Silêncio de Bolsonaro após derrota prenuncia tensões elevadas até 1º de janeiro

Brazil's President and presidential candidate Jair Bolsonaro looks on at a polling station in Rio de Janeiro, Brazil October 30, 2022. REUTERS/Ricardo Moraes
Foto: Ricardo Moraes/Reuters

A mãe de um amigo deu um grito e bateu palmas quando o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial mais acirrada da história.

Ela, que nunca votou no PT até então, seguia aflita a apuração. Temia mais quatro anos de um desgoverno comandando por um líder de seita que a mandou parar de chorar quando ela perdeu a mãe para a Covid. A rejeição a Jair Bolsonaro (PL) a levou a optar pelo petista no segundo turno.

Os pais do meu amigo moram numa região nobre da cidade onde a grande maioria dos vizinhos apoiava ostensivamente o candidato oficial sem qualquer constrangimento ou restrição. O apoio estava impresso nas bandeirinhas na frente das casas e nos adesivos dos carrões estacionados.

A comemoração efusiva da mulher levou meu amigo a censurá-la. Eles haviam combinado de esconder até o fim a preferência nas urnas. Temiam uma reação violenta de vizinhos.

Parte deles estava engajada não só em dar a Bolsonaro a chance de passear de jet ski às custas de dinheiro público por mais quatro anos: eles aderiram também à pauta armamentista alimentada pelo mantra “povo armado jamais será povo escravizado”.

A lista de agressões a eleitores em uma disputa marcada pela violência política ecoava naquela casa em que o resultado das urnas foi recebido não como alegria, mas alívio. Um alívio seguido pelo medo de ser alvejado, como por pouco não aconteceu em São Paulo com um homem perseguido por uma Carla Zambelli (PL-SP) de arma em punho após criticá-la em frente a um restaurante.

A tensão naquela casa de sentimentos abafados sintetizava a tensão no restante do país.

Aqui o microcosmos dá lugar à macro História para identificar de onde vem tanto receio. Não é difícil encontrar a localização quando se tem um (ainda) presidente que prometeu “metralhar a petralhada” em um ato de campanha num já nem tão distante 2018.

Enquanto escrevo, quase 12 horas se passaram desde a confirmação do resultado das urnas pelo TSE.

Até agora Bolsonaro não reconheceu a derrota. Não ligou nem vai ligar, prevê Lula.

Quando reconhecer a vitória do petista, se reconhecer, Bolsonaro chegará à fila atrasado. Antes dele líderes dos EUA, Alemanha, França e China já haviam parabenizado o futuro presidente —e primeiro candidato a vencer três eleições presidenciais no país.

Como definiu no Twitter o jornalista e escritor Igor Natusch, não foi só Bolsonaro quem foi derrotado, mas uma tentativa de golpe em tempo real.

Esse golpe foi alimentado a conta gotas toda vez que o atual presidente colocou em funcionamento a máquina do Estado para movimentar os moinhos de seu projeto pessoal. Bolsonaro fez isso distribuindo recursos, benefícios, usando palácio oficial para fins eleitorais e espalhando mentiras, enquanto seus apoiadores mais radicais assediavam servidores e trabalhadores para votar contra sua própria consciência.

Nunca antes na História tantos líderes religiosos alinhados a um projeto de poder colocaram em campo tão descaradamente uma propaganda partidária disposta a instrumentalizar a Bíblia para espalhar o medo em seus eleitores fiéis e fiéis eleitores. Valia tudo para eleger seu candidato, até mesmo profanar o templo e usar o santo nome em vão.

No fim, uma vergonhosa operação da Polícia Rodoviária Federal para barrar o fluxo de eleitores em estradas no Nordeste entrou para a história como ato final de desespero.

A vantagem curta de Lula em uma disputa acirrada virou goleada diante dos inúmeros pregos lançados na pista por seus adversários durante a campanha. O último recurso agora é contestar o resultado e atacar as urnas eletrônicas.

Já na noite de domingo, próceres do centrão, inclusive o mais importante deles, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), manifestaram que não estarão ao lado de Bolsonaro em uma eventual contestação do resultado, já articulada aqui e ali por movimentos de caminhoneiros dispostos a trancar estradas em protesto. Por enquanto, os revoltados agem por conta própria, à espera de segundas ou terceiras ordens de quem preferiu submergir.

Bolsonaro faz agora as contas entre o plano de rebelião e os riscos de isolamento, aqui e no tabuleiro internacional.

Talvez não tenha entendido que qualquer movimento golpista neste momento pode custar o rompimento de relações diplomáticas e comerciais – um balaço na testa de empresários com visão de curto prazo e que eventualmente possam apoiar maluquices do tipo.

O caso é que Bolsonaro, disposto a sair da peleja ainda menor do que entrou, não reconheceu a derrota.

Isso é mais do que um mau sinal.

É prenúncio de um processo de transição que mal começou e já promete ser o mais tenso desde a redemocratização.

"Preciso saber se o presidente que nós derrotamos vai permitir que haja uma transição para que a gente tome conhecimento das coisas", admitiu o petista em seu discurso após a vitória.

É quase certo que em 1º de janeiro Bolsonaro deve repetir João Baptista Figueiredo, que se recusou a passar a faixa presidencial a José Sarney em 1985. A ditadura foi derrota e saiu de cena pela porta dos fundos.

A reedição do apelo simbólico agora é o de menos.

Bolsonaro tem tudo para agir como exército que bate em retirada após a derrota e sai queimando pontes e plantações para prejudicar o caminho do exército vitorioso. Cada novo foco de incêndio é um pedaço de país que se perde aos poucos.

Será um duro trabalho de reconstrução, que começa por abrir as portas ao diálogo com um Congresso hostil e um orçamento em frangalhos para atender as obsessões do atual presidente.

Como já dissemos antes: se Lula conseguir passar ao seu sucessor ou sucessora, em 2026, um país mais pacificado, mais estável e menos menos mesquinho, já será uma conquista e tanto.