete.

Em tempo. Símbolo da Laja Jato, Sergio Moro não viu problema em trabalhar como ministro do candidato beneficiado por sua decisão de mandar prender seu principal oponente na disputa presidencial. Dois anos depois, após ser fritado e pedir demissão do governo, vai morar nos EUA e trabalhar em uma consultoria contratada pela Odebrecht, empreita-chave das investigações que tenta se reerguer do tombo que Moro ajudou a consumar. Acusar incoerência seria eufemismo. Em uma decisão como outra, o que não faltou foi coerência.

Em tempo 2. O repórter Rubens Valente acaba de publicar, em seu blog no UOL, que o governo federal montou um mapa sobre como se posicionam alguns jornalistas e influenciadores no Twitter. Chama a atenção para a forma como foram classificados os que criticam decisões do governo, sobretudo as relacionadas à área econômica: detratores. Para quem dizia ter medo de ver o Brasil se transformar em uma Venezuela, chega a ser comovente a associação, típica de regime bananeiro, entre liberdade de imprensa e “inimigos” da pátria. O governo deve respostas. Está devendo desde que foi eleito, aliás.