Eleições além do Brasil: saiba quem mais escolhe um novo presidente em 2022

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Eleições de 2022 marcam polarização de diversos país após crise social, sanitária e econômica gerada pela pandemia. Foto: Getty Images.
Eleições de 2022 marcam polarização de diversos país após crise social, sanitária e econômica gerada pela pandemia. Foto: Getty Images.

A eleição presidencial de 2022 no Brasil não é o único pleito decisivo a acontecer este ano. Os próximos meses serão marcados por mudanças na presidência de diversos países - algumas que até já ocorreram, como em Portugal.

Após dois anos de pandemia e uma crescente tendência mundial de fortalecimento da extrema-direita, de notícias falsas e ataques às instituições, 2022 promete um cenário internacional esquentado e polarizado. Diversos países vão às urnas buscar as respostas para as aflições nacionais.

Europa pode derrotar a extrema-direita em 2022

O ano começou com Portugal reelegendo um primeiro-ministro socialista, António Costa, após o partido ter conquistado a maioria das cadeiras do parlamento português nas eleições do dia 30 de janeiro. O resultado surpreendeu, após Costa não ter conseguido aprovar o orçamento, depois de perder o apoio de dois partidos menores.

Ainda assim, o partido de extrema-direita Chega recebeu mais votos do que em eleições passadas. Agora, será o terceiro maior partido no Parlamento.

Primeiro-minitro português e secretário-geral do Partido Socialista António Costa, que venceu as eleições em janeiro. Foto: Andre Alves/Anadolu Agency via Getty Images.
Primeiro-minitro português e secretário-geral do Partido Socialista António Costa, que venceu as eleições em janeiro. Foto: Andre Alves/Anadolu Agency via Getty Images.

Este não será o único pleito significativo para a Europa. Em abril, os franceses irão às urnas para, possivelmente, optar pela reeleição do atual presidente, Emmanuel Macron, do partido social-liberal A República em Marcha!

Os principais adversários do mandatário provavelmente virão do campo da direita: Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional (ex-Frente Nacional), que perdeu para Macron nas eleições em 2017, vai tentar a presidência pela terceira vez; Valérie Pécresse, dos Republicanos; e o jornalista Éric Zemmour, do recém-criado Reconquista.

Para Tanguy Baghdadi, professor de Política Internacional e criador do podcast Petit Journal, a eleição francesa tem especial importância após a saída de Angela Merkel do poder na Alemanha, que também estava à frente da União Europeia.

“Quem se candidata para ser a sucessora de Merkel é exatamente a França, de Macron”, explica o professor. “E a eleição é marcada até o momento pela presença de dois candidatos da extrema-direita: Zemmour, com um discurso nacionalista absurdamente xenófobo, e Le Pen, que já chegou ao segundo turno nas últimas eleições”.

“Isso obviamente pode ser um elemento de preocupação, pois a extrema-direita vai conseguir, somados os dois candidatos, uma votação grande”, avalia. “Mas a tendência é que os votos daqueles contra a extrema-direita, incluindo a esquerda, migrem para o Macron, da centro-direita. E isso é algo muito importante para o futuro da União Europeia”.

Também em abril, a Hungria deverá escolher se o primeiro-ministro Viktor Orbán, representante da extrema-direita, segue no cargo ou se será vencido pela oposição. Seis partidos políticos contrários ao governo, de diferentes posições políticas, se uniram para lançar um único candidato para derrotar Orbán: Peter Márki-Zay, nome conservador que venceu as prévias do movimento contra Klara Dobrev, de esquerda e vice-presidente do Parlamento Europeu.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, da extrema-direita, que irá disputar novamente as eleições este ano. Foto: Fernando Sanchez/Europa Press via Getty Images.
O primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, da extrema-direita, que irá disputar novamente as eleições este ano. Foto: Fernando Sanchez/Europa Press via Getty Images.

“O Orbán é um grande símbolo da extrema-direita europeia, que vem passando por uma crise grave de popularidade”, explica Baghdadi. “A queda de Orbán pode marcar o início da decadência da extrema-direita europeia de uma forma geral”.

Em setembro, a Suécia decidirá se mantém Magdalena Andersson como primeira-ministra. Ela chegou ao cargo em novembro ao se tornar a primeira mulher líder do Partido Social-democrata. Agora, ela tenta manter sua posição se tornando a primeira mulher eleita primeira-ministra do país. A perspectiva é que o partido mantenha a presidência, mesmo que com menos cadeiras no Parlamento sueco.

Eleições em risco na África

A África terá um ano turbulento. Serão sete eleições presidenciais, acompanhadas de eleições legislativas: Líbia (sem data); Somália (25 de fevereiro); Mali (27 de fevereiro); Guiné (março); Quênia (9 de agosto); Angola (agosto); Chade (junho a setembro); e Somalilândia (13 de novembro).

A Líbia, um país que não conta nem sequer com uma Constituição, deveria ter realizado suas eleições em dezembro, prazo que tinha para escolher seu primeiro presidente desde a deposição e morte de Muammar Kadafi, em 2011. Agora, a ONU (Organização das Nações Unidas) pressiona para que o pleito ocorra até junho. Ainda assim, mesmo que ocorra, não há garantia que a ida às urnas contribua para a estabilização do território, que vive uma situação de conflito.

Protesto na Líbia contra a prorrogação das eleições presidenciais. Foto: REUTERS/Esam Omran Al-Fetori.
Protesto na Líbia contra a prorrogação das eleições presidenciais. Foto: REUTERS/Esam Omran Al-Fetori.

