Em 18 horas, GloboNews concentra pauta em violência e cenário político

MARCELO SOARES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Bom dia para você, na medida do possível." Assim a apresentadora Aline Midlej abria o "Jornal da GloboNews - Edição das 10", no dia 31 de março, uma sexta-feira.

Até aquele ponto, a maior parte do noticiário do principal canal brasileiro de notícias por assinatura havia tratado dos escândalos políticos brasileiros. Desdobramentos da Lava Jato, a expectativa sobre o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, a prisão de conselheiros do TCE-RJ e outros casos menos conhecidos ocuparam uma hora da programação até então -um quarto do tempo, incluindo comerciais.

A audiência da TV paga aumentou muito no Brasil desde os protestos de junho de 2013, em grande parte com a ajuda de um noticiário político muito intenso, alvo do interesse polarizado de públicos bombardeados por informações conflitantes em redes sociais.

No ano passado, com o noticiário do impeachment e toda a crise política, a GloboNews cresceu 92% em audiência, com até 14 horas de jornalismo ao vivo em alguns dias. Chegou a ter mais audiência do que canais abertos como Cultura e Rede TV! em alguns meses, segundo dados do Ibope publicados em sites especializados.

Em 2016, a TV paga ultrapassou os jornais em fatia do bolo publicitário. Se em 2011 os jornais brasileiros recebiam 20% das verbas publicitárias e a TV paga 8%, no ano passado as frações foram respectivamente de 12% e 13%. Pelos últimos números do projeto Mídia Dados, 90% dos domicílios que assinam TV paga estão aptos a assistir à GloboNews.

Os telejornais tradicionais, com um apresentador trazendo notícias gravadas e boletins ao vivo, se concentram pela manhã, em blocos de meia hora. Depois disso, ao longo do dia, há telejornais e programas de debate centrados na figura dos apresentadores e comentaristas, de uma ou duas horas, e alguns programas gravados, geralmente de entrevistas, que reprisam várias vezes por semana. Miriam Leitão, Mario Sergio Conti e Alexandre Garcia apresentam programas de debate e entrevistas, que levam seu próprio nome.

Nas reprises da manhã de sexta, a primeira entrevistou dois especialistas sobre o descrédito da política no Brasil -um deles era Jairo Nicolau, autor de um recém-publicado livro sobre as propostas de reforma política-, o segundo entrevistou a ex-candidata Marina Silva sobre a má reputação dos políticos brasileiros e o terceiro perdeu sua chance de ser reprisado porque faltava tempo para todas as notícias do começo da tarde.

Entre a noite de quarta e a madrugada de sexta, porém, o programa de Garcia já havia sido exibido quatro vezes de acordo com a grade disponível no site da emissora. O de Míriam, três desde a noite anterior. O de Conti ia ao ar pela quarta vez desde terça.

Alguns programas gravados, como "Milênio", chegam a aparecer na grade de programação seis vezes por semana, entre um telejornal e outro. Duram meia hora. Nem sempre a edição reprisada é a mais recente. A apresentada na sexta à tarde era com Sarah Chayes, autora de um livro sobre corrupção. Na biblioteca onde houve a entrevista estava a edição de Natal da revista "The Economist". A entrevista fora ao ar pela primeira vez em janeiro.

"É preciso responsabilizar alguns dos principais criminosos do governo para que a necessidade de justiça seja saciada", disse Chayes ao repórter Luiz Fernando Silva Pinto. "Mas isso não será suficiente para o Brasil superar as dificuldades. Será necessário um programa de reformas sério para reequipar muitos dos elementos do governo que eram reféns da rede de corrupção."

"NATUREZA VIOLENTA"

No telejornal descontraído da manhã, o "Edição das 10", a corrupção perdeu espaço para um tema que tradicionalmente atrai atenção: violência. O assunto que mais tempo ocupou foi a morte da menina Maria Eduarda no pátio de sua escola, no Rio de Janeiro. Falava-se em uma bala perdida num confronto entre policiais e criminosos.

Na noite anterior, a emissora havia revelado um vídeo, feito por celular, que mostrava dois policiais executando homens aparentemente rendidos; houve protestos na comunidade, na noite do dia anterior, e na edição das 8h o irmão da vítima deu entrevista dizendo que a adolescente tinha quatro perfurações no corpo, algo incomum em casos de bala perdida.

Aline, em São Paulo, e Raquel Novaes, no Rio, voltaram ao assunto mais tarde chamando especialistas para debater.

De um lado estava Paulo Storani, apresentado como antropólogo e especialista em segurança, ouvido com frequência pela emissora. Seu discurso ao comentar o caso para o repórter, em frente a um prédio no Rio, relevava as cenas vistas: segundo ele, há no Rio uma guerra suja, com lógica de eliminação, em que policiais morrem.

