Elogiado por Bethânia, contrabaixista Jorge Helder lança disco com participação de Mônica Salmaso e Zé Renato

Na última semana de outubro, o contrabaixista Jorge Helder voou de Fortaleza, onde tocara no fim de semana anterior com Chico Buarque, para São Paulo. Seguiu para Sorocaba, para acompanhar Edu Lobo. De lá, voltou para o Rio, sua casa. Na semana passada esteve em Porto Alegre, novamente com Chico. Na próxima, estará em Portugal com Edu e Mônica Salmaso. São frequentes as idas à Europa e ao Japão.

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— Sou o aeromoço da música — brinca ele, figura tão acanhada quanto divertida, “tímido e espalhafatoso”, para citar o verso de Caetano Veloso (com quem também já tocou).

Helder, de 1,62m (ante 1,80m do contrabaixo acústico), é “o baixo mais disputado do Brasil”, no jogo de palavras de Maria Bethânia. A cantora o tem na banda desde 1990 e como diretor musical há nove anos.

— Jorge é um músico fora do comum, extraordinário. O toque dele no contrabaixo é muito característico. Ele tem uma inteligência musical diferente e uma capacidade de entender música que raras vezes vi na vida — exalta.

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Edu Lobo faz coro:

— Já trabalho com o Jorge há muitos anos e posso dizer, sem medo de errar, que é um dos melhores baixistas com quem convivi até hoje. A sua técnica é impecável, a musicalidade é extrema e, além de tudo, é uma pessoa de ótimo humor, engraçado de verdade.

Para Bethânia, será possível “ler o Jorge mais inteiramente” em “Caroá”, que está nas plataformas. É o segundo álbum do músico, com oito composições suas, todas instrumentais. Enquanto este tem lançamento de uma gravadora, a Biscoito Fino, o primeiro (“Samba doce”, de 2020) foi gerado com dinheiro do próprio bolso ao longo de cinco anos.

— Mais de 60 músicos tocaram. Era uma festa, uma comemoração da minha vida profissional, de poder ter conhecido tantos músicos — conta ele. — Este agora tem um quinteto fixo.

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Ao seu lado estão Hélio Alves (piano), Chico Pinheiro (guitarra), Tutty Moreno (bateria) — homenageado na faixa “Tutty” — e Marcelo Costa (percussão). “Impressão perfume” tem a participação do saxofonista Zé Nogueira. Helder ainda chamou cantores para fazer vocalizes: Mônica Salmaso em “Lugar sem tempo”, Zé Renato em “Miguilim” e Sergio Santos em “Santos de casa”.

Esta última tem influência de Letieres Leite, o maestro da Orkestra Rumpilezz e arranjador de Bethânia, morto em 2021 de Covid-19. Antes da pandemia, Helder planejava fazer um trabalho com Letieres. Ficou especialmente impressionado quando ouviu o álbum da Rumpilezz reinterpretando parte da série “Coisas”, de Moacir Santos.

— “Santos de casa” foi a primeira que eu compus para o disco. É um ijexá, um aguerê. Ficou com influência de Letieres e de Moacir. E ainda veio Sergio Santos, daí o título — explica o músico, que diz pesquisar muito até batizar suas composições.

Caroá é um tipo de bromélia encontrada na caatinga. A melodia o fez pensar em Luiz Gonzaga, autor de “Arrancando caroá”. Emocionou-se com a história das mulheres que tiram seu sustento da planta — suas folhas servem para fazer barbantes, tecidos, cestas e outros produtos.

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Helder nasceu em 1962, em Fortaleza. O pai era bandolinista amador e a tia materna tocava violão. Empunhou o baixo elétrico por acaso, porque no colégio só queriam tocar guitarra e bateria. Aos 15, acompanhou num show João do Vale e Miúcha — que o indicaria, em 1992, ao irmão Chico Buarque (com quem tem três parcerias). Aos 17, mudou-se para Brasília.

— Eu disse para os meus pais que ia fazer arquitetura, mas fui fazer música. Quando souberam, ficaram preocupados. Achavam que música não daria futuro — conta.

Na capital, tocou rock, funk, acompanhou Cássia Eller e Zélia Duncan, até ser descoberto pelo produtor de Sandra de Sá e vir para o Rio tocar soul. Não demorou muito para ser indicado a grandes nomes da MPB, como João Bosco, Edu e Bethânia. Hoje, também atua às vezes como diretor musical.

— A minha direção é muito coletiva. Não imponho minhas ideias. Na verdade, sou muito inseguro. Deixo todos falarem. E organizo para não ter confusão. Não sou arranjador. Sou um organizador musical. E procuro deixar o ambiente alegre, descontraído, agradável para trabalhar.