Elizete Malafaia usa a Bíblia para falar de sexo e contra o feminismo

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Seios que são como "cachos de uva", contornos de coxas tais quais "joias trabalhadas por mãos de artista", o umbigo comparável a uma taça redonda "a que não falta bebida". Estes e outros conteúdos eróticos na Bíblia mais perto de você. Parte do Antigo Testamento, o Livro de Cantares narra o amor entre o rei Salomão e sua esposa. É a ele que a pastora Elizete Malafaia, 61, recorre quando quer evocar "vários ensinamentos para manter um relacionamento sexual saudável entre marido e mulher". Salomão e Sulamita, ela diz à reportagem, "se preocupavam mutuamente em satisfazer um ao outro" em termos sexuais. Nada mais justo que os casais de Deus sigam seu exemplo. Fora do segmento evangélico, sua imagem pode até estar atrelada à do pastor Silas Malafaia, seu par desde que ela tinha 13 anos, e ele, 14. Mas dentro da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, a igreja liderada primeiro por seu pai e agora pelo marido, ela vem trilhando um caminho próprio com um trabalho voltado às mulheres. Como o carioca Silas, a mineira Elizete tem um estilo despachado para tratar de questões caras ao conservadorismo cristão. A uma jovem que um dia lhe disse desconfiar ser bissexual, por exemplo, respondeu que todo humano, se estimulado em partes erógenas do corpo, tem potencial para se excitar. Mas que ela não se engane. "Falo que o ser humano é um ser de modelagem, e que o homossexualismo é um comportamento aprendido", diz Elizete, usando o termo cujo sufixo remete a doenças na medicina -há 30 anos, a Organização Mundial da Saúde o retirou de seu catálogo de distúrbios, por considerar que ser gay não é um. É que nem fumar, compara. "Diminuiu o número de fumantes porque não há promoção desse comportamento. Por outro lado, temos visto um tremendo reforço na divulgação do homossexualismo. Creio que esse comportamento pode ser mudado porque creio no poder de Deus na vida dessas pessoas." Filha de pastor, ela conduz cultos de nomes como Cura das Emoções e Encontro de Mulheres Vitoriosas. No último dia de novembro, o jornal Folha de S.Paulo a acompanhou no da Gratidão, no qual diz que "família de pessoas iguais não se reproduz" e outras frases afinadas com o companheiro, que dez anos atrás espalhou outdoors no Rio com a mensagem: "Deus fez macho e fêmea". Mulheres da igreja carregam os cartazes "você está linda!" e "hoje é dia de sorrir =)" na porta do templo, enquanto Elizete se reúne com outras "irmãs abençoadas" numa sala com café, quitutes fit e bolos recheados com mousse de limão e embrulhados em papel rosa. Numa toada similar à da ministra Damares Alves, para quem o governo Jair Bolsonaro iniciou "uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa", Elizete gosta de ver mulheres com essa cor. Menina com roupa de menina, assim que é bom. "Quando olhamos para roupas e modelos, ficamos sem saber se são homens ou mulheres. A moda hoje tende para a androginia, com que não concordo nem aceito." Psicóloga como Silas, ela é há sete anos pastora, título que nem todas as Assembleias de Deus concedem a mulheres. Dá uma trégua ao feminismo, movimento que fustigará várias vezes na entrevista, num só aspecto: "Recebi uma influência no sentido positivo de estudar, trabalhar, ser produtiva na sociedade". Já chegou a ganhar mais do que o marido, e tudo bem, diz. Assim como tudo bem, para Elizete, adiar por anos o sonho de cursar faculdade após ter seus três filhos com Silas: SIlas Filho, que seguiu os pais no pastorado, Taisa, "que é do lar", e Talita, que trabalha na editora da família, a Central Gospel, e lhe deu um genro que divertia os Malafaias com seu apreço por Che Guevara. Fotos dos filhos e dos cinco netos preenchem a parede de uma sala da residência do casal, onde uma toalha com a imagem de Silas cobre a cadeira massageadora, num condomínio vizinho à praia de Grumari (zona oeste carioca) onde também mora o pagodeiro Belo. "Sempre pensei em me casar, ter filhos e priorizar o meu lar. Nunca fui feminista", diz Elizete. "Graças a Deus nasci num lar em que minha mãe tinha prazer de ser mulher, esposa, mãe de 11 filhos e sempre de bem com a vida." De mal com a vida, em sua opinião, era Simone de Beauvoir (1908-1986), autora do totem feminista "O Segundo Sexo". "Ela tinha uma perspectiva filosófica existencialista, como o seu amante [Jean-Paul] Sartre. Diferente dela, nós, cristãos, cremos ter uma essência e um propósito dados pelo nosso Criador. O estilo de vida promíscuo dela é a concretização de suas ideias." Gigantes intelectuais de sua época, Simone e Jean-Paul nunca oficializaram a união, e não era segredo algum que eram livres para ter amantes. Triste fim o da francesa, diz Elizete. "Sem a segurança do casamento, ela não se tornou partícipe das conquistas do companheiro de décadas. Após a morte de Sartre, se entregou ao álcool e às anfetaminas." Já gostava dos entorpecentes antes, a bem da verdade. Para a evangélica, o feminismo está comprometido com uma visão de mundo "contaminada por uma filosofia feita por mulheres que desprezam o que a cosmovisão bíblica revela como a vontade de Deus para a família e para a mulher". Dá, sim, para "convergir em alguns pontos, como ser contra a violência contra a mulher ou o machismo". Mas, para a pastora, a luta pelo direito ao aborto, "que agora tem o nome de 'direito reprodutivo da mulher', como se ceifar uma vida no ventre fosse direito de alguém", é difícil de engolir. Não só. Também pesam "a ideologia de gênero, que rompe com a realidade de que fomos feitos por Deus macho/fêmea e normaliza a homossexualidade, e a guerra contra a autoridade do homem na família". A pastora vê em Adão tentado por Eva a mordiscar a maçã do pecado, e depois expulso do Éden por causa disso, a raiz do machismo --que existe em todos os lugares, inclusive entre evangélicos. Mas é preciso separar: "A igreja ensina o homem a ser macho, mas não machista". Para uma mulher que entende o seu papel como "embaixadora de Cristo neste mundo", o feminismo é "um sistema de crenças limitantes que vai comprometer sua entrega". "Ou você é cristã ou é feminista", afirma Elizete, que dia desses compartilhou no Instagram: "A mulher mansa é extremamente poderosa".