Boulos sai fortalecido, mas frente anti-Bolsonaro ainda é incerta

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Sao Paulo's mayoral candidate for the Socialism and Freedom Party (PSOL), Guilherme Boulos (C), delivers a speech next to defeated candidates Jilmar Tatto (R) of the Workers' Party (PT) and Orlando Silva, of the Communist Party of Brazil (PCdoB), during a rally in Sao Paulo downtown, Brazil, on November 18, 2020. - The Brazilian municipal runoff election will take place on November 29. Left-wing candidate Guilherme Boulos won on November 15 a surprise pass to the second round, where he will face current Mayor Bruno Covas. (Photo by Nelson ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Guilherme Boulos faz campanha em SP ao lado de Orlando Silva e Jilmar Tatto. Foto: Nelson Almeida/AFP (via Getty Images)

Um erro comum da análise da conjuntura atual é afirmar que as forças políticas no Brasil se distribuem entre uma extrema direita, uma extrema esquerda e um centro amorfo que tenta se consolidar como grupo coeso tendo como base a convergência e a moderação.

A leitura tem dois erros já de saída.

A primeira é ignorar que o chamado “centro” tem caído, recorrentemente, em tentações fundamentalistas, sobretudo quando quer atrair os setores mais conservadores da sociedade. Habitante deste quadrante, João Doria (PSDB), por exemplo, até outro dia prometia que em sua gestão a polícia tinha carta branca para atirar e matar.

Outro equívoco é nivelar o campo progressista ao extremo oposto da direita populista que ganhou corpo, e rosto, com a ascensão de Jair Bolsonaro. Como se os dois grupos tivessem na deslegitimação do adversário e no elogio ao extermínio a sua base de atuação. Não têm.

Aos confortáveis do discurso nem-nem, uma rápida análise da trajetória das forças progressistas brasileiras até o Planalto neste século talvez revele, com alguma surpresa, que este país jamais testemunhou uma experiência radical à esquerda.

Lula, para se eleger em 2002, teve que assinar uma carta ao povo brasileiro com acenos ao empresariado e promessas de manutenção dos pilares macroeconômicos, com meta fiscal, controle inflacionário e câmbio flutuante. Nada de fogo no parquinho, portanto.

Seu candidato a vice era o industrial José de Alencar, do PL, o Partido Liberal, e para governar foi preciso reunir diferentes correntes do pensamento político e econômico. De Henrique Meirelles, ex-banqueiro que se tornou chefe do Banco Central, a Marina Silva, referência na defesa do meio ambiente.

Nunca é tarde, nem excessivo, lembrar dos registros consecutivos de recordes dos grandes bancos durante as gestões petistas.

Desta análise que pensa o Brasil em duas forças antagônicas e uma vocação moderadora ao meio apenas a extrema direita é de fato uma ponta. É lá que seus próceres chutam as estacas dos marcos civilizatórios, dos arranjos institucionais mais bem fincados, como as que permitem a votação por urna eletrônica, e fabricam, com gabinetes de ódio e outros crimes eletrônicos, variações narrativas entre o delírio e a delinquência.

Não existe par, no Brasil, a este extremo.

O que existe, e isso ficou evidente nas eleições de 2020, sobretudo nas grandes cidades, são dois campos moderados em disputa contra um extremo. Essa distribuição de forças não tem forma de ferradura, com duas pontas de extremidades similares que se aproximam e separadas por um arco dito civilizatório. Tem forma de triângulo, com duas pontas numa base e um extremo acima de todos.

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Idealizado pela antiga autodenominada ala radical do Partido dos Trabalhadores, como eram chamados os que se desiludiram com os esforços da legenda pela governabilidade e os desvios éticos que já ganhavam o noticiário, o Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, sempre foi associado, por essa leitura acrítica dos parágrafos acima, ao extremo do extremo. Para o eleitor conservador que cresceu com medo de comunistas embaixo da cama, era o PT piorado.

Em 2020, o partido deu mostras de maturidade política, acertou no discurso sobre a reconciliação da política como ponte de utopias palpáveis (direito a moradia, por exemplo) e saiu na frente de outras lideranças do mesmo campo na questão da comunicação digital, na qual a extrema direita nadava de braçada.

Em São Paulo, as redes foram ferramentas fundamentais de mobilização para a campanha de Guilherme Boulos e Luiza Erundina, um casamento bem-sucedido entre a renovação esperada ao campo progressista e a experiência administrativa, além de um aceno à ideia de que governar exige decisões compartilhadas e abertura à diversidade. Algo que outros partidos, iniciados numa era anterior à Queda do Muro de Berlim, demorou a entender.

Numa cidade onde foram organizadas as primeiras e mais expressivas marchas contra o governo Dilma Rousseff, entre 2013 e 2016, e que viu brotar slogans como “nossa bandeira jamais será vermelha” entoada por quem vestia o amarelo CBF e cantava uma versão raivosa do hino nacional em frente à Fiesp, um líder de movimento social em defesa de moradia conseguiu 2.168.109 milhões de votos. Parte deles veio de um eleitorado jovem que começa a se interessar e a se apaixonar por política e a defender bandeiras como combate a desigualdades e relações igualitárias.

