Elite russa se divide sobre o fim que quer para a Guerra da Ucrânia

MOSCOU, RÚSSIA (FOLHAPRESS) - A elite russa deseja o fim da Guerra da Ucrânia, mas a forma para tal desígnio varia de uma negociação imediata para os mais moderados a uma radicalização do conflito, para os militaristas no entorno do Kremlin.

Essa foi a conclusão, impressionista é claro, da reportagem durante alguns dias de conversas com membros do governo, empresários, analistas e integrantes do sistema de apoio ao regime de Vladimir Putin.

Elas ocorreram em Moscou e em Rogozinino, cidadezinha próxima da capital que sediou a reunião anual do Clube Valdai, entidade que reúne analistas internacionais e locais com integrantes da elite russa para discutir os rumos da política externa do Kremlin.

Ali, as sessões fechadas têm discussão livre com gente do quilate do chanceler Serguei Lavrov ou do czar da energia russa, o vice-premiê Alexander Novak, mas, como regra de engajamento dos participantes, nada do que eles falaram pode ser publicado

O mesmo vale para os convidados estrangeiros, como analistas militares ou o economista americano Jeffrey Sachs. Mas impressões gerais podem ser registradas, assim como conversas de intervalos, respeitando o anonimato dos interlocutores.

Há dissenso nos altos escalões da vida política russa sobre a condução da guerra por Putin. Ele é até tolerado, sob algumas condições controladas: o moderador da sessão em que o presidente falou ao Clube Valdai, no dia 27 de outubro, iniciou seu discurso dizendo como todos os presentes ficaram "chocados" com a decisão de invadir.

Putin então discorreu sobre os motivos que já apresentou sobre o conflito e não quis revelar qual seria o limite de sua ambição no vizinho.

Um integrante do chamado Partido da Guerra, apelido informal dos membros da elite que só veem o fim do embate com uma escalada ainda mais brutal nos combates, desenhou num guardanapo sua visão para isso.

No mapinha rascunhado, a Rússia tomaria toda a costa ucraniana até a Transdnístria, encrave separatista russo na Moldova, ex-república soviética ensanduichada entre a Ucrânia e a Romênia.

O resultado na sua visão, compartilhada por influentes "falcões" do regime como Ievguêni Prigojin (do grupo mercenário Wagner) e o líder tchetcheno Ramzan Kadirov: o estabelecimento no mínimo de uma área desmilitarizada correndo a fronteira natural do rio Dnieper a leste/sudeste e mantendo todo o litoral, transformando a Ucrânia numa "Eslováquia polonesa", nas suas palavras.

Mas há condições objetivas para isso? "Só com guerra total, e vai acontecer. Espere o inverno", disse ele, prevendo um fim das hostilidades para o fim do ano que vem e reduzindo a mobilização de 300 mil reservistas a um "esparadrapo".

O mesmo prazo foi citado por uma pessoa do lado moderado, que considera sem falar muito alto que a guerra foi um erro. Sem criticar Putin, ela disse que a prioridade é encerrar o conflito o mais rapidamente possível, de preferência com concessões de lado a lado, com a anexação de mais pedaços do vizinho confirmada ao fim.

Em comum, ambos os comentaristas concordam que o Ocidente é culpado pela crise, emulando a visão do presidente. É um roteiro conhecido, que remonta à dissolução da União Soviética em 1991, quando as estruturas lideradas por EUA e Europa se expandiram a leste, engolindo os antigos satélites que separavam suas forças das da Rússia desde os tempos dos Románov.

Isso gera indignação na elite russa, mesmo aquela que não vê Putin como um salvador. A visão de que a derrubada do governo pró-Moscou de Kiev em 2014, que levou à anexação da Crimeia, à guerra civil no Donbass e deitou as raízes do atual conflito, foi uma maquinação americana predomina.

Fora do fórum, uma outra pessoa com acesso ao Kremlin usa mais nuances. Na sua visão, Putin de fato achou que Volodimir Zelenski fugiria na primeira semana da guerra, mas agora trabalha em modo de contenção de danos. Para este observador, a guerra se tornou entrópica, impossível de vencer e de perder.

"Poderemos ter anos disso", resumiu. Conversas ao longo dos debates do Valdai sugeriram a mesma coisa, assim como o risco da escalada nuclear do conflito, um assunto que apavora os mais velhos. "Nunca pensei nisso, mas hoje tenho medo de morar em Moscou porque não sei onde a guerra pode parar", afirmou um analista político respeitado nos círculos mais conservadores.

Tudo isso é algo anedótico, até porque ninguém sabe o que passa na cabeça de Putin. Tudo o que se lê no Ocidente de golpes sendo preparados na elite contra ele lembram os itens mais fantasiosos da fala do presidente: interessantes, mas pouco viáveis. Já a ideia de que a Rússia talvez nunca se recupere como ator confiável no Ocidente é comum a todos os lados.

O proponente da saída militar usa uma metáfora conhecida: Putin, tal e qual czares de outrora, governa baseado na sua relação mítica com o tal povo, aferida hoje em pesquisas de opinião. A realeza, os boiares, digladiam-se entre si enquanto acompanham a dinâmica dessa ligação Kremlin-ruas, que segundo a mais recente pesquisa do centro independente Levada ainda estava em 79% de aprovação.

O jornalista Igor Gielow viajou a convite do Clube Valdai.