Eleições 2020 apontam caminhos distintos para a esquerda até 2022

Matheus Pichonelli
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Campos e Marília Arraes, primos e adversários no segundo turno de Recife. (Foto: Reprodução/Yahoo Notícias)
Campos e Marília Arraes, primos e adversários no segundo turno de Recife. (Foto: Reprodução/Yahoo Notícias)

Lula, Ciro Gomes, Marina Silva e Flávio Dino embarcaram na campanha de Guilherme Boulos em São Paulo.

Eles foram as estrelas da propaganda levada ao ar pelo candidato do PSOL no último fim de semana.

Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila (PCdoB) já recebeu, e também divulgou, o apoio dos mesmos figurões no campo progressista.

Após a lapada de 2018, as propagandas dos candidatos nas duas capitais indicavam que a esquerda começava a dar sinais de que poderia caminhar junta até 2022, quando o embate com o campo bolsonarista tem hora marcada para acontecer.

A impressão era reforçada pela reaproximação entre Lula e Ciro, que têm trocado duras farpas desde as eleições de 2018.

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As notícias mais recentes, porém, dão conta de que há ainda muitas arestas a serem aparadas.

Apesar do esforço em torno de candidaturas de Boulos e Manuela, há ao menos um ponto nevrálgico a colocar em dúvida a possível frente ampla costurada com a mesma linha que tesoura.

Esse ponto se chama Recife. Nona maior cidade do país, reduto há anos da família Campos e seus aliados, a capital pernambucana acendeu todos os alertas sobre como os esforços por união correm o risco de serem esfacelados quando dois partidos aliados querem não apenas coisas diferentes, mas também a mesma coisa. A prefeitura da cidade, no caso.

Em São Paulo o “inimigo” é tucano e, em Porto Alegre, é um emedebista com apoio de grupos conservadores.

Em Recife é esquerda contra esquerda e nenhum dos dois cedeu nem antes nem durante a campanha. Na reta final, não só cedeu como já promove uma guerra quase fratricida. Quase fratricida mesmo, já que João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) são primos de segundo grau --a petista era prima do ex-governador Eduardo Campos (PSB), morto em uma acidente aéreo em 2014. Ambos estão tecnicamente empatados no último Ibope. João tem 43% das intenções de voto e Marília, 41%.

Lula entrou de cabeça na campanha da candidata petista. Ciro Gomes está ao lado de João Campos.

Com os pesos-pesados em jogo, a disputa chegou a um paradoxo. Campos, de quem o pai já foi ministro dos governos petistas e que já engrossou o coro de Lula Livre, decidiu simplesmente explorar o antipetismo do eleitor para bater a adversária do PT.

Mensagens apócrifas espalhadas por Recife mostram o ex-presidente Lula e uma mão espalmada, sem um dedo, com a mensagem “basta”. Outra tem Marília Arraes estilizada com a legenda “PT nunca mais”.

A guerra tem sido decidida na Justiça. Recentemente, Marília teve que tirar do ar uma propaganda em que acusava o primo de machismo.

Nos últimos dias, um princípio de incêndio tomou conta da campanha após o vazamento de um suposto áudio do deputado Túlio Gadelha (PDT-PE), que declarou voto em Marília, falando sobre uma possível proposta feita pela candidata para rachar salário de servidores em troca de apoio.

Em 2018, Fernando Haddad (PT) foi o candidato a presidente mais votado em Pernambuco, mas ficou atrás de Jair Bolsonaro no primeiro turno em Recife (43% a 30%).

Bolsonaro hoje está com a moral baixa em boa parte das capitais. Em Recife, a candidata Delegada Patrícia (Podemos) murchou após o presidente anunciar apoio à sua campanha.

Isso não impediu Marília de aceitar apoio de um prefeito recém-eleito em Jaboatão dos Guararapes que era apoiado pelo presidente.

As feridas que a disputa na capital pernambucana podem deixar tendem a ser fatal para os planos da chamada frente ampla.

Daqui a dois anos seus apoiadores saberão se a união em torno de Boulos e Manuela foi um princípio de paz ou um intervalo na guerra. Haverá consenso em torno de um único nome? A disputa em Recife mostra que o caminho é longo e já está tomado por feridas.

Com tanto racha, o risco é a eleição nacional repetir o que aconteceu no Rio, onde a esquerda marchou dividida entre PT, PSOL e PDT e hoje adere em peso a Eduardo Paes (DEM) para não ver vitoriosa a dobradinha Bolsonaro-Crivella.