Em última entrevista, Erasmo Carlos anunciou turnê americana

No mês passado, em sua última entrevista ao GLOBO, o cantor Erasmo Carlos, falecido nesta terça-feira, comentou que embarcaria dia 28 para os Estados Unidos, onde apresentaria o show “O futuro pertence à jovem guarda” em uma série de cidades. E avisou também que continuava compondo — algumas músicas com o cantor Frejat, ex-Barão Vermelho, já estariam sendo preparadas.

Erasmo não embarcaria na viagem, no entanto: dias antes, ele foi internado no hospital Barra D'Or, no Rio, para tratar uma síndrome edemigênica. Ele passou 16 dias na internação, sendo liberado no último dia 2. Na manhã desta terça ele foi internado novamente, no mesmo hospital, às pressas.

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Cinco dias antes de sua morte, Erasmo Carlos venceria - ironicamente, nos Estados Unidos - o último prêmio de sua carreira em vida. Na última quinta-feira (17), ele foi agraciado com Grammy Latino pelo melhor album de rock ou de música alternativa em língua portuguesa por "O futuro pertence à jovem guarda", lançado em fevereiro. O EP de oito músicas é uma releitura de canções do período da jovem guarda que nunca tinham sido gravadas pelo artista.

Em sua última publicação no Instagram, na sexta, Erasmo celebrou a premiação: "É tão importante entender o conceito, quanto ouvir a música… Existem várias formas de amor, e eu preciso de todas. Obrigado a todos que contribuíram para mais essa vitória, esse Grammy é o reconhecimento do nosso trabalho. O Futuro Pertence à Jovem Guarda!!!!!"

A última entrevista de Erasmo ao GLOBO foi para falar de "Nanda", música que Erasmo compôs com o guitarrista Celso Fonseca em homenagem a Fernanda Monetegro e lançada em 16 de outubro, no aniversário de 93 anos da atriz.

— O Brasil precisa de mulheres como Fernanda Montenegro, que sejam exemplo para as outras mulheres. A dignidade, o discurso, elegância, a educação... isso tudo unido à excelente atriz que ela é — contou Erasmo.

A melodia de “Nanda” (da qual o cantor gostou por ter um estilo “meio Azymuth”, trio instrumental de jazz fusion) estava em um CD de composições que Celso lhe entregou com a esperança de inspirar alguma parceria.

— Não sei por que eu entrei nessa de Nanda, foi uma inspiração que me veio e eu fui levando em frente. E já era mesmo a Fernanda Montenegro. Inclusive, a minha mulher se chama Fernanda também, e ela até brincou: “eu não tenho música sua, mas ela tem!” — diverte-se Erasmo. — Fui sendo envolvido pela letra, comecei a juntar imagens e um dia liguei para o Celso e disse: “Acabei fazendo uma música para a Fernanda Montenegro!” E ele adorou.

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Para Erasmo, “Nanda” poderia ser bem mais uma continuação de “Mulher”, seu hit do começo dos anos 1980:

— Fernanda traz as facetas de uma mulher que representa outras, há várias mulheres na Fernanda. Por isso é que eu digo na letra: “gosto de todas você”.

Curiosamente também, apesar de ter escrito uma letra tão poética, Erasmo não conhecia Fernanda Montenegro pessoalmente e nem de palco — mas tinha contatos eventuais com a filha:

— Encontrei a Fernandinha (Fernanda Torres) no aeroporto e fiquei com vergonha de dizer que tinha feito uma música para a mãe dela!