"Acho que a hipótese de execução [da menina] está descartada, é totalmente inverossímil", afirmou. "A polícia é violenta porque a sociedade tem natureza violenta".

De outro lado estava o pesquisador Ignacio Cano, da UERJ, que apontou que estudos mostram que execuções sumárias por policiais são frequentes, e que só existe condenação de policiais que abusam do uso da violência quando há imagens de ampla difusão. "Só estamos aqui porque houve o vídeo", disse. Ele defendeu a redução dos confrontos armados e da letalidade policial. "Os policiais que executam colocam seus colegas em risco", disse.

Ao todo, ao longo do dia, o caso da morte da menina e das execuções policiais esteve em 12 dos 17 programas transmitidos entre as 6h e as 23h. Ocupou tanto tempo no "Edição das 10h" que algumas reportagens precisaram ser deixadas para a "Edição das 12h", que se estendeu para além dos cinco minutos originais e ocupou a meia hora de Alexandre Garcia.

No "Estúdio i", à tarde, os comentários a respeito ocuparam quase uma hora. No meio da tarde, os apresentadores passaram a falar em "dois episódios de violência no Rio de Janeiro", a morte da estudante no pátio da escola e a execução dos homens em frente à escola.

Apenas no último telejornal do dia houve uma informação nova: de fato, a perícia no cadáver de Maria Eduarda apontava que ela fora atingida por mais de uma bala. Até então, apenas o irmão da vítima falava em vários projéteis e os repórteres ponderavam que, caso se confirmasse a hipótese da bala perdida, seria a sexta criança vitimada indiretamente por confrontos em 2017.

BASTIDORES E OTIMISMO

Ao contrário do que ocorre na TV paga de países como os Estados Unidos, no Brasil os âncoras raramente opinam. O que passa por opinião são frases como "esperamos que tudo se resolva da melhor forma possível" ou o âncora balançando a cabeça em sinal de desaprovação ao final de uma notícia triste. O papel de dar o "molho" ao noticiário fica com analistas, jornalistas que comentam o que está por trás das informações.

Nesse papel, leitores fiéis da Folha de S.Paulo na última década e meia reencontram diversos nomes conhecidos na GloboNews. Naquela sexta, passaram pela programação Andréia Sadi (5 programas), Valdo Cruz (4), Gustavo Chacra (3), Luisa Belchior (2), Natuza Nery (1) e Renata Lo Prete (1). A maioria dos ex-repórteres do jornal comenta temas políticos e traz informações de bastidores dos três Poderes, geralmente preservando a identidade da fonte.

"Uma coisa é o oficial, outra o que vocês ouvem nos bastidores, né, Natuza?", celebrou Christiane Pelajo, que chegou a ter outros três jornalistas comentando o noticiário na tela, na "Edição das 16h".

Andréia Sadi, que na Folha de S.Paulo foi repórter da coluna Painel, fez sua primeira participação falando sobre a autopreservação dos ministros na Lava-Jato na "Edição das 10h", transmitindo de casa, e encerrou o dia recusando-se a fazer fofocas sobre os hábitos extraconjugais dos deputados no "Em Pauta". À tarde, transmitiu de outros pontos da praça dos Três Poderes. Na edição das 16h, Sadi chegou a ficar sem voz. Nesse telejornal, os assuntos se sucedem muito rápido, com mais de uma pessoa comentando, e haja fôlego para acompanhar.

Nos bastidores da política, os repórteres foram chamados por várias vezes para comentar os mesmos assuntos: os dados do desemprego, a nomeação do jurista Admar Gonzaga para o Tribunal Superior Eleitoral (e seu possível impacto no julgamento da chapa Dilma-Temer) e a pesquisa Ibope sobre a popularidade do presidente.

A cada uma das vezes em que comentavam, diziam praticamente o mesmo que já haviam dito sobre os mesmos assuntos. Faz parte da programação 24 horas.

A impopularidade de Temer foi associada pelo Ibope principalmente à situação econômica do país e à reforma da Previdência. Os comentaristas sempre procuravam tranquilizar os espectadores dizendo que as mudanças no cenário econômico demoram a ser percebidas pela opinião pública, daí a impopularidade.

"Os resultados [do Ibope] não têm nada de positivo, mas os resultados da economia demoram para aparecer; a taxa de inflação está melhorando, mas a percepção ainda não aparece", disse Cristiana Lôbo. "A sensação é de que parou de piorar o desemprego, começam alguns a entender isso."

"Na época da Dilma, a tendência era de piora do país; agora pelo menos parou de piorar e a expectativa é de que comece a melhorar. Ainda não melhorou, mas isso vem no segundo semestre", disse Valdo Cruz. "Governo costuma ter o quê? Baixa credibilidade."

