Elogio dos EUA a promessas de Bolsonaro gera cortina de fumaça, diz diretor da Amazon Watch

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  13-09-2021, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 13-09-2021, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - As metas ambientais anunciadas pelo Brasil na COP26 (a conferência do clima da ONU) foram elogiadas publicamente pelo governo dos EUA. No entanto, para Christian Poirier, essa postura americana pode na prática levar a um aumento do desmatamento.

"É absurdo John Kerry [enviado especial do da Casa Branca] destacar compromissos sem sentido, já que [Jair] Bolsonaro irá legalizar o desmatamento que hoje é considerado ilegal. Isso lança uma cortina de fumaça sobre a compreensão mundial sobre o que está acontecendo de fato em campo e faz um desserviço", avalia o diretor de programa da Amazon Watch, ONG com sede nos EUA que combate o desmatamento pelo mundo.

Poirier aponta que dois projetos no Congresso brasileiro buscam mudar o entendimento do que é desmatamento ilegal. Com isso, na análise dele, mais formas de derrubar árvores seriam toleradas, abrindo caminho para mais destruição ambiental.

À reportagem, o diretor diz ter poucas esperanças sobre os resultados da COP, mas que pode haver avanço se forem criados meios para enviar mais recursos diretamente aos povos indígenas. Ele também critica o modelo de neutralidade de carbono.

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Pergunta - Como avalia os anúncios feitos pelo governo brasileiro na COP em relação à Amazônia?

Christian Poirier - O Brasil se comprometeu a eliminar apenas o desmatamento ilegal. Mas, ao mesmo tempo, o governo está trabalhando com o Congresso brasileiro para basicamente mudar o que é considerado legal e ilegal. Então, vão tornar o desmatamento ilegal como legal por meio de ação do Congresso, nos PLs 490 e 3.722. Eles mostram as verdadeiras intenções do governo Bolsonaro em relação à proteção florestal.

Em seu tempo de governo, Bolsonaro cortou o orçamento para estudos e projetos em mudanças climáticas em 93%. E no ano passado, enquanto o resto do mundo reduziu suas emissões por conta da pandemia, as emissões de gases de efeito estufa do Brasil aumentaram cerca de 10% por causa do desmatamento e dos incêndios subsequentes. Estes são indicadores de que não podemos confiar nas palavras de Bolsonaro.

Também deve ser pontuado que o que o Brasil está se comprometendo a fazer já tinha sido estabelecido no Acordo de Paris, e eles estão basicamente apresentando os mesmos números, que não refletem a urgência do que nós estamos vendo hoje. Seu programa de crescimento verde não inclui compromissos explícitos para reduzir o desmatamento. Eles não ofereceram um plano para proteger os defensores da floresta, os indígenas. Bolsonaro está simplesmente tentando posar como alguém que se preocupa com o clima.

Essa postura poderá ter consequências para o Brasil? Outros países poderão tomar medidas que prejudiquem o país?

CP - Haverá consequências pelo comportamento do governo Bolsonaro na arena internacional e consequências econômicas, porque as pessoas não acreditam que este governo irá honrar sua palavra.

O que acontece in loco está sendo visto ao redor do mundo. Investidores e compradores de commodities do Brasil, além de potências políticas, vêem, de um lado, a falsa retórica do governo, e de outro, o que realmente transparece da crise de imensas proporções, e eles estão escolhendo cortar laços financeiros com o governo. Vemos uma saída de capital do Brasil nesse momento, porque ele não é visto como um país que é um bom investimento, especialmente por investidores mais responsáveis.

Conforme companhias começam a instituir políticas e padrões de governança ambiental, elas não irão comprar produtos brasileiros por causa da postura do governo. Temos visto anúncios de uma série de importadores de mercadorias brasileiras, como carne, soja, madeira e ouro, que não querem continuar comprando produtos relacionados à destruição das florestas e o assassinato dos defensores ambientais.

Avalia que os EUA poderão tomar medidas no futuro contra países que não atingirem as metas propostas?

CP - O problema é que esses compromissos [assumidos pelos países] não são obrigatórios. Pode haver consequências políticas e econômicas para os governos que não aderirem ao que prometeram. No entanto, não tenho grandes esperanças pelo que estamos ouvindo do governo Biden. O enviado especial John Kerry elogiou Bolsonaro no Twitter pelo compromisso de eliminar o desmatamento ilegal em sete anos. Entendo que todo mundo quer ser positivo, quer mostrar que ações reais estão sendo feitas, mas é absurdo Kerry destacar esses compromissos sem sentido, já que Bolsonaro irá legalizar o desmatamento que hoje é considerado ilegal. Isso lança uma cortina de fumaça sobre a compreensão mundial sobre o que está acontecendo de fato em campo e faz um desserviço à verdade.

