Eleitores indecisos se frustram com poucas propostas e criticam machismo de Bolsonaro, mostra pesquisa

SÃO PAULO - SP - BRASIL - 28.08.2022 - O presidente da república e candidato a reeleição pelo PL, Jair Bolsonaro, durante a entrada para o primeiro debate entre presidenciáveis.  (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
SÃO PAULO - SP - BRASIL - 28.08.2022 - O presidente da república e candidato a reeleição pelo PL, Jair Bolsonaro, durante a entrada para o primeiro debate entre presidenciáveis. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os eleitores indecisos, não convictos ou dispostos a votar em branco consideraram o primeiro debate presidencial opaco em propostas e frustrante devido à troca de ataques pessoais entre candidatos e ao machismo do presidente Jair Bolsonaro (PL).

A observação é de uma pesquisa qualitativa do Datafolha realizada durante o evento deste domingo (28), que ouviu 64 pessoas indecisas sobre o voto do pleito de outubro. O levantamento não é representativo da população brasileira e visa a mostrar a percepção do grupo.

O debate organizado por Folha de S.Paulo, UOL e TVs Bandeirantes e Cultura reuniu por quase três horas os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro, Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB), Luiz Felipe d’Avila (Novo) e Soraya Thronicke (União Brasil) na sede da Band, em São Paulo.

O universo de pessoas que pretendem votar em branco ou nulo é de 6%, segundo a última pesquisa Datafolha, realizada de 16 a 18 de agosto. Há, ainda, 2% que não sabem em quem votar.

O debate foi considerado importante para a decisão eleitoral por 80% dos entrevistados pelo instituto. Já 67% disseram ter mudado de voto.

Os eleitores foram divididos em três salas virtuais com mediadores do Datafolha durante o debate. A cada bloco, avaliaram por meio de um aplicativo o desempenho de cada candidato e a satisfação em relação às suas respostas. Tebet foi a mais bem classificada, seguida de Ciro Gomes.

Bolsonaro, candidato à reeleição, registrou o pior desempenho entre os entrevistados, distante dos demais postulantes no quesito. Parte da insatisfação veio dos ataques que ele dirigiu às mulheres, segmento que ele precisa conquistar na campanha.

No segundo bloco, nervoso com uma pergunta da jornalista da TV Cultura Vera Magalhães, disse que ela era uma "vergonha para o jornalismo brasileiro". Também atacou Tebet e fez aferições de cunho machista.

"Bolsonaro gosta de reduzir as oportunidades de trabalho das mulheres, sempre cita salão e cozinha", disse um entrevistado. "Bolsonaro foi meio grosso com a jornalista" e "ele gosta de deixar claro que lugar de mulher é em salão, cozinha e em casa", afirmaram outros.

Outras observações foram: "Bolsonaro está dando um tiro no pé. Em vez de mostrar suas propostas, ele só ataca os outros candidatos" e "Bolsonaro começou a atacar muito, desrespeitou muito, toda hora chamando o Lula de presidiário. Podia ter um pouco mais de respeito, né? Bate, mas tem que ter um pouco de respeito".

O desempenho do ex-presidente Lula também ficou aquém do esperado. Para os presentes, ele demonstrou preocupação em combater Bolsonaro e não apresentou propostas.

"Lula está muito focado em querer combater o Bolsonaro e está se perdendo em mostrar propostas concretas", disse um eleitor. "Lula não convence mais, precisamos de sangue novo", concluiu outro.

As trocas de farpas entre os primeiros colocados nas pesquisas e o desvio às questões centrais não foram bem-vindos.

"Bolsonaro, Lula e Ciro estão com sérias dificuldades de responder às perguntas de maneira direta, nunca respondendo às perguntas sem citar o passado ou adversários."

Diante dos ataques, candidatos menos conhecidos nas pesquisas receberam mais atenção. Um dos entrevistados, antes dividido entre Lula e Bolsonaro, disse que o debate lhe permitiu conhecer Tebet.

"Gostei muito dela, achei que ela foi muito certeira no que queria falar... Então abriu um pouco mais a minha mente para os outros candidatos."

A candidata, quarta nas pesquisas de intenção de voto, com apenas 2% na última pesquisa Datafolha, apresentou propostas como crédito para saúde e uma poupança para jovens estudantes de R$ 5.000 anuais, projeto considerado irreal por muitos dos entrevistados. "Esse papo de R$ 5.000 para estudante é sem nexo", disse um deles. Foi elogiada, entretanto, pela sua atuação na CPI da Covid.

De modo geral, os eleitores sentiram falta de planos para segurança pública, saúde, segurança, saúde, saneamento e meio ambiente. Muitos ainda seguem indecisos ou não convictos sobre a escolha em outubro.

Entre aqueles que mudaram de opinião sobre os candidatos, as justificativas foram as propostas apresentadas pelos menos conhecidos. Disseram que gostaram de ouvir "vamos esquecer do passado e pensar no futuro".

Os que não mudaram de opinião após o evento justificam que o debate ficou concentrado no passado.

Na avaliação por blocos, Tebet ficou na liderança, acompanhada de Ciro, com valores próximos na escala de satisfação dos eleitores.

Bolsonaro apresentou o pior desempenho para o grupo. Foi o único que teve mais avaliações negativas (ruim e péssimo) nas suas respostas do que positivas (ótimo e bom).

As respostas de Lula foram mais bem avaliadas no primeiro bloco, com mais da metade de avaliações positivas, e passaram a declinar. No terceiro, o petista teve seu mais baixo percentual de avaliações positivas, atrás apenas do atual presidente.

A metodologia da pesquisa reuniu cerca de 30 eleitores não convictos dos três presidenciáveis mais bem posicionados nas pesquisas, cerca de 10 indecisos de outros candidatos e cerca de 20 que pretendem votar branco ou nulo.

A amostra agregou homens e mulheres de 22 a 69 anos de todas as regiões, escolaridade variada e renda familiar mensal entre dois e dez salários mínimos —o salário mínimo no Brasil, em 2022, é de R$ 1.212. Havia eleitores assalariados, autônomos, profissionais liberais, funcionários públicos, desempregados e estudantes.