"Se a gente tem 13 milhões desempregados, não podemos esquecer que tem 89 milhões de empregados", disse João Borges.

"O governo avalia que medidas impopulares impactam na avaliação, mas Temer já disse que não persegue a popularidade e sim a estabilidade do país", disse Natuza Nery. "As áreas críticas são impostos e juros. Como a inflação está muito mais baixa, o Banco Central deve reduzir a taxa de juros e governo vai investir para tentar reverter esse índice de popularidade".

O dia teve protestos contra medidas do governo Temer em São Paulo e no Rio; naquele mesmo dia, Temer sancionou o projeto de lei que permite a terceirização em todas as atividades. A GloboNews não deixou de mostrá-los, em quatro programas, totalizando oito minutos. A cobertura da pesquisa sobre a popularidade de Temer, em seis programas, totalizou 32 minutos.

"Protestos pacíficos são protestos democráticos", disse Leilane Neubarth após apresentar a notícia.

ESPECIALISTAS

Ouvir acadêmicos é algo bastante comum em emissoras que transmitem ao vivo -ainda que eles não tenham contato direto com o fato, costumam estar dispostos a falar por quantos minutos forem necessários para manter a atenção do espectador sobre algum assunto até que se tenha alguma novidade. Em 2015, o colunista Maurício Stycer viu um mesmo cientista político aparecer comentando os atentados de Paris em quatro programas diferentes.

A Folha de S.Paulo verificou as credenciais de todos os especialistas ouvidos pela emissora naquele dia. Não foram considerados nessa categoria as pessoas diretamente envolvidas na notícia, como o diretor da escola onde morreu Maria Eduarda ou o pesquisador que coordenou o estudo mostrando que a fosfoetanolamina, a "pílula do câncer" é ineficaz no combate à doença.

No dia 31, 14 especialistas foram convidados. O que mais vezes apareceu foi Paulo Storani, apresentado como antropólogo e especialista em segurança (7 aparições em seis programas). Em seguida, os pesquisadores da violência Inacio Cano, Silvia Ramos e Julita Lemgruber (2 aparições cada).

Trechos da entrevista de Storani (exceto aquele em que descartava a hipótese de execução) apareceriam em outros cinco telejornais da GloboNews até as 23h, e seriam citados num sexto programa. Storani é ex-capitão do Bope, o batalhão policial de elite do Rio de Janeiro, e palestrante motivacional em empresas.

Excetuando Cano, que pôde falar ao vivo em tempo semelhante ao de Storani, as outras duas pesquisadoras, ambas da Universidade Cândido Mendes, tiveram frases reprisadas ao longo da programação.

Quem passou mais tempo na tela, porém, foi Ilona Szabó, coordenadora da Comissão Global sobre Política de Drogas e membro do instituto Igarapé, que faz pesquisas sobre segurança pública. Ela participou do "Estúdio i" criticando os altos índices de violência da polícia do Rio. Mesmo quando a pergunta vinha carregada de indignação, ela procurava lembrar que existem padrões e protocolos que a polícia precisa seguir.

Citando uma frase de Storani, Maria Beltrão disse que pesa para o policial ver criminosos saírem livres. "Ele prende, a Justiça solta e os bandidos violentos acabam voltando à sociedade". Ilona respondeu: "Os crimes mais violentos precisam ser priorizados, não adianta ficar prendendo peixe pequeno, precisa investigar." Mais adiante, quando a colunista de bastidores de TV Patrícia Kogut insistia em fazer referências à noção de guerra, Szabó lembrava que até na guerra há protocolos legais a seguir ao abordar suspeitos.

Dois professores de economia foram chamados a comentar notícias diferentes. Ao menos nos seus sites acadêmicos, nenhum deles registra qualquer produção relacionada ao tema comentado.

Rafael Alcadipani, da FGV, participou da "Edição das 10h" discorrendo sobre a economia do tráfico internacional de drogas, a respeito de um estudo obtido pela GloboNews sobre a concentração de apreensões de cocaína no aeroporto de Guarulhos. Segundo o site da FGV, o economista tem pesquisas em diversas áreas, incluindo estudos organizacionais e interações de comunidades de policiais no Facebook, mas nenhuma sobre a dinâmica do narcotráfico.

Michael Viriato, do Insper, participou do "ContaCorrente", à noite, comentando as saídas criativas encontradas pelos cidadãos para abrir seu próprio negócio. Doutor em engenharia de sistemas e mestre em modelagem matemática, todas as áreas de interesse que declara em seu perfil acadêmico são referentes ao mercado financeiro: apreçamento de ativos e derivativos, avaliação de investimentos, finanças corporativas, gestão de carteiras e gestão de risco.