O que a Amazon Watch e outras ONGs internacionais planejam fazer para convencer os países a avançarem na preservação da Amazônia?

CP - Somos uma organização baseada nos EUA. Nosso papel é influenciar nosso próprio governo a tomar ações sobre o governo Bolsonaro, o qual consideramos um criminoso climático. Nós pressionamos a administração Biden, o enviado especial [John] Kerry a tomar medidas sobre isso porque eles têm feito disso [a questão ambiental] uma peça central de sua política externa.

Depois da Cúpula do Clima de Biden, em abril, buscamos pressionar por medidas sobre os direitos dos indígenas à terra. Também buscamos agir com atores econômicos nos EUA, como instituições financeiras, para adotarem políticas ligadas aos direitos indígenas e ao desmatamento zero em seus portfólios [de investimento]. Também atuamos com os legisladores americanos, por ações como a Lei das Florestas, que iria limitar a capacidade dos EUA de importar commodities com risco de gerar desmatamento, não só da Amazônia.

Como avalia os resultados da COP de modo geral?

CP - Não tenho grande esperança, a partir de tudo que temos visto. Parece que as mesmas dinâmicas se repetem, com promessas muito elevadas e ambiciosas sendo feitas por líderes mundiais. Mas, no caso das promessas sobre florestas, vemos um monte de desigualdades de acesso, com a falta de acesso de pessoas do mundo em desenvolvimento aos espaços oficiais de tomada de decisão.

E também vemos um tipo de atraso. O atraso que os líderes mundiais têm tido, de forma seguida, sobre tomar ações significativas pode ser vista como uma nova forma de negacionismo climático. Adiar ações continuamente significa que nunca vamos ver medidas significativas. Vamos simplesmente seguir para o aumento de 3ºC [na média da temperatura global] no futuro próximo.

Poderá haver algum ganho real para a preservação da Amazônia?

CP - A COP pode levar à tomada de medidas significativas sobre a proteção da Amazônia, se elas forem acompanhadas pelos governos e pelo setor privado. Por exemplo: há bilhões de dólares sendo prometidos para ajudar povos indígenas em seus territórios e para apoiar o desenvolvimento sustentável. Mas o diabo está nos detalhes: vimos essas promessas no passado. Houve fundos que nunca se materializaram ou foram para mãos erradas, sem chegar para as comunidades. Os indígenas são guardiões da floresta, que estão na linha de frente dessa guerra, sendo mortos. Mais de mil foram assassinados desde a ratificação do Acordo de Paris.

Há muitas organizações pelo mundo dizendo: nós precisamos de apoio direto, não queremos intermediários. Não queremos grandes organizações ambientais sem fins lucrativos recebendo esses recursos e depois os repassando a conta-gotas para nossas comunidades. Se os fundos forem entregues corretamente, assim como os compromissos políticos e de mercado que estão sendo feitos sejam alcançados, poderia haver uma mudança significativa na proteção à Amazônia.

Mas não podemos ver a adoção de falsas soluções, como o net zero [neutralidade de carbono]. Ela tem sido subvertida pelo setor privado e por atores governamentais que querem usar compensações de carbono para continuar a poluir. Se tivermos mais mecanismos nessa direção, seria uma falha completa para resolver as necessidades reais das comunidades.

Porque considera o net zero uma solução falsa?

CP - Ela não é necessariamente uma solução falsa, mas o modo que está sendo implantada sim. Não importa se a intenção original não era que governos e empresas o usassem como um mecanismo de "greenwashing". Na realidade, vemos grandes instituições financeiras e importadores e exportadores de commodities usando este mecanismo como oportunidade para mostrar que estão tomando medidas sobre o clima quando não estão fazendo absolutamente nada. Isso tem servido para acobertar o cenário de "negócios como sempre".

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RAIO-X

Christian Poirier, 46

Nascido em San Francisco, Califórnia, tem mestrado em desenvolvimento rural na Universidade Sussex (Reino Unido). Coordena desde 2009 o programa sobre ações no Brasil da ONG americana Amazon Watch. Antes, deu assistência ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) no Brasil e a projetos no oeste da África.

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