Eleições 2020 nas capitais serão termômetro para disputa presidencial em 2022

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 (AP Foto/Eraldo Peres)
(AP Foto/Eraldo Peres)

Por Taís Seibt

Na série histórica das últimas cinco eleições, a escolha dos prefeitos nas capitais acompanhou o prestígio do governo Lula (PT) e a respectiva queda de popularidade do partido após os escândalos do Mensalão e da Operação Lava Jato. Por outro lado, analistas consideram a disputa municipal de 2020 um termômetro para avaliar se a ascensão de Jair Bolsonaro (sem partido) à Presidência da República em 2018 foi um fato isolado ou se o bolsonarismo irá se fortalecer.

Derrotado na corrida presidencial em 2018 após quatro mandatos consecutivos no Planalto, o PT já vinha perdendo espaço nas capitais na última década: chegou a ter nove prefeitos eleitos em 2004, quando Lula recém havia assumido a Presidência, e caiu para apenas um em 2016, já com Dilma Rousseff afastada do cargo no processo de impeachment. Enquanto isso, o PSDB ganhou representatividade, saltando de quatro para sete prefeitos eleitos nas capitais no último pleito, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisados pela Fiquem Sabendo

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A polarização entre PT e PSDB, que também dominava a corrida presidencial no período, se reproduz na maior parte da série das últimas cinco eleições nas capitais, com poucas variações. Em 2008, o MDB empatou com o PT, elegendo seis prefeitos nas capitais; e em 2012 todos foram ultrapassados pelo PSB, que conquistou o poder em cinco capitais. Além da quantidade de conquistas, também a representatividade do reduto eleitoral envolvido deve ser levada em conta: na última disputa nos municípios, a única capital com vitória do PT foi Rio Branco (AC), com cerca de 400 mil habitantes, enquanto o PSDB venceu em São Paulo, maior cidade do país, com mais de 12 milhões de pessoas.

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Decepção do eleitor após escândalos

Conforme a cientista política Camila Rocha Oliveira, cuja tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 2018 sobre a nova direita brasileira foi premiada pela Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), a queda de protagonismo do PT na preferência do eleitor de renda média, que é a faixa mais significativa da população, começou já em 2005, quando eclodiu o escândalo do Mensalão, mas o impacto passou despercebido da maioria dos cientistas políticos, que trabalham mais com dados quantitativos. “Quando você trabalha com os resultados consolidados de eleição, você não sabe como está a cabeça do eleitor, só sabe que ele votou, mas não sabe o porquê. Na pesquisa qualitativa, já vínhamos percebendo uma mudança”, comenta.

A popularidade do então presidente Lula cresceu, segundo Camila, especialmente em torno de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, mas a grande publicidade desse programa pode ter colaborado para a frustração com o passar do tempo. “Isso passou uma mensagem para a faixa C de rendimento, que é uma boa parte do eleitorado, de que o governo faz bastante pelo muito pobre, mas não tanto para ele”, analisa. Depois, vieram o julgamento do Mensalão, em 2012, as jornadas de junho de 2013, a Operação Lava Jato em 2014, e a direita passou a ir mais fortemente para as ruas, até o impeachment de Dilma, em 2016.

Teste para o bolsonarismo

Para Camila Rocha, o enfraquecimento do PT tende a se manter, mas a eleição de 2020 vai ser mesmo um teste para o bolsonarismo, ainda mais com a fragmentação de candidatos alinhados a essa vertente política em várias legendas, já que o presidente atualmente está sem partido. “Quando você tem um arco de possibilidades institucionais muito grande, você tem mais chances de candidatos bolsonaristas se elegerem, mas vai depender muito da coordenação a ser feita, até porque a cúpula do bolsonarismo é muito propensa a ‘rachas’”, destaca a pesquisadora.

A cientista política Lara Mesquita, pesquisadora do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (CEPESP/FGV-SP), partilha da observação: “Se o presidente tivesse um partido, o que ele não tem no momento, a gente poderia usar esta eleição municipal para dimensionar o sucesso do presidente na consolidação de um partido que tenha presença nacional e que tenha condições de chegar muito competitivo em 2022”.

Influência na disputa pelo Congresso

Na avaliação da pesquisadora da FGV, o desempenho dos candidatos do mesmo partido ou com quem o presidente se empenha na campanha é mais relevante para projetar tendências para o Congresso do que para o Planalto. “As eleições municipais nos dão informações sobre o que pode acontecer na disputa para deputado federal, e isso não é menos importante, sobretudo quando a gente pensa do ponto de vista do sistema eleitoral e partidário”, analisa Lara.

As regras atuais condicionam o acesso aos recursos públicos do fundo partidário e o tempo de propaganda na TV e no rádio ao desempenho mínimo nas eleições de deputado federal. Em geral, o partido que consegue se organizar nas eleições municipais, tem mais chances de pavimentar seu caminho para eleger mais deputados.

Analisando o desempenho de PT e PSDB em 2016, Lara observa que, apesar de o PT ter eleito poucos prefeitos em cidades com mais de 200 mil habitantes, o partido chegou ao segundo turno na disputa presidencial de 2018 e teve a maior bancada de deputados federais. “O PSDB, que elegeu o maior número de prefeitos nas cidades com essas características, teve um desempenho pífio na eleição presidencial e reduziu significativamente sua bancada no Congresso”, compara.

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