É comum que jornalistas procurem universidades pedindo o contato de algum economista, qualquer um, que tenha disponibilidade para dar entrevista dentro do prazo. O risco da desconexão entre o tema estudado e o tema comentado é sempre que a entrevista traga pouco além do senso comum.

"Como você mesma falou, a piora agora é menor que no ano passado", disse Viriato a Juliana Rosa, editora do programa de que participou. "É um ambiente de risco, o que traz oportunidades. Você não pode sair gastando todo seu capital, porque a economia vai demorar um pouquinho mais do que se esperava para retomar."

LENÇO E INDISCRIÇÕES

Os repórteres chamados a comentar o noticiário ao vivo não escapam de certos "micos", especialmente nos programas mais longos da GloboNews.

Único jornalista chamado a comentar mais vezes do que Sadi, o argentino Ariel Palacios transmitia da sala de sua casa na Argentina, sempre usando gravata e colete e tendo ao fundo sua biblioteca. Ele fez sua primeira participação ao meio-dia e a última no "Jornal das 10". Geralmente se atém ao noticiário mais factual, sem opinar, gracejar ou contar bastidores.

No "Estúdio i", uma mesa redonda de jornalistas passa duas horas comentando as notícias do dia e ouve alguns convidados; blagues e outras manifestações pessoais não são raras. Em fevereiro, por engano, mostraram Andréia Sadi sendo maquiada no Congresso, antes de entrar no ar, e esse virou o assunto dos apresentadores. A postura de Palacios contrasta com a informalidade da bancada, mas justamente por isso ele não escapou de ouvir um galanteio.

Após comentar o impasse democrático na Venezuela, com a Suprema Corte local se apropriando dos poderes do Legislativo, o correspondente foi interrompido pela apresentadora Maria Beltrão para um bate-papo:

"Uma senhora da Tijuca me fez uma pergunta fundamental: o Ariel parece um gentleman, um cavalheiro à moda antiga, que sempre tem um lenço para oferecer a uma dama que precise. É verdade, Ariel?", perguntou Maria.

"Sempre e no bolso do glúteo esquerdo!", respondeu Palacios, tirando o lenço do bolso e agitando-o em frente à câmera para comprovar. "A carteira, no bolso do glúteo direito. As chaves, no bolso esquerdo da frente. Sempre foi assim, desde que eu era criança."

"Parabéns por ter sempre um lenço. Eu gosto, gosto muito, aprecio muito. Beijo grande, Ariel", respondeu Maria, depois de mais duas trocas de frases.

A espectadora da Tijuca não era uma grande exceção. Um aspecto comum do "Estúdio i" é a leitura de e-mails e tuítes de espectadores, à guisa de interatividade. Isso muitas vezes dá margem ao inesperado. Em novembro, Maria Beltrão leu um comentário de alguém que assinava com um trocadilho chulo ("Doutor Cuca Beludo"). Após o sucesso no Twitter, a GloboNews tomou atitudes para excluir do YouTube todas as cópias do vídeo.

Na sexta, porém, a única manifestação menos branda foi um leitor desafiando os jornalistas a saírem do conforto do estúdio para andar pela periferia do Rio, onde trabalham policiais como os que haviam sido presos após o vídeo.

No início da noite, é a vez do "GloboNews Em Pauta", onde os assuntos do dia pontuam o bate-papo entre os quatro apresentadores, entre gargalhadas. De vez em quando pode acontecer de algum deles vestir uma máscara de Chewbacca para comentar a morte da atriz Carrie Fisher, ou alguma correspondente entrevistar um humorista do Pânico achando ser um apoiador de Trump, mas geralmente o que ocorre são elogios às roupas ou cabelo dos colegas e convites para se visitarem.

"Quando vim morar em Brasília, vendi meu carro achando que estava abafando, mas não tinha transporte público", disse Andréia Sadi ao comentar uma reportagem sobre arte urbana em São Paulo. "Bete, me deu uma saudade de morar em São Paulo, você não tem ideia!"

"Seja bem vinda!", disse Bete Pacheco, que comenta artes e espetáculos.

"Tem as pessoas na rua!", lembrou Sadi.

A repórter de política esquivou-se de perder fontes em Brasília mais tarde. Quando a reportagem da vez era sobre as convicções do vice-presidente dos Estados Unidos, que o impedem de estar sozinho no mesmo ambiente com mulheres, o apresentador Sérgio Aguiar lembrou as aventuras de Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinsky e tentou extrair indiscrições do poder na bolha do Planalto Central.

"Esse tipo de comportamento tem em Brasília também, ô Andreia?"

"Sérgio, por que você está fazendo isso comigo hoje?", respondeu, encabulada.

"Acho que foi na Câmara que encontraram uma calcinha no plenário certa vez, não foi?"

"Foi? Não lembro, eu não morava aqui, isso não é da minha época..."