Há quem veja no candidato do PSOL as condições ideais para reunir o campo progressista em torno de uma única candidatura a presidente. Alto lá.

Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Flávio Dino (PCdoB) se engajaram em apoio a Boulos na reta final do segundo turno, é verdade, mas não mostraram o mesmo desprendimento antes, quando seus partidos sequer cogitaram abrir mão de candidaturas próprias na capital paulista e outras praças.

Boulos passou ao segundo turno por uma conjuntura própria da eleição paulistana . Uma conjuntura distinta da observada, por exemplo, no Rio, onde as candidatas à esquerda passaram por um processo de desconstrução que as lançou para fora da pista. Boulos tinha como trunfo jamais ter exercido cargo público até se candidatar, enquanto Marta Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT) passaram parte da campanha tendo de justificar o que fizeram no verão passado, quando eram titulares de postos-chave na vida pública fluminense --o comando da Polícia Civil nos anos Cabral, de um lado, e a aliança com Garotinho e o mesmo Cabral, de outro.

Pesaram contra elas também o fato de serem mulheres num ambiente de masculinidade tóxica altamente contagioso. Foi o que pesou também contra Manuela D’Ávila (PCdoB), alvo de campanhas difamatórias, quase todas de cunho machista, durante toda a campanha em Porto Alegre.

Aqui os caminhos até 2022, quando o bolsonarismo será de fato desafiado, se bifurcam.

E as eleições do Rio e de São Paulo se tornam uma espécie de prévia para a disputa nacional. Uma cidado limou o bolsonarismo já na primeira fase. Outra precisou reunir uma frente ampla onde coube um pouco de tudo para vencer o “inimigo comum”, no caso Marcelo Crivella (Republicanos).

Na capital paulista, tanto o candidato vitorioso, Bruno Covas (PSDB), quanto o segundo colocado, Guilherme Boulos (PSOL), classificaram seu desempenho nas urnas como uma resposta ao ódio. Miravam, é claro, em Bolsonaro.

No discurso de encerramento da campanha a centro-esquerda e a centro-direita reivindicaram o papel de força moderadora capaz de impedir mais quatro anos de governo aos tresloucados empoderados por Bolsonaro.

Ao lado de Doria, provável candidato tucano a presidente em 2022 --e que perto de Bolsonaro se tornou um lorde--, Covas emulou Joe Biden, que prometeu governar para vermelhos e azuis ao ser eleito presidente dos EUA, e disse ser possível fazer política sem ódio. Tirando uma canelada aqui e outra ali, tanto Covas quanto Boulos conseguiram manter a conversa em alto nível, sem golpes baixos, palavrões, revanchismo nem promessas de extermínio. “São Paulo mostrou que restam poucos dias para o negacionismo e para o obscurantismo. São Paulo disse sim à ciência. São Paulo disse sim à moderação. São Paulo disse sim ao equilíbrio”, discursou o tucano, já apresentando o roteiro do léxico que será usado contra Bolsonaro.

No mesmo instante, Boulos usava palavras parecidas ao desenhar a sua prévia para 2022. “A gente apontou o futuro. Não está terminando, está começando o futuro de um país sem autoritarismo, que combata o atraso”.

Apesar da consonância, uma coisa é certa. Ao menos até o segundo turno, este aceno à moderação, em oposição ao radicalismo bolsonarista, não fará uns e outros marcharem juntos pelos próximos dois anos.

Esquerda e direita moderada vão digladiar muito antes de o eleitor decidir quem serão as forças ideais para se opor a Bolsonaro, presidente que, mesmo desgastado, tem base, piso e a máquina para colocar ao menos um pé no segundo turno.

Caso isso aconteça, as eleições de 2020 dão o mapa do que pode acontecer daqui a dois anos. Quando um candidato da centro-direita vai à final, a esquerda se reúne para impedir a vitória da extrema-direita. Foi o que aconteceu no Rio.

Quando um candidato à esquerda vira o representante das forças moderadas em jogo, o apoio da centro-direita é incerto.

Em Vitória (ES), o candidato petista não teve vez diante de um adversário que radicalizou. Em Porto Alegre (RS), direita e extrema-direita se juntaram contra uma mulher progressista.

Em Belém (PA), o candidato do PSOL, Edmilson Rodrigues, se saiu vitorioso, mas mesmo com dois mandatos e um histórico como parlamentar não foi fácil bater um delegado estreante associado ao bolsonarismo.

Em outras palavras, as bases do triângulo estão montadas. O presidente, ao discursar contra as urnas eletrônicas, mostrou até as armas que serão usadas até lá.

O que está vago é o posto de anti-Bolsonaro --e como as forças que agora acenam para a moderação agirão caso um possível aliado à esquerda ou à direita seja o finalista da provável disputa.