A Somália também teve seu pleito adiado, após a oposição colocar dúvidas sobre o processo eleitoral, que alega que este foi elaborado para favorecer o atual presidente Mohamed Abdullahi Mohamed (Farmajo).

Também há perigo de que as eleições não ocorram no Mali, que atualmente é comandado por uma junta militar, que tomou o poder por meio de um golpe de Estado em maio de 2021. A CEDEAO (Comunidade de Estados para o Desenvolvimento da África Ocidental) tem pressionado o país e chegou a decretar sanções na tentativa de garantir as eleições em fevereiro.

Outro país nas mãos dos militares é a Guiné. Os militares subiram ao poder em setembro do ano passado para impedir o presidente Alpha Condé de concorrer a um terceiro mandato, à revelia da Constituição, Os militares haviam se comprometido junto da CEDEAO a realizar eleições em seis meses.

América Latina no caminho do retorno das esquerdas

Na América Latina, a Costa Rica já iniciou a temporada de eleições. No último domingo (6), ocorreu o primeiro turno no país que definiu os candidatos para o segundo turno, que será realizado no dia 3 de abril: o ex-presidente de centro-esquerda José María Figueres e o segundo economista conservador e ex-ministro da Fazenda Rodrigo Chaves. Em meio a uma crise econômica e de confiança da população nos políticos, o primeiro turno teve 25 candidatos, um recorde no país.

A Colômbia terá uma das eleições mais polarizadas do ano. O partido conservador Centro Democrático, do atual presidente Iván Duque, vai lançar Óscar Iván Zuluaga, que também é aliado do ex-presidente Álvaro Uribe, responsável pelo fim do Acordo de Paz que buscava pacificar as guerrilhas e milícias do país. Ele concorrerá contra o senador de esquerda e ex-guerrilheiro Gustavo Petro, da frente ampla de esquerda Pacto Histórico. Em 2018, Petro perdeu o pleito para Uribe. Agora, ele lidera as pesquisas de intenção de voto.

"A Colômbia terá uma eleição extremamente polarizada. Por um lado, uma extrema-direita que vem descumprindo o Acordo de Paz de 2016, e do outro uma esquerda e centro-esquerda, apoiado pelos movimentos sociais, que defende a implementação do acordo e pautas progressistas", explica a diretora do Instituto Diplomacia para Democracia, Amanda Harumy. "Lembrando que a Colômbia nunca teve um governo de esquerda".

Maniestação lembra as vítimas do conflito armado colombiano. Tema será centras nas eleições de 2022. Foto: JUAN BARRETO/AFP via Getty Images.
Maniestação lembra as vítimas do conflito armado colombiano. Tema será centras nas eleições de 2022. Foto: JUAN BARRETO/AFP via Getty Images.

Os pleitos do Brasil, Costa Rica e Colômbia trazem a possibilidade de vitória de candidatos de esquerda, seguindo uma nova tendência na região.

“O ano de 2022 promete ser decisivo na consolidação da guinada à esquerda nos países da América Latina. As eleições presidenciais no Brasil, Colômbia e Costa Rica podem sedimentar caminho já traçado por Bolívia, Chile, Peru e Honduras”, avalia o pesquisador Rogério do Nascimento Carvalho, doutorando pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo.

Ainda de acordo com Nascimento, essa guinada à esquerda na região pode também significar uma aproximação dos países com a China.

“No âmbito regional, a guinada à esquerda facilitará o entendimento com Pequim. Com isso, investimentos serão destinados à América Latina, o que incomoda EUA e Reino Unido, que durante décadas relegaram a planos inferiores à região”, avalia o pesquisador.

Ásia poderá ver a queda de um governo autoritário

A Coreia do Sul dará o pontapé inicial das eleições presidenciais na Ásia em 9 de março, quando o país decidirá quem vai substituir o atual presidente, Moon Jae-in, do Partido Democrático da Coreia (DPK), de centro-esquerda.

O candidato da situação é o ex-governador da província de Gyeonggi, Lee Jae-myung, que, assim como o atual líder, atuou como advogado de Direitos Humanos. Seu maior oponente será o ex-promotor Yoon Seok-youl, do conservador Partido do Poder do Povo (PPP).

Enquanto isso, na Filipinas a situação ainda está se desdobrando. No dia 9 de maio, a população vai escolher o substituto de Rodrigo Duterte, no cargo desde 2016, na presidência. Duterte é considerado por muitos um autoritário. Ele militarizou seu governo e usa da violência como estratégia para fazer política, com a promessa de “acabar” com as drogas. Ele foi acusado de diversas violações de direitos humanos e é investigado pelo Tribunal Penal Internacional.

Protesto no Dia Internacional dos Direitos Humanos critica o autoritário Rodrigo Duterte, que deve ser derrotado nas eleições de 2022. Foto: TED ALJIBE/AFP via Getty Images.
Protesto no Dia Internacional dos Direitos Humanos critica o autoritário Rodrigo Duterte, que deve ser derrotado nas eleições de 2022. Foto: TED ALJIBE/AFP via Getty Images.

Sua filha, Sara Duterte, concorrerá como vice-presidente na chapa encabeçada pelo senador Ferdinand “Bongbong” Marcos Jr, filho do ex-ditador Ferdinand Marcos. Nas Filipinas, presidente e vice são eleitos de forma separada.

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