'Eles sentiam prazer enquanto me batiam', diz pintor espancado em bar de São Gonçalo

Agredido com tapas, socos e pontapés pelo dono e o segurança de um bar em São Gonçalo, no último sábado, o pintor Welington da Conceição, de 31 anos, não se esquece da humilhação que passou. Ele foi acusado de roubo pelos dois homens, que, segundo a vítima, o levaram para um canto e começaram a golpeá-lo "com prazer no rosto". O caso é investigado pela 73ª DP (Neves) como lesão corporal, injúria e calúnia, e pode evoluir para tortura. De acordo com a Polícia Civil, o inquérito deve ser finalizado e remetido à Justiça na próxima semana.

— Parecia que tinha prazer no rosto deles, eu sentia prazer neles enquanto me batiam — conta Welignton, que não se recorda ao certo por quanto tempo foi agredido.

Um trecho da violência foi registrado pelos próprios agressores, que ainda publicaram o vídeo na internet. Nas imagens, Welington aparece com diversos ferimentos no rosto, que está ensanguentado. A vítima está descalça e sentada numa calçada enquanto é questionada sobre o roubo e recebe um novo pontapé, sem reagir.

— Me chamaram de "ladrão safado" e me bateram muito, lembro disso. Naquele dia, não pensei que ia morrer, eu tinha certeza. Não lembro se consegui fugir ou se me soltaram em algum momento. Eu vim caminhando para casa (que fica a cerca de 40 minutos de distância do bar), mas não consegui voltar pelo trajeto certo, tinha medo que eles voltassem para terminar o que começaram — relembra.

O dono do estabelecimento — apontado como o principal responsável pelas agressões — foi intimado a depor. Segundo o delegado titular da 73ª DP, Geraldo Assed, não há indícios de ter havido um roubo ou furto na ocasião. A polícia aguarda ainda uma lista com a qualificação dos seguranças que trabalham no bar.

A violência sofrida pelo pintor no último fim de semana gerou um trauma. Segundo ele, depois do episódio no bar, algumas questões rotineiras mudaram. Para Welington, algo que antes eram normal — como ficar numa esquina enquanto aguarda um amigo ou familiar —, hoje gera um sentimento de total insegurança.

— Estou aqui aguardando um amigo que está me ajudando, mas estou muito nervoso, com medo e inquieto. Naquela rua, por exemplo, sei que nunca mais consigo voltar. Lá é uma região conhecida e movimentada, mas não consigo nem pensar na ideia de voltar a nenhum estabelecimento na região. Eu sinto as dores até hoje. No dia seguinte, minha cabeça doía absurdamente — lembra.

O pintor, que é pai de duas meninas, de 8 e 10 anos, relata também a vergonha que sente pelo que viveu e por ter sido exposto nas redes sociais:

— Eu não quero que as minhas filhas saibam, não quero causar constrangimento. Me sinto frágil e com vergonha do que aconteceu. Vou precisar ficar sem ver minhas filhas por um tempo, porque estou machucado e não quero que elas vejam.

Até o momento, Welington diz não entender a motivação das agressões e afirma querer descobrir o que levou os dois homens a acusá-lo e agredi-lo:

— Quero provar a minha inocência e entender o que levou a isso. Até agora, não sei o motivo para essa crueldade. Não sei se foi pela minha cor ou pelas minhas roupas que acharam isso. Mas, se me revistassem, eles veriam que não tinha nada comigo. Nem vítima teve, ninguém foi até eles falar nada de roubo.

O GLOBO tentou contato com o proprietário do estabelecimento, mas até a publicação desta reportagem não teve retorno.