Eletrobras pagou quase R$ 2 milhões para falarem mal da própria companhia, diz levantamento

(jose lucena/Futura Press)

Um levantamento realizado pela agência de jornalismo investigativo Sportlight revela que a Eletrobras pagou R$ 1,8 milhão para a divulgação de notícias desfavoráveis a seu respeito.

Em setembro de 2017, de acordo com a reportagem, a estatal fechou um acordo com a assessoria de imprensa RP Brasil Comunicações, a maior do país, pertencente ao grupo FSB Comunicação. No contrato, a Eletrobras descreve a prestação de serviços: “assessorar na comunicação relativa ao projeto do acionista majoritário de desestatização da empresa”.

Contratação

A contratação da FSB Comunicação foi feita através da cláusula de inexigibilidade de licitação, que elimina a necessidade do processo de cotação de valores e só deve acontecer caso existam razões que justifiquem a dispensa.

A reportagem apurou, no entanto, que a estatal chegou a cotar o serviço com três empresas. A que ofereceu o valor mais baixo foi a Informe Comunicação, enquanto a FSB ficou em segundo lugar, seguida pela Companhia de Notícias.

Apesar dos resultados, quem foi contratada foi a segunda. Questionada, a Eletrobras afirmou que “em face da sua complexidade e singularidade, bem como confidencialidade, por envolver informações estratégicas da empresa”, o serviço “somente poderia se dar através de inexigibilidade de licitação, o que impossibilita o estabelecimento de critérios objetivos, requerendo empresa de notória especialização em estratégia de comunicação”.

A publicação da contratação foi feita quase um mês depois da assinatura do contrato, na mesma época que Wilson Pinto Ferreira Junior assumiu o comando da Eletrobras. O objetivo principal do presidente era conduzir o processo de privatização.

Serviços

Entre os serviços descritos pelo contrato houve a análise do cenário, com gastos de R$ 30 mil, o mapeamento dos formadores de opinião, com verba de R$ 180 mil, o monitoramento da mídia, custando mais R$ 144 mil, a realização de uma pesquisa de opinião pública, por mais R$ 120 mil e a mobilização de influenciadores, com gasto de R$ 170 mil, além de outros valores.

Estratégia

O objetivo do projeto era pautar os formadores de opinião e a imprensa, mostrando um cenário que tornasse a privatização algo necessário e urgente. “Em busca de uma mobilização da opinião pública e formação de ambiente favorável para a privatização, a empresa traçou como estratégia a divulgação de um cenário de mazelas e problemas da estatal”, indica a Sportlight.

Questionada, a Eletrobras afirmou que o contrato apontou apenas a “necessidade de mostrar a imagem positiva da empresa, mas não omite dados negativos como prejuízos financeiros ou dívida bruta superior a R$ 45 bilhões”.

Diferença de valores

O governo afirma que a privatizada da empresa geraria R$ 12,2 bilhões, bem menos do que o valor patrimonial que ela possui, avaliado em R$ 46,2 bilhões. Considerando o total de ativos que a Eletrobras possui, o valor chega a R$ 170,5 bilhões, mais os R$ 541 bilhões investidos desde 1962, quando ela foi criada.

Notícias

De acordo com a agência, algum tempo depois de o contrato começar a valer houve “uma difusão maior e aumento no tom das notícias negativas quanto a gestão e resultados da Eletrobras após a assinatura do contrato com a FSB”. Procurada, a assessoria afirmou que “não se pronuncia sobre contratos em vigor com seus clientes”.

Questionada, a estatal afirmou que a contratação da assessoria teve como objetivo “assessorar a Eletrobras na comunicação relativa ao processo de desestatização, esclarecendo seus principais pontos à opinião pública”.

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