Terceira via para gringo ver

Terceira via no Brasil é mais um espetáculo para gringo ver do que uma proposta real. (Foto: Getty Images)
Terceira via no Brasil é mais um espetáculo para gringo ver do que uma proposta real. (Foto: Getty Images)

O escritor francês Andre Gide dizia: “tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso repetir”. Ao contrário do que muitos possam pensar, terceira via não é um termo que surgiu no Brasil. Ele foi criado na Inglaterra como uma proposta de renovação política e econômica.

A ideia era dar respostas que o sistema vigente não estava conseguindo oferecer. Não muito diferente do que ocorre aqui no Brasil. A esquerda e a direita estão saturadas, então busca-se uma alternativa.

Mas é aí que começa o imbróglio.

Terceira via no Brasil é mais um espetáculo para gringo ver do que uma proposta real. Ela já rondou o cenário político eleitoral nas disputas para presidência, mas é um processo em construção. Você não vence duas forças poderosas num país de extremos como o nosso de um dia para o outro.

Nas eleições para presidente em 2014 Marina Silva veio postulante como um nome forte, mas aqui essas barreiras são difíceis de serem rompidas. Desde a redemocratização a disputa presidencial gira em torno de PT x PSDB, com exceção de 1989 e 2018, mas mesmo assim, nesse último, o debate girou entre esquerda e direita.

Procurei muito um vídeo de 2021 no YouTube em que eu dizia que a terceira via era uma falácia. Achei a prova do crime. Um vídeo simples, perdido, com modestas 90 visualizações (todas vindas da minha família, possivelmente) mas lá estava ele. E aqui continuo eu, tentando fazer ciência. Mas vamos lá.

Desde o ano passado, quando surgiu essa história, e na época Mandetta era o “homem a desbancar o velho poder”, eu já explicava os motivos pelos quais a terceira via não daria certo. Naquela época Bolsonaro tinha 26% de intenção de votos e Lula 30%.

Como surgir um terceiro num ambiente tão polarizado? Ou, como eu falei no vídeo: como surgir uma terceira via em um ambiente onde os extremos Lula e Bolsonaro são tão fortes? É quase uma matemática simples.

Os nomes de hoje nessa terceira via são Simone Tebet e João Doria que juntos não passam Ciro Gomes nas intenções de voto. Complicado. Simone até poderia tentar, se começasse hoje, ficar conhecida nacionalmente e sair do primeiro turno com 10% dos votos. Rifaria caro seu passe então no segundo turno. Mas acreditar que possa ser um nome a vencer o pleito é, de novo, para gringo.

Diante do exposto vamos decidir entre Lula e Bolsonaro, ou, como eu disse em outro texto aqui no Yahoo: entre um ex-presidente que levou a corrupção a outro nível e um que torna comum a violência.

Mas que fique claro: que não deixemos de cobrar uma terceira via. Muito menos espaços na política que permitam que um nome novo surja com propostas. Ainda somos uma democracia e devemos lutar por ela. Eu comecei esse texto com Gide. Termino com Obama: “podemos compreender que haverá guerras, mas ainda assim lutar pela paz”. Nem sempre é uma linha reta.