Elizabeth soube ficar imparcial até sobre decisões cruciais do reino

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Duas condutas são fundamentais para que alguém, em pleno século 21, mantenha o privilégio de reinar sobre seu povo. E que possa, bancado pela população e sem maiores oposições, vestir adereços reluzentes, habitar castelos e se deslocar de carruagem.

Em primeiro lugar, é preciso furtar-se a decidir os destinos desse mesmo povo. O segundo requisito é ser digno.

Elizabeth 2ª cumpriu com louvor as duas pré-condições, preservando assim sua posição e a de sua família ao longo de suas mais de sete décadas de reinado.

Logrou a proeza de manter o regime monárquico de pé e majoritariamente popular em tempos iconoclastas de mudanças velozes e profundas como jamais visto. Ausente da plataforma dos principais partidos do Reino Unido, o republicanismo tem a relevância nas pesquisas de uma terceira via brasileira.

Elizabeth encarnou a discrição política conhecendo os exemplos dos reis do passado, que aceitaram, a partir do século 17, a progressiva decomposição do poder monárquico no país.

William 4º, que reinou de 1830 a 1837 e foi o último rei a tentar, sem sucesso, intrometer-se abertamente no governo britânico, afirmou certa vez: "Tenho minha visão, e relato-as aos meus ministros. Se eles não as adotam, não posso fazer nada".

Mais de um século e meio depois, Elizabeth falaria de seu papel em um registro mais positivo, conforme conta Jeremy Paxman no livro "On Royalty". "Creio que é bastante agradável sentir que se é uma espécie de esponja, e todos podem vir e lhe contar coisas", teria dito a soberana, destacando que "ocasionalmente se pode colocar um ponto de vista que, talvez, eles não houvessem visto por aquele ângulo".

"Eles", no caso, são os primeiros-ministros do Reino Unido, que têm encontros semanais com o monarca de turno. As audiências são confidenciais e não têm seu conteúdo registrado, o que permite que muitos premiês a usem como sessão de terapia.

Pelo divã de Elizabeth passaram 15 deles, de Winston Churchill a Liz Truss. Os encontros renderam frutos a princípio improváveis, como a relação particularmente amistosa com Harold Wilson (1964-1970 e 1974-1976), primeiro premiê trabalhista de seu reinado.

O bom convívio com Wilson contribuiu para que a rainha, vinda de uma linhagem com esperado histórico de opiniões não exatamente progressistas, tivesse mais contato com pautas à esquerda.

Não são muitos os temas sobre os quais se sabe o que Elizabeth realmente pensava, e quando o fez sempre ganhou destaque no noticiário. Uma de suas últimas falas com repercussões políticas foi em outubro de 2021, quando uma transmissão a gravou criticando, em conversa privada durante um evento, a inação dos líderes mundiais diante da crise climática --pauta, a propósito, abraçada por Charles e William.

Já em temas menos consensuais na opinião pública, a quebra da neutralidade da soberana causou celeuma mesmo quando cometida de forma calculadamente insípida. Às vésperas do referendo da independência da Escócia, em 2014, Elizabeth declarou estas poucas palavras: "Espero que as pessoas pensem muito cuidadosamente sobre o futuro".

A declaração foi interpretada como crítica à separação, e o Palácio de Buckingham precisou negar que houvesse ali orientação de voto. Qualquer que tivesse sido a intenção real, o desmembramento do Reino Unido acabou derrotado, e a rainha evitou a inconveniência de ter seu refúgio de verão favorito, o castelo escocês de Balmoral, localizado em uma nação estrangeira.

Outras opiniões da soberana se tornariam conhecidas apenas por meio de bastidores apurados pela imprensa, como sua oposição à entrada da Turquia na União Europeia ou sua irritação com a resistência de Margaret Thatcher a impor sanções ao regime racista do apartheid na África do Sul.

Mas a verdade é que, exceto por casos pontuais, Elizabeth soube ficar formalmente imparcial até sobre decisões cruciais da trajetória de seu país, como o brexit. Demonstrou, assim, ter sido uma aluna aplicada dos ensinamentos do ensaísta da era vitoriana Walter Bagehot, que escreveu que em uma monarquia constitucional o rei ou a rainha têm apenas três direitos: ser consultado, encorajar e alertar. "E um rei de grande senso e sagacidade não desejaria quaisquer outros", afirmou.

A construção de uma barreira entre o direito de reinar e o de governar foi crucial para que a monarquia britânica e um punhado de outras dinastias europeias sobrevivessem.

Sociedades mais complexas e escolarizadas já não aceitariam correr o risco de ver seus governantes serem decididos por uma roleta genética. Deixar as decisões de verdade para políticos que podem ser substituídos quando o clima azeda é um fator de proteção do trono.

E não basta não governar. É preciso não fazê-lo de forma respeitável, segundo requisito para a sustentabilidade dos reis. Afinal, mais uma vez na definição de Walter Bagehot, a monarquia é um adorno que garante que as pessoas deem ao governo a reverência que ele precisa para funcionar. Um esforço para anabolizar, ou coroar, a credibilidade das instituições.

Enquanto familiares colecionaram gafes ou escândalos, Elizabeth, que amadureceu sob os anos estoicos da Segunda Guerra Mundial e logo após do conflito, não gerou grandes constrangimentos.

Desenvolveu forma e (discreto) conteúdo condizentes com a ideia geral que se faz de uma monarquia: distante, fria, sólida, tradicional, previsível e, para seus entusiastas, confiável.

Espécie de avó institucional, figura que parecia estar ali desde sempre, Elizabeth fundiu-se ao imaginário do país e à própria imagem da Coroa britânica, que teria sido mais contestada sob um rei falastrão e extravagante.

Junto com os castelos e as obras de arte, esta é a herança que recebem seus descendentes. A partir de agora, saberemos se o novo rei Charles, sabidamente menos convicto na arte de ser comedido, será tão competente quanto a antecessora em preservar o regime que tanto beneficia a família.