Eleita para a ABL, Fernanda Montenegro fala sobre preparação para vida acadêmica: 'Completamente entregue ao conhecimento'

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Fernanda Montenegro se prepara para a ABL com o mesmo rigor com que entra em cena. Pronta para a “estreia”, a atriz recém-eleita para a cadeira 17 conta ao GLOBO que está mergulhada no “conhecimento interno” da instituição, lendo biografias e antigos discursos de colegas. E diz que tem planos para reativar o teatro da casa, hoje fechado.

O primeiro convite da Academia veio há anos. Por que só aceitou agora?

Às vezes não passa pelo raciocínio. Há um emocional, um momento em que simplesmente bate. Não sei pôr em palavras. Talvez tenha sido o amor à vida? Esse desejo de permanecer numa sociedade de grande resistência cultural, que há 125 anos sobrevive a crise e crises. Agora que houve o decreto bruto do fim da cultura e das artes, acho que a Academia está à frente da resistência. Até pela sua capacidade de sobrevivência em um país que a toda hora começa tudo de novo.

A senhora conhecia bem seu antecessor, Affonso Arinos de Mello Franco?

Lembro que cruzei com Affonso Arinos algumas vezes, uma figura elegante e referencial, e ele sempre me disse: “Fernanda, entre na Academia”. Eu respondia: “Mas eu? Eu sou só uma atriz, não tenho livro!” Ele insistia: “Escreva um livro e entre na Academia”. Agora veja esse milagre: a Academia me aceita e ele me antecede. Vai explicar um fenômeno desses.

Por que a senhora diz que é “apenas uma atriz”, como se fosse pouco?

Eu juro que Homero deve ter sido ator. Os diálogos da “Ilíada” são arrebatadores. Shakespeare foi ator. E partiu para tudo aquilo que criou como ator. Molière foi ator. O ator faz a criação na pele. Mas ainda é uma profissão que sofre preconceito, até do ponto de vista intelectual. “Ator é burro”, “ator não pensa, ator fala”... Você pode ser um mau escritor que não tem importância. Mas você não pode ser um mau ator porque senão você não existe. Publicamente você não pode propor outros caminhos. Ou você é ou não é. Não há subterfúgios.

A Academia tem um teatro, desativado por conta da pandemia. Tem planos para ele?

Já estive quatro vezes naquele palco. Agora o senhor me trouxe uma pergunta que me faz pensar. Será que eu não aceitei entrar na Academia por causa daquele palco? É possível. Ali tem um palco muito fechado, muito resguardado para as necessidades da Academia. Eu acho perfeito. Eu tenho na minha cabeça muitas possibilidades de pôr vida naquele palco, não a serviço da Academia, mas de uma possível plateia. Talvez eu tenha achado aí o meu espaço, não como escritora, mas como atriz.

Como a senhora está se preparando para a vida acadêmica?

Estou lendo a biografia de meu antecessor e discursos históricos de posse. Estou completamente entregue ao conhecimento interno da Academia. Cada estreia a gente se prepara, de Sófocles a Samuel Beckett. Conversa com o elenco, com os colegas, com a direção... Mas agora estou diante de um mundo completamente novo para mim, que é entrar para uma Academia com a dimensão histórica que tem.

A senhora parece encarar a estreia na Academia como uma estreia teatral?

De certa forma, é isso. Com o passar dos anos, você vê todo o processo da vida como se fosse um texto de personagens que vai ter que carnificar. Isso vai ficando na vida do dito ator ou atriz. Quanto mais você é devoto e vocacionado, mais você se “deforma” diante dos fatos da vida. E eu sou devota.

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