SP e Rio viraram a síntese do Brasil pós-Bolsonaro

Matheus Pichonelli
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SAO PAULO, BRAZIL - NOVEMBER 21: Guilherme Boulos candidate for mayor of the city of Sao Paulo for the Socialism and Freedom Party (PSOL) walks into a cake shop (the surname "Boulos" has a spelling similar to the Portuguese word 'Bolos', which means 'cakes') during a walking rally on November 21, 2020 in Sao Paulo, Brazil. Municipal elections in the city of Sao Paulo advance to a second round in which Guilherme Boulos faces Bruno Covas, current mayor of the city for the Brazilian Social Democracy Party (PSDB). (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
Guilherme Boulos durante campanha em SP. Foto: Alexandre Schneider (Getty Images)

São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores cidades do país, chegam ao último dia de uma curta e frenética campanha em situações distintas que tendem, segundo as pesquisas, a desaguar na mesma praia.

De um lado, os eleitores decidirão entre dois candidatos jovens e que não estavam em evidência no cenário político há quatro anos.

Aos 40 anos, Bruno Covas (PSDB) busca um novo mandato após ser eleito vice-prefeito do também tucano João Doria, empresário e jornalista que se tornou beneficiário da rejeição aos chamados políticos profissionais. O atual governador mal apareceu na campanha do aliado, que tinha a máquina na mão e soube reunir uma frente de partidos tradicionais, do DEM ao PP, passando pelo MDB, de seu vice, o encrencado Ricardo Nunes. Foi o que garantiu a ele amplo tempo de exposição na propaganda eleitoral.

Seu desafiante é Guilherme Boulos (PSOL), líder de movimento de moradia de 38 anos que havia feito figuração, em 2018, na disputa presidencial. Com pouco tempo de TV e muita militância, ele se associou à veterana ex-prefeita Luiza Erundina, também do PSOL, soube usar as redes como poucos e se transformou em um case de popularidade digital. Sua candidatura foi alavancada sobretudo pelos eleitores mais jovens, e promoveu em seu entorno um encontro até outro dia improvável entre Lula, Ciro Gomes e Marina Silva.

Em São Paulo, o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), é econômico sobre o tema. Em uma seção dedicada a propostas, afirma que a “aplicação inteligente dos recursos” no combate a enchentes em sua gestão permitiu a entrega de mais de 200 novas obras – incluindo 15 piscinões e diversas intervenções de combate a enchente, que “juntamente com outras ações do Programa de Metas geraram 104 mil novas oportunidades de trabalho e outros milhares de empregos indiretos”.

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Quem olha para São Paulo imagina que uma nova safra de políticos, jovens e com pé na comunicação digital, veio para ficar. Ambos os candidatos foram alguns dos primeiros convidados, aliás, do programa Vozes da Nova Política, série de entrevistas promovida em 2019 pelo Yahoo Notícias com lideranças entre 30 e 40 anos.

Mas a 435,7km dali quem procura tendências com lupas, sobretudo para antecipar o cenário nacional, que tem um encontro com as urnas (eletrônicas, por enquanto) marcado para 2022, encontra um cenário bem diferente. Ao menos nos caminhos que levaram até o segundo turno.

No Rio, a disputa está entre o atual e um ex-prefeito da cidade, ambos com mais de 50 anos de idade e apoiados num figurino que faria os congêneres paulistanos parecerem uma banda de k-pop.

Como Doria em São Paulo, o atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), também se beneficiou da onda que desaguou em Jair Bolsonaro na última campanha presidencial. Ele foi eleito por um partido pequeno em meio ao desgaste do MDB fluminense, Sergio Cabral à frente, e o antipetismo.

Aos 63 anos, Crivella representa hoje a união das forças conservadoras, alguns dirão retrógradas, em questões caras à contemporaneidade, como diversidade e respeito ao contraditório. Com a máquina e o apoio do presidente, chegou ao segundo turno em condições desfavoráveis em relação ao Eduardo Paes (DEM), o ex-prefeito de 51 anos que quer voltar a governar o município.

Com alta rejeição, sobretudo entre as mulheres, Crivella se aliou a Bolsonaro no momento em que o presidente tem a popularidade mais baixa entre os cariocas.

Paes, que fez uma campanha apoiada no discurso de que política não é lugar para aventureiros, tinha chance de vencer no primeiro turno. No segundo, aglutinou naturalmente as forças que hoje compõem as frentes, organizadas ou não, anti-Bolsonaro. Com mais de 30 pontos percentuais à frente do rival, segundo as pesquisas, só não voltará à prefeitura se acontecer uma hecatombe.

Menos certa está a situação em São Paulo, onde o então franco favorito Bruno Covas se desgastou, nas últimas semanas, com os questionamentos levantados pelo adversário acerca de seu candidato a vice, alvo de um boletim de ocorrência de violência doméstica e suspeita de favorecimento em contratos com as creches na cidade. Covas é também suspeito de usar indevidamente a máquina da prefeitura para alavancar sua candidatura. Boulos acusa o tucano de usar abuso de poder político no caso das distribuições de cestas básicas para a população em um caminhão que tocava o jingle de sua campanha.

No começo da corrida eleitoral, Rio e São Paulo até largaram em situações parecidas. Nas duas cidades as disputas tinham um candidato bolsonarista filiado ao Republicanos (Crivella no Rio e Celso Russomanno em São Paulo), um petista (Benedita da Silva e Jilmar Tatto), um jovem do PSOL (Renata Souza e Guilherme Boulos), um novo-rico do PSL (Luiz Lima e Joice Hasselmann), um representante da aliança entre PDT-PSB (Martha Rocha e Márcio França) e outro que reuniu o centro à antiga direita (Paes e Covas) --a diferença, que na verdade não fez diferença alguma, é que no Rio o MDB tinha candidato próprio, Paulo Messina.

Havia, claro, nuances. No Rio, os candidatos eram calejados, casos de Benedita, ex-governadora e ex-senadora, Martha Rocha, ex-chefe da Polícia Civil, e dos finalistas Paes e Crivella, que já foi ministro de Dilma Rousseff. Na capital paulista, com a exceção de Márcio França (PSB), quase todos os candidatos eram novatos --diferentemente de outras disputas marcadas pelas presenças de figurões como Paulo Maluf (ex-prefeito e ex-governador), José Serra (ex-ministro), Geraldo Alckmin (ex-governador), Marta Suplicy (ex-prefeita) e Fernando Haddad (ex-ministro).

A antiga direita, hoje associada ao centro após Bolsonaro esticar a linha do extremismo até o limite, chegou ao segundo turno em São Paulo como favorita e de cara nova --Covas é o atual prefeito, mas não está perto de ser um veterano. No Rio, as mesmas forças chegam com cara já conhecida.

Os adversários mudam. Mas, ao que indicam as pesquisas, as cidades submergirão da onda antipolítica com um tucano apoiado pelo DEM num caso e com um prefeito do DEM apoiado por tucanos no outro.

Se isso é demonstração de força para o tabuleiro nacional ainda é cedo para dizer.

Em 2016, Geraldo Alckmin (PSDB), o inventor da chapa Doria-Covas, emplacou seus aliados na prefeitura da maior cidade do país e saiu cacifado para a disputa presidencial. Dois anos depois, teve 4,7% dos votos.