Eles não usam filtro solar: brasileiros estão deixando de se proteger do sol

Mariana Coutinho
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Raica Oliveira parou de usar protetor há seis anos

Basta o tempo abrir no Rio para que Robson Lopes, de 42 anos, apareça na praia. Mas não é o som do mar que chega aos seus ouvido. “Todo mundo vem falar e me perturbar, porque não passo filtro solar”, conta. O agente de viagens diz que não deixa de se proteger por esquecimento: “Apenas não gosto. E também não uso boné, nem fico na barraca. O que faço é chegar e sair cedo da praia”. Como ele, muita gente tem deixado de usar a proteção solar mesmo no alto verão — seja por subestimar os riscos, por buscar alternativas consideradas mais naturais, pela preocupação com a absorção de vitamina D ou, pior, por conta de fake news, como a de que bloqueadores provocariam câncer de pele. Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) constatou que apenas 23% dos brasileiros usam o protetor da maneira recomendada pelos médicos. E calcula-se que seis milhões não usam nada na exposição ao sol

Para a modelo Raica Oliveira, não usar filtro foi uma escolha: “Parei há mais de seis anos por causa da química e porque acho que a produção industrial também não ajuda o meio ambiente. Não creio que o sol em si faça mal à saúde, o problema é o excesso de exposição. Acredito que nossa pele tem uma proteção própria se bem hidratada”. Nos cuidados diários, a top usa óleo de coco e faz máscaras faciais de flores, chocolate e abóbora. “Nesses anos, lembro apenas de uma vez em que me queimei demais. Fiquei horas em um barco, num calor de 40 graus. Tive insolação, fiquei com febre e precisei de tratamento”, diz a modelo, de 35 anos, que mora em Ibiza, na Espanha, e não abre mão de uma praia.

A fonoaudióloga Caroline Lamin El Saman usa base no rosto “para se proteger das luzes do computador”, mas parou de utilizar filtros solares convencionais há mais de 10 anos. “Acho que as pessoas têm uma fobia de sol. Não sou adepta de protetores de farmácia porque têm toxinas demais. Tinha muitos problemas de pele, mas quando parei de usar produtos da indústria e me desintoxiquei, fui melhorando”, observa. Aos 42 anos, ela conta que se expõe ao sol por até 30 minutos sem nada e, se passar mais tempo, aplica pasta d’água. Também utiliza protetores artesanais e importados, que considera mais naturais. Além disso, acredita que o uso do filtro é prejudicial por bloquear a absorção de vitamina D.

O chefe do Serviço de Dermatologia do Instituto Nacional do Câncer (INCA), Dolival Lobão, discorda. Segundo ele, são necessários 15 minutos de exposição solar por semana em um país tropical como o Brasil para a absorção adequada da vitamina. Além disso, ele argumenta que apenas a exposição de braços e pernas sem bloqueador solar no dia a dia já é suficiente. De forma que é possível continuar protegendo o rosto. A deficiência da substância no corpo costuma ter mais relação com a alimentação do que com o sol

Sobre a presença de oxibenzona em filtros solares, composto considerado tóxico e que preocupa Raica e Caroline, Lobão afirma que ele não é mais usado nos protetores encontrados no mercado. “Os produtos dos laboratórios são certificados, passam por testes e seguem protocolos dentro das descobertas científicas mais recentes. Por isso mesmo, não apresentam mais oxibenzona”, explica o dermatologista, que é categórico ao afirmar: “Essa história de que o filtro faz mal é mito. Ele é um aliado na prevenção do câncer de pele”.

Lobão comenta, ainda, que muitos desconfiam do parabeno, essa, sim, uma substância comum nos filtros. “Não se trata de um composto perigoso, a não ser em situações particulares de alergia”. É o caso da dentista Natalia Lucena, de 29 anos, que acaba não usando protetor para evitar ficar empolada: “Uso pouco porque é difícil achar bloqueador sem parabeno e ele me dá reações na pele. Confio na proteção dos filtros e queria usar mais. Como não posso, me exponho menos ao sol e uso óculos escuros”, conta.

Dolival Lobão explica que a proteção solar é o principal fator de prevenção do câncer de pele, o tipo de tumor mais frequente no Brasil. São mais de 170 mil novos casos esperados da doença, segundo o INCA. O câncer de pele tem dois tipos, o melanoma — mais raro e agressivo, que provoca 1.700 mortes anuais — e o não-melanoma, que dificilmente leva à morte, mas pode causar deformações e cicatrizes.

Neste mês, a campanha Dezembro Laranja chega à sexta edição e procura justamente chamar atenção para a doença. Para além do diagnóstico precoce, ela alerta para a prevenção e foca especialmente na exposição aos raios ultravioleta, causa de 90% dos tumores de pele, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia. “Além da doença, o uso de filtros solares previne também o envelhecimento da pele”, diz a diretora da SBD, Cláudia Alcântara, destacando que a exposição ao sol pode causar ressecamento e manchas.

Há quem se preocupe com isso, mas se incomode com as fórmulas dos protetores convencionais. É o caso da estilista Patrícia Pizzolato, de 42 anos. Hoje em dia, ela usa filtros porque não tem mais tempo de preparar seus próprios óleos vegetais e essenciais, mas procura alternativas. “Li que há componentes nos protetores que fazem mal à saúde, por isso procurava fazer os meus próprios”, conta.

Cláudia não recomenda esse tipo de uso. “Protetores feitos em casa são perigosos por dois motivos: podem causar reações inesperadas na pele e não proteger adequadamente”, esclarece. Ela ressalta que informações falsas e distorcidas sobre o assunto são encontradas facilmente na internet : “Há muita especulação sobre os compostos do bloqueador, mas nenhuma pesquisa até hoje mudou nossa recomendação de uso”, deixa claro. Seja no dia a dia, seja na praia, o filtro ainda é um aliado essencial na prevenção do câncer de pele e de outros males causados pelo sol.